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Educação

Indisciplina: uma forma de aprendizagem

Claudio Marcio dos Santos

Licenciando do Curso de Pedagogia da Faculdade de Belford Roxo

Introdução

Este artigo lança um olhar sobre a indisciplina como forma de aprendizagem: aluno-professor-família-escola, passando pela sociedade. Pesquisamos se a indisciplina pode ser trabalhada em sala de aula como potencial criativo e construtivo. Nosso foco está nas habilidades e competências do educando. A indisciplina pode sinalizar o descontentamento com a metodologia do educador, com o espaço escolar, com a relação familiar e/ou a maneira como seu saber é ignorado pela escola. Procuramos compreender como essa aprendizagem é possível realizando entrevistas e pesquisa bibliográfica com estudiosos como Foucault, Vygotsky, Stirner, Wallon, Celso Antunes, Celso Vasconcelos, Julio Groppa Aquino, Paulo Freire, Renato Alves, Emile Durkheim.

A proposta do escrever sobre esse tema surgiu após acompanhar as aulas e posteriormente ouvir os educadores de uma escola situada em São João de Meriti (onde fiz estágio e depois lecionei Educação Religiosa durante seis meses). Constatei que as frases se repetiam na sala dos professores, numa tentativa de justificar: notas baixas, recuperação, falta de aprendizado e mínima atenção às aulas. Os educadores diziam: “Eles (os alunos) não querem nada, os pais não vêm à escola para saber como estão os filhos”, apontando a indisciplina como fator inibidor do aprendizado, um empecilho à prática docente oriunda de uma má formação/educação familiar.

Entretanto, segundo Antunes (2011, p. 19), “A indisciplina quase sempre emana de três focos: a escola e sua estrutura, o professor e sua conduta e o aluno e sua bagunça”. A indisciplina, sob a ótica docente, despeja todo o peso da responsabilidade sobre o educando e sua família, pois o que está em questão é o comportamento inadequado em sala de aula, o desrespeito à figura do mestre que tem o objetivo de fazer uma exposição da matéria no quadro ou no slide, para que o aluno “aprenda” o que foi “ensinado”.

Tínhamos uma ideia clara do tema sobre o qual queríamos escrever. No entanto, a clareza de qualquer ideia somente é evidenciada após a pesquisa e a confrontação de ideias convergentes e divergentes. Sendo assim, nossa proposta inicial era combater a indisciplina, ou seja, pesquisar instrumentos que possibilitassem ao educador a confrontação à indisciplina em sala de aula. Mas havia algo que não sabíamos, e após pesquisar constatamos que não tínhamos um simples elemento, importante e modificador de nossa proposta inicial: o conhecimento do conceito de indisciplina e de disciplina, a partir do próprio olhar do educador, ouvindo depoimentos, lendo sobre experiências e teorias sobre a educação.

Pudemos comprovar que, enquanto o professor se dedica à sua exposição, os estudantes falam o tempo todo, parecendo não considerar a presença do professor em sala de aula. Conversas as mais diversas. Mas por que tanta conversa paralela, se o objetivo do aluno é ir à escola para aprender? Por quais motivos os alunos não prestam atenção na aula? O que o educador pode fazer diante desse cenário aparentemente caótico e desanimador? Essas atitudes dos alunos sugerem total e completa indisciplina? Não seria o caso de aplicar punições severas, como no passado?

A partir dessas questões passamos a considerar o seguinte: a indisciplina que ocorre em sala de aula parece ser uma forma de resistência do aluno às metodologias aplicadas. Uma sinalização aos professores e à escola de que as metodologias não estão acompanhando as transformações socioculturais e cognitivas dessas modificações tecnológicas e de comunicabilidade atuais. É como se estivessem em jogo elementos valorativos sobre autoridade e conhecimento que se enfrentam em papéis sociais vivenciados por professor–aluno–escola. O aluno que tem potencial, que aprende muitas coisas e participa de muitas atividades, pela indisciplina expressa seu descontentamento: “Para que serve isso que você fala? Como posso aplicar isso em meu dia a dia? Você não entende o que eu passo, como pode querer ter autoridade sobre o que devo ou não aprender ou fazer?” Esses questionamentos, não ocorriam nas décadas de 1970 e 80; com o advento da internet, o processo de comunicação/informação se tornou acessível e veloz, permitindo aos alunos conhecer outras realidades e, ao mesmo tempo, refletir sobre a própria condição social. Dessa forma, iniciamos a busca por uma melhor compreensão da indisciplina e o que de fato está por trás dela: um potencial positivo. Mas como é possível utilizar o potencial da indisciplina em benefício do aprendizado e do desenvolvimento para uma visão democrática e cidadã?

