Biblioteca
Educação Física e jogos

Bullying: indisciplina e abuso no contexto da Educação Física

Michel da Silva Tavares
Rogério Rosinha Bastos

Licenciados em Educação Física

O atual contexto escolar apresenta um fato preocupante na relação entre os alunos, o fenômeno denominado bullying; trata-se de “brincadeiras” utilizadas para evidenciar o constrangimento e a falta de respeito e limites entre as pessoas.

Essas brincadeiras passaram a ser denominadas assim em meados da década de 1990, e o primeiro a relacionar essas brincadeiras ao nome de bullying foi Dan Olweus, pesquisador e educador da Universidade de Bergen, na Noruega, na qual fez inúmeras pesquisas com relação às consequências que o bullying pode acarretar a suas ”vítimas”.

O bullying é considerado toda forma de agressão repetitiva, seja ela física ou verbal, sem motivo aparente, causando em suas vítimas consequências que vão desde o âmbito emocional até a aprendizagem (Fante, 2005).

Dessa forma, a partir desse estudo, investigamos a relação do bullying com a educação e a (in)disciplina, ou seja, analisamos o fenômeno bullying no meio escolar e suas principais causas e consequências, almejando conscientizar quanto à enorme importância da discussão sobre o tema, que está inserido entre todos envolvidos nesse processo educacional, apresentando como ele acontece, quais os envolvidos nesse processo, quais são os meios de evitá-lo e suas consequências.

No presente trabalho utilizamos o método de investigação qualitativo descritivo, que teve como base a pesquisa realizada em livros, revistas, internet e artigos, entre outros. Optamos por esse tipo de pesquisa por entender que a mesma responderia às questões a serem investigadas e atingiria os objetivos propostos. Apoiados em Gil (2007), descreveremos as características de uma determinada população ou fenômeno, levantando as suas opiniões, atitudes e crenças.

Nosso aprofundamento teórico abordou as relações existentes entre indisciplina na escola, o fenômeno bullying, inclusão e exclusão nas aulas de Educação Física, a importância do professor nas relações interpessoais e a conduta relacionada à adolescência.

Aprofundamento teórico

A aprendizagem e o desenvolvimento estão inter-relacionados desde que a criança passa a ter contato com o mundo. Na interação com o meio social e físico, a criança passa a se desenvolver de forma mais abrangente e eficiente. Isso significa que, a partir do envolvimento com seu meio social, são desencadeados diversos processos internos de desenvolvimento que permitirão um novo patamar de desenvolvimento (Berger; Luckman, 1995).

A criança, por meio da observação, imitação e experimentação das instruções recebidas de pessoas mais experientes, vivencia diversas experiências físicas e culturais, construindo, dessa forma, um conhecimento a respeito do mundo que a cerca (Berger; Luckman, 1995).

Para que esses conceitos sejam desenvolvidos e incutidos no aprendiz, o meio ambiente tem que ser desafiador, exigente, para poder sempre estimular o intelecto e a ação motora dessa pessoa. No entanto, não basta apenas oferecer estímulos para que a criança se desenvolva normalmente; a eficácia da estimulação depende também do contexto afetivo em que esse estímulo se insere; essa ação está diretamente ligada ao relacionamento entre o estimulador e a criança. Portanto, o papel da escola no âmbito educacional deve ser sistematizar esses estímulos, envolvendo-os em um clima afetivo que sirva para transmitir valores, atitudes e conhecimentos que visam o desenvolvimento integral do ser humano (Berger; Luckman, 1995).

A interferência de outras pessoas (professor e outros alunos) é fundamental para o desenvolvimento do indivíduo. O papel do professor deve ser de interventor intencional, estimulando o aluno a progredir em seus conhecimentos e habilidades por meio de propostas desafiadoras que o levem a buscar soluções, por intermédio da sua própria vivência e das relações interpessoais. Isso não deve significar uma educação autoritária, mas sim uma educação que possibilite ao aluno, por meio de estratégias estabelecidas pelo professor, construir o seu próprio conhecimento, com a reestruturação e a reelaboração dos significados que são transmitidos ao indivíduo pelo seu meio sociocultural (Berger; Luckman, 1995).

