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Diversidade religiosa

Em casa, na escola, entre amigos: como lidar com ela?

Tatiana Serra

Numa dessas noites de sexta-feira em que tudo o que você quer é ligar para alguns amigos e marcar uma “saída” num barzinho para relaxar, beber algo e conversar sobre tudo e sobre nada, marquei uma dessas “saídas” com uma amiga muito querida que eu não encontrava há algum tempo. Cheguei mais cedo ao local; um daqueles bares do Leblon em que a música é boa e o serviço é ótimo. Nem bem cheguei e já comecei a me divertir, pois foi difícil não prestar atenção na conversa da mesa ao lado. O assunto era religião, ou melhor, diversidade religiosa. Aqueles amigos ali sentados, todos por volta dos seus 35 anos, pareciam formar uma cúpula de representantes de diferentes religiões; em alguns, era possível identificá-las por detalhes na aparência, como um escapulário no pescoço de um deles e um colar, ou melhor, uma guia de proteção muito usada por praticantes das religiões afro-brasileiras em outro. Acho que todos já eram amigos há muito tempo, pois brincavam abertamente sobre as curiosidades das crenças religiosas de cada um e se remetiam a acontecimentos engraçados do passado. E foi de um desses que eu não consegui deixar de rir. Um deles era judeu e, numa espécie de ritual de sua religião, ele convidou as pessoas mais chegadas, e todos aqueles que estavam ao redor da mesa estiveram no evento.

Pausa para uma ligação: era minha amiga avisando que estava presa num engarrafamento no Minhocão (túnel que liga os bairros de São Conrado e Gávea). Desliguei o telefone e voltei a ouvir a conversa ao lado, assim como quem não quer nada. Um dos amigos estava falando que, durante o ritual do rapaz judeu, os convidados receberam umas balas e o grupo de amigos não sabia o que fazer com aquilo nas mãos. A maioria resolveu aguardar uma orientação, exceto um deles, que parecia ser o ateu do grupo. Já faminto (pois se tratava de um longo ritual), não achou mal algum em chupar as balas, e foi o que ele fez. Crente que ninguém havia percebido, logo constatou que elas seriam oferecidas ao homenageado do dia, seu amigo. Para o ateu, então, não restou outra alternativa a não ser fingir que também tinha balas nas mãos para oferecer ao amigo. Ao lembrar do acontecido, todos estavam a rir, inclusive eu. Entretanto, o ateu ficou meio constrangido, demonstrando que não havia feito aquilo por desrespeito à religião do amigo.

Com aparência de que já havia passado dos limites com relação à bebida (mesmo que só tivesse ingerido uma garrafinha de água mineral), fui “flagrada” aos risos pela minha amiga. Depois de beijos, abraços e gritinhos de alegria (típicos de quando duas amigas se encontram), expliquei o que havia escutado, rimos mais um pouco e logo começamos a conversar sobre tudo e sobre nada... Era mesmo o que eu queria. Mas, ao lembrar da diversidade religiosa da mesa ao lado, a conversa foi ficando mais séria. Minha amiga precisava desabafar sobre um “drama” que estava vivendo com seu marido a respeito da definição de qual colégio escolher para seus filhos, gêmeos de quatro anos. Desde bem pequenos, eles ficaram numa creche-escola e agora seria o momento de decidir onde seriam alfabetizados e de onde eles só sairiam para a universidade. Escolha difícil, imagino.

Para que se entenda melhor o “drama” da minha amiga, é preciso explicar alguns detalhes. Primeiro, darei a ela o nome de Vitória e o marido se chamará Maurício. Ela é espírita, mas toda a sua família é católica. Eu inclusive escolhi seu nome para fazer referência à Nossa Senhora das Vitórias. O nome é fictício, mas o original também foi dado em homenagem à santa de devoção da família.

Bom, foi na adolescência que Vitória começou a ler livros espíritas e a seguir a religião, apesar de ter estudado em escola católica desde pequena. Ela se formou em Antropologia e tem algumas publicações, inclusive sobre influências religiosas no comportamento social. Quando conheceu Maurício, que é sociólogo, foi mesmo amor à primeira vista. Quem acompanha o relacionamento deles desde o início sabe que os dois têm tantas afinidades que o fato de Maurício ser ateu nunca foi um problema para eles, pelos menos até agora. Vitória acredita no espiritismo, segue seus preceitos, mas nunca quis impor sua religião ao marido, que, por sua vez, também sempre respeitou as escolhas da esposa. Mas quando se trata dos filhos, apesar de eu ainda não tê-los, imagino que os valores de cada um venham à tona e chegar a um ponto em comum deve ser um exercício difícil no cotidiano da família. Minha amiga, então, fez uma pausa para o flashback e me relatou detalhes da última conversa que tiveram.

Era um final de dia daqueles bem cansativos; as crianças tinham acabado de dormir e o casal estava terminando de jantar. Pela mesa havia travessas de comida, pratos usados e anúncios de colégios em folhas impressas com várias marcações em vermelho, o que denunciava a dúvida dos dois. Mas, para Vitória, os filhos estudariam na escola católica onde ela estudou, que, mesmo não seguindo sua religião, valeu pela qualidade do ensino. Como quase sempre acontece, a mulher do casal puxou o assunto:

- Maurício, a gente precisa decidir em que escola eles vão estudar e deixar o lado religioso pra lá. Concordo com você que muitas escolas se dizem não religiosas e mantêm imagens de santos na diretoria, na secretaria etc. Mas será que isso é o suficiente para influenciar nossos filhos?