Disciplina e indisciplina

Um olhar sobre a disciplina

Segundo o Novo Dicionário Aurélio (1999), disciplina é o regime de ordem imposta ou livremente consentida; ordem que convém ao funcionamento regular duma organização (militar, escolar etc.); relações de subordinação do aluno ao mestre ou ao instrutor; observância de preceitos ou normas; submissão a um regulamento; ensino, instrução, educação.

A disciplina propõe leis, ordens, regras que regem as ações das pessoas. Isso parece bem simples; no entanto, a desobediência a essas regras implica infração, insubordinação ou indisciplina. A questão que procuramos avaliar é a seguinte: toda quebra de disciplina deve ser vista como má? Toda disciplina é essencialmente boa e/ou perfeita? A geração da década de 1970 lutou contra a disciplina rígida e punitiva, ou seja, a disciplina que castiga. O senso comum define disciplina como castigo, punição; disciplinar alguém torna-se equivalente a castigar ou corrigir. Mas, insistindo nesta reflexão, proponho a seguinte avaliação: a disciplina pode ser nociva quando impede o indivíduo de exercer seu livre-arbítrio, sua potencialidade crítica, sua capacidade de questionar e propor suas ideias, ainda que elas sejam diferentes da ideia da maioria das pessoas; quando a disciplina formata e cerceia o pensar, ela se coloca como ditadora. É com esse ponto da disciplina que devemos ter cuidado ao exercer a aplicação das regras, pois punir é mais fácil do que permitir a mudança dos paradigmas.

Nosso trabalho se dá no contexto educacional, embora sua aplicação atinja todas as esferas de relacionamento do educando. Por isso, entendemos que a disciplina deve ser aplicada como elemento de construção e permissão à desconstrução de paradigmas, sem quebrar regras que infrinjam as leis, porém que proporcionem ao educando senso crítico e participativo na convivência social e transformadora. Como propõe Antunes (2005, p. 89), acreditamos que seja uma das melhores maneiras de vislumbrar e aplicar a disciplina em sala de aula: a disciplina não pode jamais chegar ao aluno como uma ordem, um castigo, um imperativo que, partindo do mais forte, dirige-se ao oprimido em nome de seu conforto pessoal; deve ser vista como produto de debate, reflexão, estudo de caso e análise em que se descobre a hierarquia de povos disciplinados sobre clãs sem mando ou sobre sociedades oprimidas. Não podemos ficar indiferentes à visão de Durkheim (2007, p. 6), pois ele considera que “toda educação consiste num esforço contínuo para impor à criança maneiras de ver, de sentir e de agir às quais ela não teria chegado espontaneamente”. Sendo assim, conforme já exposto, não desconsideramos a necessidade da disciplina, ela é benéfica e necessária; porém não concordamos com a ideia de que a disciplina esteja embasada/direcionada exclusivamente para o castigo ou a punição.

A disciplina deve orientar as regras, s leis e o bem comum, a fim de conduzir ao benefício permanente do educando e da sociedade. Como expõe Foucault (1987, p. 164), “esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade são o que podemos chamar as disciplinas”. Muitos processos disciplinares existem há muito tempo: nos conventos, nos exércitos, nas oficinas também. Mas as disciplinas se tornaram, no decorrer dos séculos XVII e XVIII, fórmulas gerais de dominação.

Stirner (2001, apud Oliveira, 2011) ressalta a questão da disciplina que formata, impedindo o discente de construir saberes e se indisciplinar: “[os locais de ensino] não se contentam, ao contrário, com formar pessoas de bom senso; não visam, para dizer a verdade, a formar pessoas ouvindo a voz da razão. [...] Em Pedagogia, como em outros campos, a liberdade não pode expressar-se, nossa faculdade de oposição não pode exprimir-se; exigem apenas a submissão”. O único objetivo é adestrar à forma e à matéria: do estábulo dos humanistas não saem senão letrados; do estábulo dos realistas, só cidadãos utilizáveis; e, em ambos os casos, nada além de indivíduos submissos. Sufocam pela força nossa saudável tendência à indisciplina e ao mesmo tempo impedem o saber de desenvolver-se em vontade livre.