Vale ressaltar que a reestruturação e a reelaboração dos significados transmitidos nos momentos vivenciados são uma das formas de os alunos construírem sua autonomia em suas atitudes e procedimentos ancorados em seus saberes e conhecimentos adquiridos. Dessa forma, os discentes poderão agir de maneiras variadas, dependendo de como eles viveram suas experiências para colocá-las em prática quando for necessário, objetivo da educação a partir de seus conteúdos (PCNs, 1996/98).

Nesse sentido, tudo dependerá da atuação de cada aluno nos diversos momentos da vida, e é aí que nós conseguimos elencar as formas de agir dos discentes envolvidos no atual contexto escolar, a (in)disciplina.

O fenômeno bullying

Segundo Chaves (2008), na era da Pedagogia da Inclusão ainda constatamos no contexto escolar vários tipos de exclusões, discriminações, rejeições e perseguições permeando as relações interpessoais, definidos como bullying. Considerando que a sociedade atual apresenta um quadro de inversão de valores e de violência explícita, a escola têm a difícil missão de despertar o senso crítico em seus alunos, visando a uma sociedade plural, de tolerância às diferenças e fraterna, pautada em princípios éticos, estéticos e morais. Nesse sentido, a Educação Física, por seus profissionais, deve dar a sua contribuição para a superação da violência e das discriminações, que deixam marcas por vezes irreversíveis nos alunos excluídos, seja no aspecto corporal, moral ou emocional (Chaves, 2008).

Devemos ressaltar que a Educação Física poderá dar sua contribuição específica, porém faz-se importante a ação conjunta de uma equipe multidisciplinar para que se obtenham resultados mais efetivos frente à complexidade dos fatos envolvendo o bullying (Chaves, 2008).

A tradução literal do termo bully é ameaçar, intimidar, dar trote, fanfarronar e bravatear. Como não existe na língua portuguesa uma palavra capaz de expressar as situações de bullying, as seguintes ações podem estar relacionadas a esta prática: colocar apelidos pejorativos, ofender, zoar, encarnar, intimidar, tiranizar, assediar, amedrontar, discriminar e agredir (Chaves, 2008).

O termo bullying compreende todas as formas de atitudes agressivas, tanto intencionais quanto repetidas, tomadas por um ou mais estudantes contra outro(s), causando dor e angústia, ocorrendo dentro de uma relação desigual de poder. Significa utilizar de poder ou força repetidamente para perseguir, chantagear ou intimidar indivíduos que, indefesos, ficam abatidos, podendo causar enorme prejuízo à formação psicológica, emocional e socioeducacional da vítima (Chaves, 2008).

Por tratar-se de um fenômeno social, pode surgir em diversos contextos, em função das relações interpessoais de crianças, jovens e adultos, tais como: trabalho, prisões, orfanatos, família, escolas, clubes, áreas de lazer, internet e outros meios de comunicação (Chaves, 2008).

Para Fante (2005, p. 9), o bullying "estimula a delinquência e induz a outras formas de violência explícita, produzindo cidadãos estressados, deprimidos, com baixa autoestima, capacidade de autoaceitação e resistência à frustração, reduzida capacidade de autoafirmação e de autoexpressão". Dependendo da maneira como ocorre, pode causar transtornos mentais, psicopatologias graves (neuroses e psicoses) e doenças psicossomáticas (úlcera, diarreia, enxaqueca etc.).

No contexto escolar, Teixeira (2006) afirma que os alunos-vítimas podem apresentar, dependendo da gravidade dos fatos, transtornos comportamentais associados, como: fobia social, depressão, transtornos invasivos do desenvolvimento (síndrome de Asperger e autismo infantil), transtornos disruptivos (transtorno desafiador opositivo, transtorno de conduta), transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, transtorno bipolar do humor, depressão infantil e fobia escolar. Esses casos devem ter acompanhamento de um profissional habilitado para que possam ser identificados e tratados devidamente.

A vítima costuma ser a pessoa mais frágil, com algum traço ligeiramente destoante do “modelo” culturalmente imposto ao grupo etário em questão, traço este que pode ser físico (uso de óculos, alguma deficiência, incapacidade motora etc.) ou emocional, como é o caso da timidez, do retraimento (Ballone, 2007), ou seja, uma pessoa que não dispõe de habilidades físicas e emocionais para reagir, tem forte sentimento de insegurança e retraimento social suficiente para solicitar ajuda.

