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Hans Christian Andersen

Salmo Dansa

Mestre em design e ilustrador

É comum que grandes artistas vivam suas vidas em um mundo à parte onde nem sempre se pode perceber a diferença entre a obra e vida pessoal do artista. No caso de Hans Christian Andersen, isso foi levado a um extremo pouco conhecido pela maioria das pessoas que admiram sua obra. Mais que o conhecido escritor de contos de fadas, Andersen foi um criador compulsivo e obcecado pela fama.     

Hans Christian Andersen

Essa busca de H. C. Andersen pelo reconhecimento de sua obra foi também uma trajetória pessoal profundamente triste. O esforço imposto a si mesmo para produzir foi tão grande que o levou a sucumbir a crises de hipocondria, melancolia e depressão, e no momento em que finalmente conseguiu fazer a fama sorrir pra si ele já estava completamente só e desesperado, não somente se perguntando se valia a pena, mas esperando mais aplausos do que conseguiria em vida. Ele beijou os pés da aristocracia para obter apoio e brigou quando a nação dinamarquesa não o coroava continuamente com os louros da fama. Ele esmerou suas roupas e maneiras para encobrir seu desespero, fez inúmeras viagens ao exterior para acalmar sua mente, mas não pôde escapar do fato de que a fama tinha uma cabeça de medusa.

A imagem pública de H. C. Andersen que ainda prevalece é alimentada por falsos mitos. Por exemplo, a maioria das fotografias e retratos de Andersen revelam um homem bem composto, gentil, tranquilo e sempre contando historias generosamente para crianças. Sempre muito bem vestido, ele aparece fazendo poses de perfeita sobriedade. Como os fotógrafos e pintores, a maioria dos biógrafos têm contribuído para essa imagem pública, enfatizando a curiosa e gentil serenidade do escritor imaginativo. Eles têm associado Andersen ao Patinho Feio e traçado sua vida como o abençoado filho de sapateiro pobre que se transformou no “belo” e bem-sucedido escritor através de seus mágicos talentos inatos.

Mas a ideia de ver Andersen e seu trabalho como um conto de fadas seria uma injustiça com ele. Andersen escreveu mais de trinta peças de teatro, seis romances, três autobiografias, diversos livros de viagem, alguns volumes de poesia, numerosos ensaios, contos e histórias. Foi respeitado e reverenciado durante sua vida como um escritor de vanguarda. Talentoso ator e orador, ele se sentiu em casa nas rodas da sociedade; foi um dos homens de letras mais viajados da Europa e conheceu pessoalmente os mais importantes autores do século XIX. Esses fatos de sua vida e obra tendem a ser esquecidos ou negligenciados. A fama de seus contos de fada abafaram tanto a abrangência total de suas realizações artísticas quanto sua patética história pessoal.

Uma das dificuldades de escrever sobre Andersen como o mais versátil e famoso escritor dinamarquês é porque ele mesmo escreveu três autobiografias, e todas tendem a distorcer os fatos de sua vida. Sua primeira tentativa de documentar sua vida foi H C Andersen Levnedsbog 1805-1831, escrito em 1832. Esse texto ficou encoberto até 1926, quando foi publicado em dinamarquês. Sua segunda tentativa, Das Märchens meines Lebens ohne Dichtung, terminado em 1847, foi publicado primeiro em alemão e inglês como A verdadeira história da minha vida. A terceira, Mit Livs Eventyr (1855), foi publicado como O conto de fadas da minha vida, em 1868. Esse título indica como Andersen procurou continuamente retratar-se, nos seus escritos autobiográficos, como um tipo de herói romântico, o pobre interiorano que se transformou em príncipe. Por exemplo, a versão de 1847 começa assim:

Minha vida é um belo conto de fadas rico e glorioso. Se eu tivesse saído pelo mundo como um pobre e solitário menino e tivesse encontrado uma poderosa fada e ela dissesse: “Escolha seu próprio caminho e objetivo na vida, então eu o protegerei e guiarei no sentido do desenvolvimento da sua mente e da forma que as coisas devem normalmente acontecer no mundo”, então meu destino não poderia ser mais feliz nem mais inteligentemente conduzido do que no caso tem sido. A história da minha vida vai contar ao mundo o que ela tem me contado: existe um Deus amoroso que dirige tudo para o melhor.