A disciplina é o respeito às regras ou leis; então, precisamos seguir a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que em seu art. 2º, no item Dos Princípios e Fins da Educação Nacional, registra: “A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.

O senso comum diz que a educação vem de casa; a lei, ratifica esse senso comum e posiciona o Estado como coparticipante dessa educação, numa perspectiva liberal clássica de garantia de direitos básicos. A disciplina é imprescindível no processo de ensino-aprendizagem e deve promover, junto ao educando, o exercício de sua cidadania, não podando seu senso crítico, mas direcionando-o para o viver em sociedade. A cidadania não pode ser negligenciada no processo de ensino/aprendizagem, e, se estou formando/informando um cidadão, para que ele seja participante do processo político da cidade, não posso impor-lhe meu conteúdo sem mostrar-lhe sua eficiência, sua eficácia e efetividade – Para que serve esse ensino? Como o aluno poderá aplicá-lo em sua vida, em sua comunidade? E em sua convivência intra e interpessoal, intervenção social e ambiental? A partir do entendimento do exposto, a disciplina torna-se agradável e necessária, pois não é vista como um instrumento apenas para punir, mas para apontar o caminho de regras que possibilitam melhor relação em sociedade, ainda que as penalidades façam parte dessa relação social; é possível ter disciplina, aplicar a disciplina, sem ter apenas o viés de um adestramento, de um vigiar ou de um punir (Foucault, 1999).

Citamos mais uma vez Stirner (2001, p. 7): “todavia, a educação deve ser pessoal, mestre do saber, e guardar constantemente no espírito esse caráter essencial do saber: não ser, em nenhum caso, objeto de posse, e sim ser o próprio Eu. Numa palavra: não se deve inculcar o saber, mas conduzir o indivíduo a seu pleno desenvolvimento; a pedagogia não pode mais partir da ideia de civilizar, mas da ideia de desenvolver pessoas livres, caracteres soberanos”. É preciso, então, cessar de enfraquecer a vontade, até o presente sempre tão brutalmente oprimida. E já que não se enfraquece o desejo de saber, por que enfraquecer o desejo de querer? Visto que um é nutrido, que o outro também o seja. A teimosia e a indisciplina da criança têm tantos direitos quanto seu desejo de saber.

É essa indisciplina apresentada por Stirner que precisa ser recuperada em nossa forma de educar, visando não à formatação do indivíduo, mas à condução da descoberta do mundo a partir de sua realidade, permitindo que ele seja crítico do saber aprendido, contestador das circunstâncias vivenciadas e capaz de utilizar essa indisciplina como instrumento de desenvolvimento de suas potencialidades, na construção de saberes. Isso certamente constituirá pessoas capazes de exercer sua cidadania em sala de aula.

Não digamos ao aluno “sente-se, cale-se, você está errado...”, mas proporcionemos a ele a utilização desse potencial questionador como direito de interação na aula, revendo o próprio plano de aula (que deve ser flexível no processo de construção de saberes), não “engessando” o aprendizado, porém respeitando o saber do aluno. Certamente isto é algo que poderemos considerar ao entrar em sala de aula: os saberes dos educandos, o que vivenciam e como canalizam essas múltiplas realidades em prol de seu aprendizado.

Um olhar sobre a indisciplina

Galileu Galilei não considerou que o que a Igreja dizia como regra que não pode ser questionado; propôs uma visão científica e correta, mas que era uma grave indisciplina contra o sistema. Isaac Newton não foi um brilhante aluno, segundo os moldes da educação de sua época; no entanto, sua capacidade criativa e inventiva, considerada fora do padrão da disciplina escolar, permitiu que se tornasse um gênio. O que dizer de Freud? Um neurologista pervertido, por não aceitar o que em sua época era o politicamente aceitável: crianças não têm sexualidade; ele, contrariando – se indisciplinando – os parâmetros da Psicologia e da sociedade médica, propôs o absurdo da Psicanálise e torna-se o pai de uma nova visão da psique. Albert Einstein tinha desprezo à decoreba e era considerado arrogante pelo sistema por conta disso; porém essas questões não o impediram de ser um grande aprendiz e cientista, ganhador do Prêmio Nobel de Física em 1921.

