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Uma máquina pode substituir um professor?

Tatiana Serra

Saiba como um computador na mão e uma boa pergunta na cabeça podem revolucionar a educação do século XXI

Considerada o maior evento nerd do mundo, a quinta edição da Campus Party 2012 no Brasil aconteceu entre os dias 6 e 12 de fevereiro, em São Paulo, e foi marcada por muitas inovações e curiosidades tecnológicas. Entre elas está a fórmula que pode promover uma revolução na educação do século XXI. Segundo o indiano Sugata Mitra, um dos maiores especialistas do mundo em tecnologia educacional, "um professor pode ser substituído por uma máquina".

Professor da Universidade de Newcastle e docente visitante do Massachusetts Institute of Technology (MIT), o indiano ficou mundialmente conhecido por colocar um computador nas paredes de uma favela na Índia e provar que as crianças aprendem sozinhas a usar a máquina. Nesta edição da Campus Party, Mitra falou ao público sobre sua experiência com crianças que aprendem e ensinam umas às outras apenas em computadores. O tema de sua palestra causou tanta polêmica e tanto interesse que faltaram cadeiras para os nerds e seus computadores.

Em entrevista ao jornal O Globo, o especialista afirmou que “há dois problemas distintos hoje no ensino. O primeiro acontece em lugares onde as crianças não tem acesso à escola; o segundo ocorre onde os alunos não se interessam pelo que é ensinado. Os experimentos que eu realizo há 15 anos mostram que, quando as crianças são expostas a um computador num lugar público, elas aprendem sozinhas a utilizá-lo e há um desenvolvimento muito rápido da capacidade de leitura, aprendizagem e de responder a perguntas. E um só computador pode atender 300 crianças. Logo, a solução para o primeiro problema é muito barata”.

Quanto ao segundo problema, Mitra disse que a solução é os professores saberem fazer uma boa pergunta que motive os alunos. “Certa vez eu perguntei a crianças na China como o iPad podia saber a localização delas. Após meia hora de pesquisas na internet, elas responderam, corretamente, que era por meio de três satélites. Então eu perguntei por que o iPad não usava apenas dois ou 20 satélites para fazer isso. Eles pesquisaram de novo e descobriram que era por causa de algo chamado trigonometria. Aí eu falei para o professor de Matemática deles: a porta está aberta”, exemplificou ele.

Para o especialista, o currículo educacional deve ser reformulado, “pois a educação atual é a mesma de 300 anos atrás e não preenche os requisitos exigidos no mundo contemporâneo”. Além disso, ele lembra que os estudantes aprendem tecnologia sozinhos e que com eles bastaria reforçar duas coisas que não são contempladas no currículo básico: “a primeira é a compreensão da leitura e da fala; a segunda, que é muito difícil, é como separar o que é certo do errado num mundo em que somos bombardeados pela mídia. O resto, com boas perguntas, as crianças são capazes de descobrir”.

Em entrevista à revista Época, Sugata Mitra esclarece que, embora sua teoria diga que o futuro da educação está na autoeducação, “o emprego dos professores não seria ameaçado. Seria diferente”, e volta a falar sobre a importância de os professores apresentarem questões que instiguem a curiosidade das crianças, principalmente aquelas com menos de 13 anos, mais abertas ao conhecimento e menos ligadas a questões como classes sociais. "A reação de crianças abaixo dos treze anos é exatamente igual em qualquer lugar do mundo", afirma o pesquisador. 

Mas, então, “como um modelo de ensino tão polêmico teria lugar nas escolas?”, perguntou o repórter. “Segundo Mitra, a mudança precisa vir de baixo para cima. ‘Basta procurar as empresas de tecnologia e investir na banda larga nas escolas; tudo vai acontecer naturalmente’, diz Mitra, que já procurou o governo da Inglaterra para testar seu modelo, sempre sem sucesso”. 

E, na sua opinião, uma máquina pode substituir um professor?

Publicado em 14 de fevereiro de 2012