Em 1805 havia um casal recém-casado, um sapateiro e sua esposa, que viviam em um pequeno e empobrecido quarto em Odense. Eles se amavam carinhosa e profundamente. Ele tinha apenas 22 anos, um memorável e talentoso homem com uma genuína poesia natural. Ela era um tanto mais velha, ignorante a respeito das coisas do mundo e da vida, mas doce e generosa. O homem havia se tornado mestre recentemente e havia construído sua própria oficina de sapateiro e cama de casal. Para isso ele havia usado o quadro de madeira do caixão onde o falecido Count Trampe havia descansado recentemente. Os pedaços de lençol preto que eram sempre encontrados mais tarde eram lembranças dessa ocasião. Então, em 2 de abril de 1805, ao invés do cadáver de Count, havia uma criança viva e chorando nessa cama cercada de flores e candelabros. Esse era eu, Hans Christian Andersen.

Somente a data de nascimento de Andersen pode ser considerada verdade nesse texto. O fato é que ninguém sabe exatamente aonde nasceu Andersen. Seus pais haviam se casado apenas dois meses antes do seu nascimento e não tinham residência fixa. Seu pai, Hans Andersen, nascido em 1782, tornou-se sapateiro itinerante. Em outras palavras, ele pertencia à classe mais baixa de artesãos e mal conseguia o suficiente para manter a si e a família. Ele gostava de ler, fazia passeios pelo interior e construía brinquedos para o seu filho. Esse era o seu lado talentoso e mais poético. Ele também era conhecido como um pensador cético e inclinado a duvidar dos princípios do cristianismo tradicional. Morreu em 1816, após uma tentativa desesperada de fazer dinheiro para a família alistando-se como soldado do exército de Napoleão.

 A mãe de Andersen, Anne Marie Andersdatter, nasceu em 1775 e trabalhou como serviçal em diversas casas em Odense. Em 1799, ela deu à luz uma filha ilegítima. Mais tarde, depois que Andersen nasceu, ela trabalhou como lavadeira e fazia outros pequenos serviços. Longe de ser ignorante sobre o mundo, conheceu muito bem as reais condições da sociedade. Quando Andersen se refere a ela como “ignorante”, ele quer dizer que ela era iletrada, áspera e supersticiosa. Elias Bredsdorff, conhecido biógrafo de Andersen, traçou um retrato bem mais preciso das suas origens do que pudera fazer o próprio escritor:

O background de Andersen foi, do ponto de vista social, o mais baixo dos baixos, misturando miséria, cortiços, imoralidade e promiscuidade. Sua avó era patologicamente mentirosa; seu avô, insano; sua mãe acabou se tornando alcoólatra; seu tio montou um bordel em Copenhagen e durante anos Andersen esteve preocupado com a existência de uma meia irmã que poderia surgir de algum lugar repentinamente e envergonhá-lo em seu novo meio social – um pensamento que o perseguiu em seus sonhos por toda sua vida.

A vida de Andersen foi qualquer coisa, menos um conto de fadas. Pelo tanto que seus pais o amavam, houve muito pouco que eles pudessem oferecer-lhe. Excessivamente sensível à pobreza e à aparência simples de sua família, Andersen manteve-se fechado em si mesmo. Ele teve poucos amigos e preferiu estar em casa, onde pudesse brincar com suas imagens, bonecos e brinquedos. Quando tinha cinco anos, foi mandado à escola. Suas memórias da adolescência revelam um fascínio especial pelo presídio e pelo sanatório, que em Odense eram mantidos sob o mesmo teto. Dada a história de insanidade e imoralidade na família, ele temia também enlouquecer e ser preso. Ao mesmo tempo, ele era também intrigado e atraído pelas estranhas pessoas que habitavam a cadeia e o asilo; no entanto, mais importante que essa atração era seu crescente amor pelo teatro.

Odense, uma pequena cidade de 8.000 habitantes, ostentava um teatro municipal que produzia óperas cômicas, operetas e peças. Quando Andersen tinha sete anos, seus pais o levaram ao teatro, e um novo e fantástico mundo explodiu diante dos seus olhos: desse momento em diante o mundo do teatro passou a representar um glorioso reino de libertação da miséria de sua vida e ele começou a vestir-se diferentemente, a encenar papéis e escrever peças. Logo que pôde ler Shakespeare, deu recitais de suas próprias peças a quem quer que ele pudesse atrair. Sua mãe se irritava com a mania de teatro do filho, mas suas tentativas de punição não surtiam efeito. Então, depois da morte de seu marido, em 1816, ela raramente esteve em casa para tomar conta dele. Na verdade, ela se tornou tão pobre que, mesmo contrariada, teve que colocar seu filho de onze anos para trabalhar. Andersen começou como aprendiz em uma fábrica de tecidos, mas não ficou muito tempo lá. Ele não suportou a obscenidade e o tratamento rude e deixou o trabalho após ser ridicularizado durante um recital de canções dos seus colegas de trabalho. O segundo trabalho foi em uma fábrica de cigarros, onde ele trabalhou até adoecer dos pulmões. Sua mãe, então, não teve escolha a não ser deixá-lo em casa, onde ele devotou seu tempo novamente aos livros e ao teatro. Foi também nesse tempo que Andersen começou a ganhar dinheiro cantando em casas de classe média e fazendo-se conhecido pela sua voz charmosa como O pequeno rouxinol de Funen.