A indisciplina não tem apenas características negativas, de bagunça e desordem; é capaz de construir saberes e desenvolver talentos quando ela é sublimada e direcionada pelo educador – facilitador desse processo de aprendizagem – que propõe o conteúdo escolar e permite ao educando aceitar ou não o que lhe é ensinado, ouvindo os motivos dessa aceitação ou rejeição, iniciando o aprendizado não por memorização de conteúdos, mas por confrontação de saberes.

Educação de casa e instrução da escola

Qual a diferença entre educar e instruir? Os pais educam ou instruem? Os professores instruem ou educam? Tendo o entendimento da função da escola, da função da família e dos educadores, podemos compreender a importância da família no aprendizado do educando e o papel do professor na transformação do comportamento do aluno.

Segundo o Novo Dicionário Aurélio (1999), educação é o ato ou efeito de educar(-se); é processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral da criança e do ser humano em geral, visando à sua melhor integração individual e social. Nesse mesmo dicionário, instrução é definida como Ato ou efeito de instruir(-se); ensino; conhecimentos adquiridos; cultura, saber, erudição.

Ou seja: tanto educar quanto instruir fazem parte da responsabilidade de pais e professores, quer dizer, a educação que vem de casa precisa ser trabalhada na escola, e a instrução que se aprende na escola deve ser vivenciada em casa. O educar e o instruir começam em casa com os pais e/ou responsáveis e continuam na escola com os professores no processo de transformação do comportamento, por intermédio da educação escolar. Na relação casa-escola e pais-professores é necessário haver dialética, ou seja, as contraposições existentes entre essas instituições não podem ser ignoradas; devem ser conversadas, buscando o entendimento entre o que é ensinado em casa e na escola.

Conforme propõe Aquino (1996, p. 46), “a estruturação escolar não poderá ser pensada apartada da familiar”. Em verdade, são essas as duas instituições responsáveis pelo que se denomina educação num sentido amplo. Só que o processo educacional depende da articulação destes dois âmbitos institucionais que não se justapõem. O aluno é educado e instruído tanto em casa quanto na escola. A educação e a instrução se completam, não são antagônicas. A educação que vem de casa é importante para ser trabalhada pela instrução escolar. O aluno chega à sala de aula com um modelo mental, ou seja, “uma representação interna de informações que corresponde analogamente àquilo que está sendo representado” (Moreira, 1997, p. 3) do conhecimento passado pela sua família. Por exemplo, se um aluno foi instruído a jamais falar com estranhos, ele pode considerar estranhos todos em sala de aula e ter um comportamento calado; se foi educado a sentar somente no chão, terá dificuldades em sentar-se na cadeira.

Ao observar e procurar compreender se o comportamento de seus alunos está associado à sua educação familiar, o professor desenvolverá seu trabalho respeitando as diferenças de cultura, religião, regionalização etc. Ou seja, conhecerá cada aluno, será atento ao seu modo de ser e estar no mundo, ajudando-o a construir e desconstruir saberes, orientando-o sobre a ideia de pertencimento, como bem expõe Pereira (2007, p. 7): a importância do pertencimento nas relações pedagógicas foi ressaltada com Vygotsky não em um, mas em cinco sentidos:

  • o ético valoriza a capacidade humana de sentir e refletir sobre as sensações e sua importância no processo de aprendizagem;
  • o social valoriza os aspectos íntimos e pessoais da vida humana e sua representação na sociedade;
  • o político está na intencionalidade da ação pedagógica quanto ao reconhecimento do pertencimento individual e social de si e do outro e da autonomia humana interdependente;
  • o estético valoriza a criatividade que, ampliada nas relações humanas, potencializa as mudanças e transformações das situações de desenraizamento e/ou de sofrimento causadas pela identidade de não pertencimento; e
  • o educativo, presente nos processos de conscientização, de ter uma postura e de intencionalizar a ação, valoriza a participação e a corresponsabilidade no destino de si, do outro e da humanidade.

