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Educação Física e jogos

Jogos cooperativos e educação física

Kátia Maria Alves Barata

Licenciada em Educação Física e cofundadora e focalizadora da Cooperando – Instituto para a Cooperação

Um pouco de história

Há alguns bons anos, no início de uma aula de jogos cooperativos para estudantes universitários, professores e funcionários, comentei que, naquele dia, iríamos jogar voleibol. Percebi que uma das alunas, Berenice, ficou um pouco transtornada, até que ela se aproximou e me disse que iria embora, que não participaria da aula porque não sabia jogar vôlei. E complementou, já se voltando para a porta: "Sou péssima". Pedi para que ficasse e argumentei que, nas nossas aulas, os jogos eram sempre "meio" diferentes e que valeria a pena experimentar, mas que, ainda assim, ficasse à vontade para decidir.

Meio desconfiada e relutante, Berenice ficou. E jogou! Jogou um voleibolão com uma bola grande e colorida. Percebeu que poderia sacar de qualquer local da quadra, trocou de lado a cada vez que passava a bola por cima da rede e também foi desafiada a, junto com seus colegas, tocar a bola seis vezes passando por todos os jogadores da equipe antes que fosse lançada para o lado oposto. E deu muita risada! Ao final da aula, chegou novamente até mim e disse que nunca havia se divertido tanto numa aula. "Adorei!!", disse ela.

Confesso que saí daquela aula incomodada. Não pela aula em si, porque seus objetivos tinham sido atingidos e os alunos tinham saído com rostos felizes. Recém-formada, ainda trazia comigo a ilusão de que, na escola, TODOS adoravam as aulas de Educação Física. As minhas lembranças me davam conta de que aquelas aulas eram esperadas ansiosamente por serem uns dos poucos momentos da semana em que podíamos sair das carteiras, movimentar-nos, falar mais alto e que aprendíamos jogos "com bola". Mas, naquele dia, percebi que essas mesmas aulas, para mim tão queridas, poderiam proporcionar uma outra aprendizagem: a do fracasso. Berenice havia aprendido muito bem tudo aquilo que ela NÃO sabia fazer. E não se tratava de um caso raro e isolado. Comecei a observar que outros alunos, adultos, jovens e crianças, muitas vezes se esquivavam de participar de alguns jogos. Quando comecei a trabalhar numa escola, alguns dos meus novos alunos chegaram para mim e disseram algo como: "Ah, professora, é que eu não gosto muiiiiito de Educação Física, eu não sei jogar...". Percebi que eu mesma, assim como Berenice, não entrava em jogos de vôlei com amigos porque eu também era "péssima". E comecei a me inquietar ao me deparar com tantas pessoas sedentárias. As aulas de Educação Física não nos ensinam a amar o movimento?

Agora uma outra história...

Na verdade, todos esses questionamentos não eram novidade na área de Educação Física. Ao menos no meio acadêmico. Antes de continuar, vamos fazer um pequeno recorte para entendermos as influências que marcaram o caminho histórico da Educação Física no Brasil. No século 19, a Educação Física esteve estreitamente vinculada às instituições militares e à classe médica, assumindo uma função higienista, com meta de constituir físicos saudáveis, menos suscetíveis às doenças, que defendessem os ideais da pátria. Na década de 30, já no século 20, esteve associada às ideias de eugenização da raça e de fortalecimento da capacidade produtiva no trabalhador. Na década de 60, sofreu influência da tendência tecnicista, quando o ensino era visto como maneira de se formar mão-de-obra qualificada e a Educação Física se voltou para o desempenho técnico e físico do aluno. Na década de 70, a Educação Física assumiu, então, funções para a manutenção da ordem e do progresso. Para o governo militar, a Educação Física poderia colaborar para a melhoria da força de trabalho para o "milagre econômico" e para a segurança nacional. Nesse período, criou-se também um forte vínculo entre nacionalismo e esporte, e a iniciação esportiva se tornou um dos eixos de ensino para busca de talentos que pudessem representar a pátria em competições internacionais. Na década de 80, esses modelos começaram a ser contestados, gerando uma crise de identidade. A Educação Física se voltou para priorizar o segmento da primeira a quarta séries e passou a ter um enfoque o desenvolvimento psicomotor do aluno, e não mais nos esportes de rendimento (BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: Educação Física. Brasília: MEC/SEF, 1997.).

Desde então, os debates cresceram e permitiram que a Educação Física fosse questionada quanto a seu papel e sua dimensão política e social. Houve uma mudança de enfoque quanto à natureza da área, que ampliou sua visão estritamente biológica, aproximando-se das ciências humanas e enfatizando suas dimensões sociais, psicológicas, culturais, afetivas, compreendendo o aluno como um ser integral.

Também os objetivos se tornaram mais amplos (não apenas voltados para a formação do físico), os conteúdos se diversificaram (não apenas exercícios e esporte) e os pressupostos pedagógicos de ensino e aprendizagem se humanizaram. Mesmo havendo, hoje, diferentes abordagens para a Educação Física escolar que resultam da articulação de diferentes teorias psicológicas, sociológicas e concepções filosóficas, todas, embora com enfoques científicos diferenciados, buscam articular as múltiplas dimensões do ser humano.