Em julho de 1818, a mãe de Andersen casou-se de novo. Seu novo marido era também um sapateiro viajante, mas, a despeito de seu status, a situação financeira da família melhorou. Andersen passou a frequentar a escola da igreja, onde se esperava que ele esquecesse o teatro e a poesia submetendo-se ao rigoroso ensino religioso. Novamente a obsessão de Andersen pelo teatro foi mais forte que a disciplina da escola. No momento de sua confirmação, em 1819, ele estava propenso a colocar tudo em risco para tentar seguir seu chamado a ser artista; entretanto, sua mãe tentou convencê-lo a estudar comércio. Finalmente percebendo como sua mãe era supersticiosa, Andersen a convenceu a visitar uma “cartomante” que previu que seu filho se tornaria mundialmente famoso. Para Andersen, o mundo significava Copenhagen; e em 1819 o Andersen de quatorze anos foi mandado para lá.

Picture books

O termo picture book é bastante recente, se compararmos aos seus ancestrais do Oriente. Ele ocupou seu lugar no universo da literatura gradativamente, mas sobretudo a partir da entrada da litografia colorida como forma de impressão de livros dirigidos às crianças. Na obra de Andersen, o termo se aplica aos seus trabalhos artesanais, que se assemelham ao que chamamos de “livro de artista”. Esses trabalhos um tanto desconhecidos de Andersen são preciosidades de um artista de múltiplos talentos e mostram dois lados de Andersen: o contador de histórias e o artista visual.

São conhecidos 16 picture books de Andersen, todos criados como presente para crianças. Ele fez a maioria desses livros nos anos 1850 e 1860; o último em 1874, um ano antes de morrer. Entretanto, detalhes sobre a criação dos livros continuam a surgir e isso geralmente diz respeito aos seis livros que ele fez com amigos – quatro volumes com Adolph Drewson e dois com Mathilde Orsted. Drewson e Andersen dividiam a mesma paixão por arte, jardinagem e viagens. Esses interesses comuns sem dúvida contribuíram para a divertida inventividade de suas narrativas pictóricas. O fazer de um volume poderia levar muitos anos; em alguns eles continuaram a desenvolver o livro mesmo depois de entregá-lo à criança, encontrando novas oportunidades de adicionar imagens e recortes.

Um desses livros foi publicado com a permissão da família em setembro de 1984 pela editora Kingfisher, de Londres, como fac-símile ricamente impresso a partir do original do livro artesanal de 1859, com 272 páginas, no formato de 300 x 240mm. O original foi um presente de aniversário de três anos a uma menina dinamarquesa chamada Christine Stampe, recebido do seu avô Adolph Drewsen. No livro de Christine, há cinco recortes de papel originais, assim como inúmeras montagens e versos que expressam quanto os dois homens divertiram-se recortando ilustrações de revistas e dali montando histórias que entrariam no livro de Christine. Esse livro permaneceu como uma preciosidade pertencente à família de Christine desde então, e quando veio a público se tornou um dos mais encantadores e charmosos livros a serem publicados há muito tempo.

Por outro lado, é interessante perceber o teor das figuras escolhidas para essas colagens. Nota-se a qualidade pedagógica das informações visuais que ele compunha em seus picture books; esse gênero pedagógico abordado por Andersen abraçava o humor e encorajava o caos criativo. Ele claramente gostava de iniciar as crianças em assuntos como história, religião e geografia, assim como o mundo animal e vegetal. A esse respeito, é interessante especular sobre o que ele sabia das teorias de Friedrich Fröbel (1782-1852) sobre educação na infância, as quais estabeleciam as bases da moderna instituição jardim da infância e a ideia de tratar crianças como indivíduos, cada uma com seus próprios interesses criativos e intelectuais. Assim como Andersen, Fröbel privilegiava o aprendizado empírico, desenvolvendo uma série de ferramentas que exploravam as possibilidades divertidas da geometria. Em 1837, ele desenvolveu um inventário teórico para dobras de papel, designando três tipos idealizados – as dobras da verdade, as dobras da vida e as dobras da beleza.

Rigmor Stampe, que recebeu o primeiro picture book de Andersen em 1852, reconta como ele criava seus álbuns: “A matéria-prima para esses livros ele pegava de qualquer lugar: anúncios, revistas ilustradas, capas, estampas de panfletos. Quando estava em suas viagens no exterior, ele não esquecia os livros. Ele escreveu de Viena em 1855: “Estou levando pra casa uma coisinha para Agnete e tenho pensado constantemente sobre o novo picture book. Edgar sabe que todo jornal e toda nota com uma imagem impressa é imediatamente cortada para um novo álbum”.