Indisciplina escolar – origens e consequências

Se existe realmente um viés construtor por trás da indisciplina do aluno, por que a escola não consegue aproveitar essa indisciplina na construção de saberes?

A escola de cem anos atrás não é a mesma de nossos dias; a sociedade mudou e o aluno de hoje interage de forma diferente do aluno de cem anos atrás. Em outras palavras: o que o aluno espera da escola e o que a escola espera do aluno?

A escola somente poderá transformar a realidade onde está inserida quando identificar-se, entender o seu papel como organismo e não mais somente como instituição. Uma mudança que, partindo do autoconhecimento funcional, permitirá que seus atores (professores, alunos, pais, funcionários, direção e comunidade) revejam seus papéis. Como um todo integral, que não pode ficar de um lado enquanto existem outros de outro lado; sua existência, eficiência, eficácia e efetividade transformadora não estão mais pautadas em sua competência de propor um currículo que acrescente algo ao não saber de seus alunos, mas sim num currículo que seja capaz de entender a si mesma como instituição e organismo que se adapta ao meio, troca informações, propõe mudanças.

Atualiza-se, jamais se acomoda e intervém na política ambiental e social, deixando de ser fria e distante para tornar-se viva, pulsante, necessária, desejada e indispensável ao meio social, pois cumprirá o papel de facilitadora das relações interpessoais.

O conflito de saberes torna-se frequente e originador da indisciplina, pois as perspectivas não são congruentes tendo de um lado o representante da escola, o professor, e do outro lado o representante da comunidade, o aluno. O que passa pelas cabeças do professor e do aluno a partir desse encontro é um conflito de interesses, em que o educador quer transmitir o conteúdo de sua disciplina e o educando não consegue entender o propósito desse conteúdo; as consequências são as mais diversas, culminando em um desencontro entre o sistema teórico docente e a prática discente. Os parâmetros escolares colidem com os do meio social em que o educando está inserido.

Segundo Vasconcelos (1997, p. 245), “muitos problemas de indisciplina têm origem na questão do desrespeito”, expressados por parte dos alunos que entram e saem da sala sem pedir licença, que conversam diversos assuntos paralelos, que são violentos contra colegas, que não fazem os exercícios propostos e ignoram a autoridade do professor; e dissimulado por parte dos professores, que ao rotular seus alunos acabam inviabilizando o processo de ensino-aprendizagem. Então a indisciplina parece também surgir da confrontação entre discente e docente. Saberes que deveriam ser integrados enfrentam-se, impedindo que ocorra o processo de aprendizagem. Uma disputa de poderes em que quem sabe mais nem sempre sai ganhando e quem sabe menos não se importa de perder ou ganhar, quer mesmo é provocar o confronto.

Eis então as consequências da indisciplina: não aprendizado, violência, estresse e caos, cujas dimensões atingem a escola, a comunidade, a família e a sociedade como um todo.

Em meio a essa turbulência, seria possível ao professor dar aula para quem não quer aprender? Disciplinar quem não quer ser disciplinado? É esse é o papel do educador de nosso século, ser disciplinador? É sobre o que refletiremos no próximo tópico.

O papel do educador

Qual é o papel do educador em pleno século XXI? Um disciplinador? Um amigo de seus alunos? Um transmissor de informações? Quando nem o professor consegue responder a esses questionamentos, algo de muito desagradável passa a acontecer em sala de aula: disciplinas são ministradas sem um foco/finalidade. A atuação do educador torna-se pífia, e, em alguns casos: efêmera.

Segundo Freire (2011, p. 24), “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção”. Então o papel do educador pode ser entendido como um facilitador, alguém que prepara o terreno para o desenvolvimento do saber. Freire (2011, p. 25) continua: “Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender. Quem ensina ensina alguma coisa a alguém”.

Eis aí a atuação conjunta, um tem necessidade de aprender, o outro identifica essa necessidade e a supre; à medida que essa necessidade começa a ser suprida, o educando constata o que ela pode lhe proporcionar; isto faz brotar o desejo pelo aprendizado, e mais uma vez a atuação do educador se faz necessária e imprescindível; Teresa Cristina Aquino esclarece (1996, p. 94) que Vygotsky “chama a atenção também para o importante papel mediador exercido por outras pessoas nos processos de formação dos conhecimentos, habilidades de raciocínio e procedimentos comportamentais de cada sujeito”; é nessa aproximação (ZDP – Zona de Desenvolvimento Proximal) que ocorre a interação de saberes. Por isso, ensinar não é transferir conteúdo, é um inter-relacionamento entre o educador e o educando, uma cumplicidade que deve ocorrer no cenário educacional e continuado em sua comunidade.