Normalmente a vítima é uma pessoa retraída e com dificuldades para novas amizades ou para se adequar ao grupo. É frequentemente ameaçada, intimidada, isolada, ofendida, discriminada, agredida, recebe apelidos e provocações, tem seus objetos pessoais furtados ou quebrados. No ambiente familiar, a vítima apresenta sinais de medo ou receio de ir para a escola, não procura ajuda de familiares, professores ou funcionários da escola. Esse conjunto de fatores faz com que a vítima troque de escola seguidamente, ou pior, que abandone os estudos. Nos casos mais graves, a vítima acaba desenvolvendo severa depressão, podendo chegar ao ponto de cometer suicídio (Ballone, 2007).

Geralmente os agressores são pessoas sem limites (familiar, social etc.), que gostam de experimentar a sensação de poder, apresentam dificuldade de relacionamento social, são inseguros, carentes afetivamente e inadequados, sofrem intimidações em suas casas, já foram vítimas de algum tipo de abuso, são frequentemente humilhados por outros e vivem sob constante pressão para que tenham sucesso em suas atividades rotineiras. Estudos realizados em diversos países já sinalizam para a possibilidade de que estas pessoas venham a se envolver em atos de delinquência ou crimes (Abrapia, 2005).       O agressor impõe seu comportamento ao grupo, atraindo seguidores que passam a compactuar com as agressões. Esses seguidores, em função da necessidade gregária, passam a efetuar agressões para serem aceitos no grupo, ampliando o problema (Abrapia, 2005).

As testemunhas são alunos que não sofrem nem praticam bullying, mas convivem num ambiente onde ele ocorre. Geralmente se calam em função do temor de se tornarem as próximas vítimas e se sentem incomodados com o que veem e inseguros sobre o que fazer (Abrapia, 2005).

Dan Olweus, depois de inúmeras pesquisas com jovens e adolescentes noruegueses, dividiu o bullying em dois tipos: bullying direto e bullying indireto. O direto é a forma mais comum entre os agressores (bullies) masculinos. São considerados bullying direto as agressões físicas, ameaças, os roubos e, em alguns casos, até mesmo abuso sexual. O bullying indireto, também conhecido como agressão social, é a forma mais comum entre os agressores (bullies) do sexo feminino e crianças pequenas; é caracterizado por forçar a vítima ao isolamento social. Esse isolamento é obtido mediante uma vasta variedade de técnicas, que incluem espalhar comentários; recusa em se socializar com a vítima, exclusão devido às características socioculturais (modo de vestir, religião, incapacidades, etnia etc.) e intimidação de outras pessoas que desejem se socializar com a vítima (Wada, 2010).

É importante ressaltar que tanto as vítimas como os agressores e as testemunhas devem receber a devida atenção no processo educacional, visando à superação do problema. Deve existir um enfoque multidisciplinar para a obtenção de resultados efetivos no combate ao bullying na escola. Portanto, quanto mais cedo ocorrerem as interferências na esfera escolar, mais chances de êxito teremos na formação de alunos-cidadãos comprometidos com uma sociedade mais justa e igualitária (Chaves, 2008).

(In)disciplina na escola

Profissionais da educação (diretores, coordenadores, técnicos etc.) e muitos pais, quando provocados a analisar as possíveis causas da incidência desse comportamento nas escolas, muitas vezes acabam por atribuir a responsabilidade ao professor. Nessa ótica, a origem da indisciplina está relacionada exclusivamente à falta de autoridade do professor, de seu poder de controle e aplicação de sanções. O problema parece reduzir-se à presença de maior ou menor “pulso” para administrar e controlar a turma de alunos, assim como aplicar medidas punitivas mais ou menos rigorosas (Rego, 2007).

É curioso observar que os alunos indisciplinados costumam alegar motivos bem diferentes para a presença da indisciplina. Com frequência dirigem suas criticas ao sistema escolar. Reclamam não somente do autoritarismo, ainda tão presente nas relações escolares, mas também da qualidade das aulas, da quantidade de matérias incompreensíveis, pouco significativas e desinteressantes; das aulas monótonas, da aspereza de determinado professor; do espontaneísmo de outro; da obrigação de permanecerem sentados durante horas; do excesso de faltas dos docentes (no caso das escolas públicas) e da enorme pressão que sofrem para serem aprovados nos vestibulares (Rego, 2007).