O interesse de Andersen pelos recortes também remonta à sua infância. Poderíamos agrupar esses recortes em três grandes grupos. O primeiro grupo pertence aos álbuns e aparecem em variados níveis de freqüência entre os recortes e colagens de material impresso. Na ocasião, Andersen criava justaposições impressionantes, como as encontradas no picture book de Agnete Lind, de 1854, que apresenta uma imagem colorida de uma borboleta colada abaixo de um recorte de duas bailarinas em papel preto graciosamente próxima dos pés e mãos esticadas como que equilibrando-se numa corda-bamba. Vistas juntas, essas imagens pairando sugerem variações de um processo de metamorfose.

O segundo grupo contempla os recortes que Andersen fazia em ocasiões sociais. Esses são preciosos remanescentes de seus papéis de hóspede animador que podia contar histórias improvisadas enquanto fazia os recortes, como ele mesmo dizia: “O conto de fadas aparece da tesoura de Andersen” (From Andersen shears / the fairy tale appears). Quando visitava seus padrinhos, acreditava-se que Andersen preferisse a companhia de mulheres e crianças; esses eram seus ouvintes favoritos. Uma vez diante dessa reduzida e sensível platéia, ele ocasionalmente sentia-se à vontade para evocar temas peculiares ou trágicos, tais como diversas figuras dançando e dois homens enforcados – visões de luminosidade e escuridão justapostas. Um dos homens está sendo enforcado no nariz de uma figura em destaque, talvez o próprio Andersen.

Durante essas apresentações informais, Andersen podia dobrar a folha de papel muitas vezes, mudando as vezes de direção, até chegar ao coincidente final da história. Dessa combinação de gestos e palavras emergiam composições fantásticas e animadas. Os recortes que Andersen fazia durante suas contações de história não ilustravam seus contos, mas funcionavam independentemente, fazendo suas apresentações ainda mais dramáticas e memoráveis. Seus ouvintes deviam ficar estarrecidos e perplexos como suas mãos enormes e sua tesoura igualmente grande produziam aquelas obras de arte tão pequenas e delicadas. Anjos, cisnes, bailarinas, duendes, pierrôs, bonecos de areia, operários, árvores, corações e elfos eram alguns personagens e formas que emergiam da sua pródiga imaginação. Porque sua técnica incluía dobraduras, seus recortes funcionam como imagens espelhadas - repetições que podem sugerir movimento e até mesmo movimentos infinitos.

Muitos desses trabalhos de salão são objetos decorativos, como árvores de Natal, ornamentos e brinquedos de criança que Andersen fazia como presente para seus padrinhos. Para Andersen, o salão era um tipo de teatro, e muitos recortes na verdade assemelham-se a pequenos palcos. Suas conexões com o mundo teatral mantiveram a ingenuidade presente em seu trabalho. Na verdade, a profunda identificação de Andersen com o mundo das crianças facilitou o seu acesso aos domínios da imaginação desimpedida de preconceitos. Como Jen Andersen observou, ele usava sua tesoura para “cortar seu caminho, mais ou menos conscientemente, de volta à terra de sua infância”

O terceiro grupo de recortes usa formas simplificadas para expressar estados psíquicos complexos. Esses recortes estão entre os trabalhos mais pessoais de Andersen, geralmente feitos rapidamente, de modo primitivo ou rasgados à mão. Eles comportam as maiores e mais estranhas variedades de “seres” de um submundo primordial: demônios, bruxas, gnomos, fadas, elementais, medusas e criaturas estranhas de espécies indeterminadas – meio bicho e meio gente. Andersen acessava fontes arcaicas para conjurar imagens que são “geralmente tão grotescas e primitivas que, em muitos casos, relembram figuras míticas ou ritualísticas das culturas inuítes das regiões polares, assim como tribos da África, da Austrália ou da Polinésia, onde arte, contação de histórias e mitologia se misturam e se perpetuam passando de uns aos outros”. O significado e a forma da arte de Andersen pode ser alocada em algum lugar entre as típicas figuras de pão de mel (gingerbread figures) que ele colecionou por toda a sua vida e os espíritos demoníacos que ele cortava do papel.

Bibliografia

TEICHER, Hendel. Cut-Outs and Cut-Ups Dublin:Irish Museum of Modern Art, 2008.

ZIPES, Jack. Hans Christian Andersen, the misunderstood Storyteller. New York: Taylor & Francis Group, 2005

Publicado em 14 de setembro de 2010.