Muitos educadores não conseguem entender que o seu papel é comunicar-se com seus alunos e que a comunicação não ocorre apenas com palavras, mas de outras formas. Sérgio Miranda (1999, p. 32) esclarece que “o conteúdo é fundamental, mas se não for bem colocado não atinge o ouvinte, e em vão terá sido gasto o seu verbo”. Miranda (1999, p. 32-33) demonstra que existem três elementos para uma boa comunicação: o conteúdo (a palavra) representa 7% dessa influência; alguns professores, advogados, padres, pastores etc. que foram famosos no passado pelo conhecimento e pela erudição que possuíam hoje não conseguem atrair nem convencer plateia alguma, pois lhes faltam os principais componentes da influência: o tom de voz, que representa 38% dessa influência, e a fisiologia (linguagem do corpo), que aparece como principal fator, com 55%.

Fica mais claro compreender que o papel do professor e sua atuação devem ser harmônicos com o ritmo de seus alunos. Não consiste apenas em estar preparado para dar o conteúdo, mas sim ter um tom de voz audível e claro, sem ruídos, e uma fisiologia que permita ao educando interpretar o que ele realmente quer dizer. Ou seja, é preciso estar em harmonia com seus alunos para poder ajudá-los. Conforme diz o professor Machado numa entrevista, “todos nós trabalhamos, seja nas escolas de classe popular, seja nas escolas de classe média, com aquele aluno que não está nem aí pro conteúdo, nem aí pro trabalho do professor, e aí o professor tem que rever a sua prática, tem que rever se não tá conseguindo trazer, captar a atenção daquele aluno, buscar uma outra prática, buscar um outro caminho”.

Mesmo quando o educador faz o seu papel e atua como é necessário, algo mais deve ocorrer para que o aprendizado continue e seja expandido, pois o educando não está sendo ensinado apenas para fazer provas, mas sim para o exercício da cidadania.

Entra em cena a família do educando, que pode, deve e precisa contribuir para a continuidade, manutenção e ampliação do processo de aprendizagem.

Participação da família

A base da educação inicia-se em família e sua continuidade permanece na família; a escola tem o papel de organizar e direcionar os alunos em prol da construção e da manutenção de sua cidadania, e a participação da família é imprescindível no processo ensino-aprendizagem.

Segundo um provérbio africano, “é preciso toda uma aldeia para educar uma criança”; não podemos lançar sobre a família a exclusividade da educação, tampouco à escola a responsabilidade da instrução. O que deve ser feito: família e escola, pais e educadores devem coparticipar desse processo de construção de saberes, numa cumplicidade em que cada instituição complementa a outra. Alves (2006, p. 23) recomenda aos pais e professores: “nunca pergunte a um aluno se ele já estudou, mas sim se ele sabe estudar”. A contribuição da família está em averiguar se seu filho, sua filha sabe estudar. Isso independe de formação acadêmica. É uma educação que começa em casa, é ampliada na escola e continuada na relação familiar. Mas como os pais ou responsáveis pela criança podem contribuir quando não têm formação? A resposta está na relação escola e família, como propõe o Manifesto dos Pioneiros, de 1932: “Por isso, o Estado, longe de prescindir da família, deve assentar o trabalho da educação no apoio que ela dá à escola e na colaboração efetiva entre pais e professores, entre os quais, nessa obra profundamente social, tem o dever de restabelecer a confiança e estreitar as relações, associando e pondo a serviço da obra comum essas duas forças sociais – a família e a escola, que operavam de todo indiferentes, senão em direções diversas e às vezes opostas”.

A proposta deste manifesto é uma interação entre as duas forças. Ou seja, a família não tem que saber ensinar como o professor, tampouco cabe à escola saber educar como a família; ambos precisam se conhecer e se ajudar, por alguém em comum: o educando. O profissional recebe o apoio da família, cuja importância é imprescindível no processo de ensino-aprendizagem. Conforme propõe Freire (2005, p. 79), “o educador já não é o que apenas educa, mas o que, enquanto educa, é educado, em diálogo com o educando que, ao ser educado, também educa... Os homens se educam em comunhão”.