Mas na prática...

Mesmo com a superação da concepção que os conceitos de corpo e movimento se restringiriam apenas aos seus aspectos fisiológicos e técnicos, percebemos que muitos professores têm dificuldades para transformar sua prática. Embora não possamos generalizar, ainda vemos aulas centradas no professor, sem espaço democrático para reflexões e tomadas de decisões conjuntas e sem o desenvolvimento de autonomia; com conteúdo exageradamente esportivizado ou recheadas por jogos rígidos sem oportunidade para construções e "desconstruções" coletivas; com ênfase nos resultados, na aptidão (não são os "menos aptos" sempre os primeiros a saírem dos jogos?) e em gestos técnicos, em detrimento da exploração e criação de possibilidades de movimentos; aulas com ranços de adestramentos, com excesso de filas sem que haja razões reais para elas; ou então aulas acríticas e apolíticas, verdadeiros sistemas fechados, que desconsideram o seu entorno e as relações presentes na sociedade.

Outras vezes, mesmo com boas intenções (será?), percebemos que professores escolhem estratégias equivocadas. Um exemplo: certa vez, uma amiguinha minha quis me contar o que tinha acontecido na sua aula de Educação Física daquele dia. Eu sabia que o seu professor já tinha participado de um curso de jogos cooperativos e fiquei na expectativa do relato. Fiquei sabendo, então, que tinha havido um jogo diferente. "Seria cooperativo?", pensei. Mas o tal jogo "era assim": dois alunos, um de cada equipe corriam pela quadra. O que chegava por último era eliminado? É claro que não! Mas escolhia alguém da sua própria equipe para ser eliminado em seu lugar (!!!!!!).

Jogos cooperativos: a solução?

Mas é claro que nem todos as aulas têm essas formas. Existem também muitos professores críticos, preocupados com suas práticas e compromissados com uma educação humanizadora, transformadora e pautada em valores humanos positivos. Professores assim encontram nos jogos cooperativos uma ferramenta pedagógica importante para a construção de uma educação física coerente com seu discurso.

Isso se dá pelo fato de os jogos cooperativos se ancorarem em princípios de inclusão, cooperação e não seletividade. Por suas características estruturais, dão oportunidade a todos para desenvolverem potencialidades, facilitam situações de sucesso (sucesso compartilhado, melhor ainda) e promovem relações de respeito, amizade e solidariedade.

Mas a pura aplicação de jogos cooperativos por si só não basta e não garante nada. A "mágica" não acontece sozinha. Para uma inclusão bem-sucedida desses jogos em programas escolares, é necessário que se vá além da técnica dos jogos cooperativos e que se dê atenção a algumas coisas importantíssimas. Aqui vão algumas dicas:

  • os jogos cooperativos facilitam o desenvolvimento da autonomia, da cooperação e da participação social, mas, para isso, deve haver um canal sempre aberto para construções coletivas, mudanças de regras, exposição de sentimentos, consensos e conflitos, horizontalizando relações e deixando para trás posturas hierárquicas. Os jogos cooperativos só podem ser entendidos se o professor tiver um papel de facilitador, não de tomador de decisões, e se a aula - não apenas o jogo - também for alicerçada pela cooperação;
  • querer que os outros sejam cooperativos é muito diferente de ser cooperativo. É fundamental que o professor analise constantemente suas ações (até mesmo na equipe escolar), que queira sempre se aprimorar como profissional e como pessoa e que esteja aberto a autotransformações;
  • que haja o compromisso e a determinação para que as aulas de Educação Física configurem uma instância em que se aprenda a construir uma sociedade justa e em que todos possam se aprimorar como seres humanos. O professor não deve se esquivar de seu papel e evitar discussões acerca de aspectos éticos e sociais. O homem é um ser cultural, o movimento humano é resultado de cultura, mas também é fator de cultura. Isto é, através da Educação Física e dos jogos cooperativos, é possível experimentar situações ímpares que mobilizam aspectos afetivos, sociais e éticos e que, bem acolhidos, podem impulsionar transformações.

Nessa perspectiva, há espaço para os jogos e esportes de competição nas aulas de Educação Física? Sim, é claro. A valorização dos jogos cooperativos não significa a "exclusão" (o que, de certo modo, seria incoerente) das demais manifestações da cultura corporal hoje apropriadas pela Educação Física. Mas que não se jogue por jogar, que não se dance por dançar, não se lute por lutar. Que as vivências sejam significativas e críticas e que a Educação Física seja coerente e verdadeira.

Mais importantes que os instrumentos são os propósitos, mais importantes que os jogos são as pessoas. Mas que os jogos cooperativos ajudam as "Berenices" a compreenderem que são capazes como todos os outros, e que também são, como seus próprios nomes dizem, portadoras de vitórias, ah, isso ajudam!