O comportamento indisciplinado não resulta de fatores isolados (como, por exemplo, exclusivamente da educação familiar, da influência da TV, da falta de autoridade do professor, da violência da sociedade atual), mas da multiplicidade de influências que recaem sobre a criança e o adolescente ao longo de seu desenvolvimento.

Em outras palavras: o comportamento (in)disciplinado é aprendido. Podemos inferir, portanto, que o problema da (in)disciplina não deve ser encarado como alheio à família nem à escola, já que, em nossa sociedade, elas são as principais agências educativas. Nesse sentido, a indisciplina parece indicar que a educação está em falta. A família, entendida como primeiro contexto de socialização, exerce indubitavelmente grande influência sobre a criança e o jovem. A atitude dos pais, suas práticas de criação e educação são aspectos que interferem no desenvolvimento individual e, por conseguinte, influenciam o comportamento do aluno na escola. É impossível negar, então, a importância e o impacto que a educação familiar tem sobre o indivíduo do ponto de vista cognitivo, afetivo e moral. Entretanto, seu poder não é absoluto e irrestrito (Rego, 2007).

A escola não pode eximir-se de sua tarefa educativa no que se refere à disciplina. Se uma de suas metas é que os alunos aprendam as posturas valorizadas na nossa cultura (como apresentar atitudes de solidariedade, cooperação e respeito aos colegas e professores), a prática escolar cotidiana deve dar condições para que eles não somente conheçam essas expectativas como também construam e interiorizem tais valores e, principalmente, desenvolvam mecanismos de controle autorreguladores de sua conduta. Para que isso ocorra, a escola e os educadores precisam aprender a adequar suas exigências às possibilidades e necessidades dos alunos, como, por exemplo, quanto à sua capacidade de concentração e compreensão. Os alunos, por sua vez, mais do que obedecer e se conformar às regras estabelecidas, devido ao receio de punições e ameaças (nota baixa, advertência para os pais assinarem, suspensão das aulas etc.), precisam ter a oportunidade de conhecer e até mesmo discutir as intenções que as originaram, assim como as consequências, caso sejam infringidas. Nessa perspectiva, o papel mediador do professor é de fundamental importância (Rego, 2007).

Inclusão x exclusão: nas aulas de Educação Física

A Educação Física tem papel importantíssimo no contexto escolar, salientado no Manifesto Mundial da Educação Física - FIEP/2000 (Fédération Internationale D’Éducation Physique), que, no capítulo XVI, falou a respeito da "Educação Física e seu compromisso contra a discriminação e a exclusão social", e teve como conclusão: "a Educação Física deve ser utilizada na luta contra a discriminação e a exclusão social de qualquer tipo, democratizando as oportunidades de participação das pessoas, com infraestruturas e condições favoráveis e acessíveis" (art. 18, p. 43).

Quando se trata de uma sociedade plural, composta de diferenças de todas as ordens, surge a necessidade de atentar para grupos minoritários que por vezes são discriminados ou marginalizados. Essa exclusão recai sobre diferenças associadas a gênero, raça, etnia, classe social, religião, idade, habilidades motoras, biotipo, desempenho esportivo, doenças crônicas e portadores de deficiências, dentre outras (Chaves, 2008).

A importância do professor nas relações interpessoais

O período das aulas deve servir para o exercício de práticas sociais, investindo positivamente nas relações interpessoais pautadas em valores humanos, como cooperação, solidariedade, respeito, justiça, enfim, voltadas para a formação da cidadania (Chaves, 2008).

No processo de socialização do indivíduo, devem prevalecer os princípios da igualdade (que todos tenham os mesmos direitos), e da alteridade, baseando-se no respeito e na tolerância às diferenças que cada ser humano possui (Chaves, 2008). O professor deve estar atento para não se converter em agressor, entrando assim em sintonia com os praticantes do bullying. Para isso, deve atentar para algumas situações, como: a forma de fazer as correções pedagógicas, para não ridicularizar ou rotular alunos; evitar depreciações quanto ao rendimento deles; mostrar preferência por alguns e indiferença a outros; fazer ameaças, perseguições e comparações entre eles ou colocar apelidos pejorativos, dentre outras posturas inadequadas (Chaves, 2008).