- Vitória, você sabe que não é só isso. Na escola onde estudei por toda a minha vida, teoricamente não deveria haver nada religioso, mas a diretora era devota de Nossa Senhora e, se pudesse, declararia feriado em todos os dias de santo; minha professora da alfabetização só colocava no quadro-negro exemplos de frases que remetiam à fé. Sei lá, pode até ser que isso tenha acontecido poucas vezes, mas, se ficou tão marcado na minha memória, acho que pequenos exemplos podem marcar também a memória dos meninos.

- Maurício, acontece que aqui no Brasil religião e cultura se confundem mesmo.

- Eu sei disso, mas não podemos esquecer que estamos num Estado laico e a Constituição proíbe criar distinções entre brasileiros e suas preferências, privilegiando uma ou outra religião. E se a escola ajuda na formação de um cidadão, misturar religião e educação é ilegal, sim. A própria Constituição fala sobre o ensino religioso facultativo para os estudantes, desde que autorizado pelos pais. Porém, o que mais se vê é um desrespeito às opções das famílias e irregulares manifestações religiosas. Com isso, o ensino religioso vai se tornando obrigatório sem que a maioria perceba.

- É, depois do acordo firmado entre o Brasil e o Vaticano, as escolas públicas devem oferecer ensino religioso facultativo. Só que essa oferta não tem nada a ver com uma imposição religiosa. Pelo menos, não deveria.

- Mas, Vitória, você acredita mesmo que as escolas vão saber ou querer diferenciar o ensino da pregação religiosa? Definitivamente, crenças religiosas e escola não devem se misturar.

- Muitos devem confundir, mas existe um professor específico para ensino religioso, alguém que vai falar sobre a história das religiões, sobre a fé etc. Acho que, antes de tudo, há muita confusão quando se fala em religião. Assim como ela é confundida com a cultura, também recebe outras várias definições. As pessoas precisam entender que religião não é aula de história nem de boas maneiras.

- Para você, o que significa a religião, afinal?

- Existem várias definições. Para mim, religião é acreditar em uma força maior, que chamam de Deus, de Oxalá, de Buda, não importa; é uma crença que explica muito de nossa existência e nos dá conforto. Mas o ensino religioso não subentende a prática religiosa. Escolher uma religião ou não é uma descoberta individual que muitas vezes também se dá por influência da família, mas o que nunca deve acontecer é essa escolha partir da escola. E pior: se a criança aprende uma crença religiosa em casa e outra na escola, pode haver um conflito com consequentes problemas de aprendizagem.

- É bom lembrar também que muitas escolas lidam com a religião como se ela impedisse a violência. Até parece que as crenças religiosas sempre fazem bem. Se fosse assim, não haveria tantos conflitos com base em questões religiosas pelo mundo.

- Com certeza. Os profissionais de educação precisam ficar muito atentos à diversidade religiosa e cultural entre os alunos, porque as relações na escola, assim como em casa, são um ensaio de como o indivíduo vai agir em suas relações sociais. Ainda há muito preconceito e muita intolerância embutidos nos discursos e disfarçados nas ações.

- Com relação à educação e cultura de um povo, acho bem interessante, por exemplo, como as comunidades indígenas estão tendo maior amparo legal na área educacional e na preservação da sua cultura. Isso tem um objetivo maior, que é garantir o direito da diferença étnico-cultural das comunidades indígenas em todo país.

- Pois é, vê se isso não é uma grande conquista para um país que, nos primeiros séculos, não sabia o que era liberdade religiosa? Você sabe: a pluralidade de religiões era fortemente combatida e os brasileiros foram conhecer a liberdade de escolha recentemente. Com o tempo, a pluralidade cultural foi contribuindo para o surgimento de diferentes religiões, e aqui estamos, até os dias de hoje, discutindo sobre diversidade religiosa, em vez de aceitá-la. Mas, deixando a história de lado, quero tanto garantir uma boa educação aos nossos filhos que só confio na vivência que tive.

- Ai, meu Deus, mas existem tantas outras escolas que oferecem um ensino tão bom quanto o que você recebeu na sua! Por que, então, não deixamos a religião de lado e optamos por uma instituição de ensino neutra?

- Opa! O que foi mesmo que você falou? Meu Deus? Eu disse para você: religião e cultura se misturam tanto que expressões como essa são ditas até por ateus.

Maurício não teve como negar. Os dois caíram na gargalhada, um dos gêmeos acordou e, antes que o outro também despertasse, a conversa ficou para outro dia. Vitória ainda quer muito que seus filhos tenham a mesma educação que ela, pois não acha que tenha sofrido fortes influências católicas. Porém, cá entre nós, ela vai acabar abrindo mão e escolhendo outra para os meninos; afinal, garantir a imparcialidade na escola e deixar as influências somente para a família pode ser uma boa escolha.

O mais importante é mesmo qualidade do ensino. Quem sabe, mais tarde, os gêmeos não tenham um grupo de amigos bem eclético, em que a diversidade religiosa seja apenas uma das diferenças entre eles? Deus queira!

Publicado em 16 de novmebro de 2010