E essa comunhão, esse educar, somente será pleno quando a família participar dentro e fora da escola. Os muros são derrubados. Muros que impedem a família de participar da educação de seus filhos por entender que não é capaz de contribuir em sua educação formal, muros que impedem a escola de participar da educação de seus alunos por entender que não pode interferir em sua educação familiar.

Como esclarece Lima (2009), tanto a família quanto a escola devem viabilizar relações pautadas na afetividade e no adequado desempenho de papéis. As crianças, ao viverem ora como aluno ora como filho, aprendem as normas sociais e éticas e compreendem o seu lugar no mundo. Se os adultos se eximirem da sua tarefa educativa, a criança encontrará dificuldades na construção do ser “sujeito” e dificilmente entenderá o mundo e seu funcionamento. O que uma família tem que fazer nenhuma escola consegue, por melhor que seja; o que a escola tem que fazer as famílias não conseguem, mesmo sendo educadoras. A família tem o papel de acolher a criança e promover individuação e pertencimento. No convívio diário, nas conversas, na forma de proceder diante das rotinas do dia a dia é que a criança compreende os mitos, as crenças, os ritos de sua família, assim como a forma dela de viver e conviver.

A família, pais e/ou responsáveis podem contribuir no aprendizado de seus filhos e suas filhas; a escola precisa desenvolver uma metodologia participativa, interativa e integradora, pois, afinal de contas, quem sairá ganhando é o educando e a sociedade.

A indisciplina é empecilho à aprendizagem?

A indisciplina pode ser canalizada para o aprendizado de forma criativa; esse potencial pode ser utilizado perfeitamente para construção de saberes, mudança de paradigmas e transformação social. Não se pode sufocar o discente que, ao descobrir o mundo, faz como o cientista que grita feito um louco quando descobre um invento, uma nova teoria ou lei: eureca! As descobertas diárias e contínuas do educando precisam ser contadas, expostas, compartilhadas. Ele está aprendendo e também quer ensinar. A indisciplina não é, portanto, um empecilho ao aprendizado; é um anúncio, um sinal de uma aprendizagem que não se limita ao contexto de sala de aula, que é dinâmica, imanente ao educando e transcende a formatação institucional.

O professor Lopes, também entrevistado, diz que “indisciplina é uma questão que a gente precisa analisar bem, até porque o fato de a criança gritar ou fazer bagunça não vem a ser diretamente uma indisciplina, pois ela está expressando os seus sentimentos”. Não devemos cercear a expressividade do educando, pois é por intermédio dela que ele fala ao mundo sobre o que sente e o que é capaz de realizar. “De acordo com as ideias de Wallon, a escola infelizmente insiste em imobilizar a criança numa carteira, limitando justamente a fluidez das emoções e do pensamento, tão necessária para o desenvolvimento completo da pessoa” (Ferrari, 2013).

A indisciplina precisa ser trabalhada em sala de aula, pois estamos tratando não com uma perversidade destruidora, mas com o potencial de competências e habilidades do aluno, que, por não ter condições adequadas ao seu desenvolvimento, busca outros caminhos para sua manifestação, confrontando assim as normas da instituição.

Considerações finais

Podemos concluir que a indisciplina pode ser boa e mesmo uma forma de aprendizagem, quando utilizada para fazer o educando refletir sobre um sentimento de pertencimento em seu ambiente, que não se limita à casa ou à vizinhança, mas se amplia para a escola e além da escola, permitindo que esse educando, ao usar a energia da indisciplina que não aceita a mesmice, o conformismo, os parâmetros que engessam o aprendizado, torne-se um cidadão crítico, humanitário, autor de sua própria história e, acima de tudo, um cidadão planetário (Gadotti, 1998) que, respeitando as diversidades, luta pela igualdade social, pela inclusão das diferenças e pela prática de sustentabilidade social e ambiental, pois o meio ambiente não é constituído apenas por animais, plantas e minerais, mas também por seres humanos que devem aprender a aprender sempre, indisciplinando-se, teimando e desconstruindo quaisquer formas de engessamento dos saberes.

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Publicado em 2 de julho de 2013.