Segundo esse autor, a linguagem corporal / não verbal dos alunos é importante no sentido de observar alguns fatos: violência corporal nas atividades e jogos; olhares e risadas desqualificantes, intimidatórias e ridicularizantes; exclusões intencionais (exaltação do erro, não passar a bola, ignorar na escolha das equipes, distanciamento físico de alguns alunos...) e provocações corporais (tapas, empurrões, esbarrões, assédios...); dentre outras manifestações.

As reclamações dos alunos (vítimas e/ou agressores) são de suma importância para percebermos a presença de bullying; sendo assim, não devemos mandar o aluno revidar ou ignorar o fato, mas sim, buscar os procedimentos adequados e as providências cabíveis. O professor deve aproximar-se tanto do aluno-vítima como do aluno-agressor, na tentativa de superar ou diminuir a incidência de situações que  envolvam discriminação. Também vale ressaltar que os alunos-agressores, com suas dificuldades e inseguranças, podem estar querendo chamar a atenção e precisam ser ouvidos e auxiliados em suas carências, e essa aproximação entre o aluno e o professor pode dar um fim à cadeia de agressividades (Chaves, 2008).

Uma estratégia que pode ser utilizada para a superação ou diminuição da incidência do fenômeno bullying são os jogos cooperativos. "O jogo cooperativo busca aproveitar as condições, capacidades, qualidades ou habilidades de cada indivíduo, aplicá-las em um grupo e tentar atingir um objetivo comum" (Amaral, 2004, p. 13).

Esses jogos podem ajudar no desenvolvimento de uma melhor autoestima e do convívio social entre os indivíduos, podendo ser utilizados como base de prevenção para que certos problemas sociais não se tornem problemas reais. Nesses jogos, os alunos realizam as atividades uns com os outros e não contra, tornando-se companheiros em uma atividade, e não rivais; os alunos jogam pelo prazer e tornam visível a alegria de participar; desenvolve a autoconfiança; impulsiona a melhora no senso de unidade no grupo; permite que os jogadores vivenciem um sentimento vitorioso e estimula a perseverança frente às suas dificuldades (Soler, 2002, 2005; Amaral, 2004; Broto, 2001).

Conduta relacionada à adolescência

O problema é mais evidente dos 10 aos 15 anos; segundo Rodrigues (2009), “é quando o pré-adolescente descobre que consegue ter controle sobre o comportamento do outro através de estímulos adversos”. Quem demonstra ser mais fraco (física ou psicologicamente) é humilhado. Devido a esses acontecimentos, pais e professores unem-se para discutir a respeito de ética e moral e sobre atitudes imorais e antiéticas. Portanto, os dois lados envolvem-se em questões de limite e disciplina. “Reformular o regimento interno da instituição escolar junto aos estudantes surte maior efeito educativo do que impor castigo ao aluno. Porque regimento imposto pela escola, numa questão de hierarquia, a tendência é subverter” (Rodrigues, 2009).

Além de minimizar a autoestima da vítima, a má conduta do agressor deverá servir como alerta à escola, para mostrar que o sistema não está funcionando corretamente, pois muitos alunos já cogitaram mudar de escola por serem humilhados, seja nas proximidades da escola, no recreio, no intervalo, no horário da refeição, durante a Educação Física, até nos meios de comunicação (Rodrigues, 2009).

Aparência, condição financeira, inteligência, etnia, comportamento. Não importa o motivo. A questão é a má conduta do indivíduo. Se a pessoa não se adapta à maioria, ela é trucidada por essa maioria. Então, o impacto é imenso quando adolescentes tímidos, introspectivos, com alguma diferença dos demais cometem atos criminosos. Exemplos disso aconteceram em algumas escolas nos Estados Unidos, em tragédias realizadas por jovens anônimos que ressurgiram da tristeza de seu mundo e mataram pessoas aleatoriamente. Tais impulsos inesperados ficam guardados no âmago de quem conviveu com a exclusão dos próprios colegas (Rodrigues, 2009).

Considerações finais

Evidenciamos que a escola tem a função de propiciar conteúdos e valores pautados na ética, que possui como elementos constitutivos o respeito mútuo, a justiça, o diálogo, a solidariedade, a cooperação, a sinceridade e a autenticidade. A Educação Física não pode se eximir da responsabilidade de colaborar com esses valores na formação dos alunos.

A compreensão mútua entre os seres humanos é vital para que as relações saiam de seu estado bárbaro de incompreensão. A antropoética deve trabalhar para a humanização, a solidariedade, o respeito e a tolerância às diferenças. "A ética da compreensão pede que se compreenda a incompreensão” (Morin, 2005, p. 99). Segundo Chaves (2008), “a exclusão nas escolas lança as sementes do descontentamento e da discriminação social e o ensino inclusivo é a prática para todos, independente de talento, deficiência, origem socioeconômica ou origem cultural, visando atender às necessidades dos alunos”.

As formas de exclusão e violência ocasionadas pelo bullying podem contribuir para diversos problemas psicológicos e sociais graves. Segundo Chauí (2000), a utilização desigual da força física e da chantagem emocional, contrária ao corpo e à consciência, pode causar "danos profundos e irreparáveis, como a morte, a loucura, a autoagressão ou a agressão aos outros".

Precisamos, portanto, que os profissionais da educação (independente de seu componente curricular) sejam comprometidos a realizar um trabalho articulado entre todas as áreas do conhecimento. Desse modo, o profissional de Educação Física deverá estar sempre atento à sua proposta de aula, para que não inclua jogos ou brincadeiras que possibilitem a exclusão de alguns participantes, como os jogos cooperativos, nos quais permite a participação de todos e prioriza a ação conjunta para a conquista de um objetivo comum.

Concluímos que não existem soluções prontas para o combate efetivo desse fenômeno, frente à sua complexidade. Mas estamos em busca incessante para que ocorra sua diminuição pela conscientização das pessoas. Para que consigamos resultados, precisamos do auxilio de todos, tanto de pais e educadores quanto dos envolvidos diretamente com o bullying (agressores, vítimas e testemunhas). Com isso, necessitamos de um aglomerado de ideias e de fatores (campanhas antibullying, denúncias, palestras, oficinas etc.) que permitam a redução da incidência desse fenômeno entre jovens e adolescentes.

Referências

ABRAPIA - Associação Brasileira de Proteção à Infância e Adolescência. Programa de redução do comportamento agressivo entre estudantes. Disponível em: www.bullying.com.br/Bconceituação21.htm. 2005.

AMARAL J. D. Jogos cooperativos. São Paulo: Phorte, 2004.

BALLONE, G. J. Maldade da infância e adolescência: bullying. Disponível em: www.psiqweb.med.br. 2007.

BERGER, P.; LUCKMAN, A. Construção social da realidade. Petrópolis: Vozes, 1995.
BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais – primeiro e segundo ciclos do Ensino Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1996/1998.

BROTO, F. O. Jogos cooperativos: o jogo e o esporte como um exercício de convivência. Santos: Projeto Cooperação, 2001.

CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 12ª ed. São Paulo: Ática, 2000.

CHAVES, W. M. Fenômeno bullying e a Educação Física Escolar. Disponível em: cev.org.br/biblioteca/fenomeno-bullying-e-educacao-fisica-escolar. 2008.
FANTE, C. Fenômeno bullying: como prevenir a violência nas escolas e educar para a paz. Campinas: Verus, 2005.

FEDERATION INTERNACIONALE D'EDUCATION PHYSIQUE. Manifesto Mundial da Educação Física. Paraná: Kaygangue, 2000.
GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 4ª ed. São Paulo: Atlas, 2007.

MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 10ª ed. São Paulo: Cortez; Brasília: Unesco, 2005.

REGO, T. C. O papel dos educadores na disciplina escolar (Ensino Médio). Revista Pátio, v. XI, nº42, maio/julho, 2007.

RODRIGUES, G. Bullying: o ódio às diferenças. Saiba como a escola deve proceder. Disponível em: www.educacaofisica.com.br/noticias_mostrar.asp?id=7593. 2009.

SOLER, R. Jogos cooperativos. Rio de Janeiro: Sprint, 2002.

SOLER, R. Brincando e aprendendo com os jogos cooperativos. Rio de Janeiro: Sprint, 2005.

TEIXEIRA, G. Transtornos comportamentais na infância e adolescência. Rio de Janeiro: Rubio, 2006.

WADA, C. Bullying: Perigo nas Escolas e em todo o Meio Ambiente. Disponível em: cev.org.br/biblioteca/fenomeno-bullying-e-educacao-fisica-escolar. 2010.

Publicado em 29/11/2011