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Educação Física e Pedagogia de Projetos: sua importância no contexto escolar

Leonardo Augusto d´Almeida Barros

Pós-graduado em Educação Física e em Educação; mestrando em Educação

Introdução

Vivemos em tempos mudados; os debates sobre função da escola e o significado das experiências escolares continuam sendo um dos assuntos mais polêmicos entre educadores, juntamente com as mudanças mundiais, a globalização da economia, a informatização e os meios de comunicação, redescobrindo o papel da escola dentro do novo modelo de sociedade desenhado neste início de século.

Na década de 1970, o conceito de educação pautava-se em ferramentas que facilitassem a compreensão das disciplinas, na escolha dos materiais que poderiam contribuir para a melhora do ensino, cada matéria com uma série de conceitos característicos, com especialistas responsáveis em transmiti-los. Cada disciplina possuía uma função a desempenhar, um tijolo colocado em uma grande parede.

Na década de 1980, nota-se que os conteúdos precisaram ser configurados e apresentados por meio de uma variedade de linguagens (verbal, escrita, gráfica e audiovisual) para abrir aos estudantes os processos de pensamento de ordem superior necessários para que compreendessem e aplicassem o conhecimento a outras realidades. Mediante essa conexão, vislumbramos relações conceituais entre as matérias curriculares e a oportunidade de transferir a outros contextos. Dessa maneira, a aprendizagem não se contempla como uma sequência de passos para alcançar uma meta na qual se acumula informação, mas sim como um processo complexo mediante o qual o conhecimento se rodeia e se situa para aprendê-Io.

Em tempos atuais, ao perguntar aos professores qual o aluno ideal ou qual aluno gostariam de ajudar a formar, provavelmente não haverá discordância nas respostas. De acordo com um discurso enlatado, certamente diriam que é um aluno autônomo, consciente, reflexivo, participativo, cidadão atuante, feliz, cooperativo e que respeite as diferenças. Mas o que vemos atualmente é uma educação que prioriza o aprendizado pela aquisição de conteúdos, muitas vezes formando alunos ouvintes, passivos, “sendo preparados para o futuro”, esquecendo-se do agora. Muitas escolas preocupam-se com o desenvolvimento cognitivo de seus alunos – o que seria perfeitamente louvável se esta não fosse a única preocupação.

Inspirado nas possíveis mudanças na Educação Física, relacionando-a às outras disciplinas, recorri à Pedagogia de Projetos, que propõe difundir a concepção de conhecimento escolar, trazendo o aprender baseado na integração das “disciplinas” com o mundo, os interesses de aprendizado de cada grupo e velocidade de aprendizado de cada aluno.

Ao pensarmos em sujeito integral, devemos conceber um conjunto de áreas, priorizando o aprender pelas experiências, com interação com o meio e o outro, uma educação provocadora de desafios, visando à resolução de problemas, expandindo-se também para as áreas motora, afetiva e social.

O presente trabalho procura responder à seguinte questão: como a Educação Física, por meio de projetos interdisciplinares, pode proporcionar aprendizados significativos, no contexto escolar?

Apresento a Pedagogia de Projetos como uma ferramenta que considero consistente na educação atual – não como a salvação da educação brasileira ou uma receita a ser seguida, pois necessita adaptações a cada contexto para que seja eficaz. Espero proporcionar aos professores de Educação Física, Pedagogia e outras disciplinas instrumentos que priorizem o educar como um todo, rompendo barreiras históricas de que a Educação Física cuida dos corpos enquanto outras disciplinas cuidam da mente. Proponho auxiliar a sociedade na formação de pessoas que possuam relações próximas com os conteúdos, sem ter a concepção de que o aprender está relacionado a repetição sem significado.

Conceito de sociedade aberta e a educação interdisciplinar

Para compreender o conceito de interdisciplinaridade e a força que exerce a união das disciplinas na Educação, farei uma breve explicação sobre a formação das sociedade abertas. Baseado em Morin (2002), dizemos que, quando as pessoas se reúnem, existe sinergia, pois os integrantes possuem os mesmos objetivos, provocando efeito multiplicador, pois juntas conseguem atingir resultados melhores do que se fizessem seus trabalhos individualmente. Essa sinergia faz com que a organização obtenha melhores resultados e recursos. Morin utiliza Parsons (1960) para relatar a formação das organizações:

unidades sociais (ou agrupamentos humanos) intencionalmente construídas e reconstruídas, a fim de atingir objetivos específicos. Isso significa que as organizações são propositadas e planejadamente construídas e elaboradas para atingir determinados objetivos e também são reconstruídas, isto é, reestruturadas e redefinidas à medida que os objetivos são atingidos ou à medida que se descobrem meios melhores para atingi-los com menor custo e menor esforço (p. 17).

As relações conjuntas englobam, segundo Morin (2002), “o compreender, que significa, intelectualmente, aprender em conjunto, em sua gene ‘comprehendere’, traduzido ao português, “abraçar juntos”.

A interdisciplinaridade é esse abraçar, trazendo o aluno para o centro do aprendizado, preocupando-se em ensinar, valorizando todos os profissionais como educadores que educam o corpo inteiro e não um corpo fragmentado.

A diferença entre multidisciplinaridade e interdisciplinaridade

A multidisciplinaridade ocorre a partir de um tema que é abordado por diversas disciplinas, sem relação direta entre elas. Com a multidisciplinaridade, todos falam do mesmo tema, sem relações, ou seja, “cada um faz sua parte”; as abordagens são específicas de cada disciplina e não há interligação.

A interdisciplinaridade, segundo Fazenda (1994), caracteriza-se pela articulação entre teorias, conceitos e ideias em constante diálogo entre si. Com ela, duas ou mais disciplinas interagem em seus conteúdos, aprofundando os conhecimentos.

Para Fazenda (2001), a interdisciplinaridade é fundamental numa convergência que busque a educação plena do aluno. É a tentativa de superação da fragmentação do saber, num projeto de ensino voltado para o saber integral.

O educar que esperamos é aquele em que exista comunicação entre os envolvidos. Não adianta todos fazerem seu trabalho em torno de um tema central sem comunicação entre eles, sejam pessoas de qualquer segmento; a informação e a união de esforços trazem benefícios incontáveis.

As mudanças na visão da escola e do ensinar

A educação brasileira passou por grandes mudanças, segundo Eduardo O. C. Chaves, professor titular de Filosofia da Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e consultor do Instituto Ayrton Senna (IAS). Para facilitar a transmissão e a absorção do conhecimento, os seres humanos dividiram o conhecimento em vários compartimentos, comumente chamados disciplinas: Comunicação e Expressão, Matemática, Ciências, Estudos Sociais, Artes etc. ou, alternativamente, Português, Matemática, Física, Química, Biologia, História, Geografia, Artes, Filosofia, para não mencionar Sociologia, Antropologia, Economia etc.

Segundo Miguel Arroyo (1994, p. 31),

se temos como objetivo o desenvolvimento integral dos alunos numa realidade plural, é necessário que passemos a considerar as questões e problemas enfrentados pelos homens e mulheres de nosso tempo como objeto de conhecimento. O aprendizado e a vivência das diversidades de raça, gênero, classe, a relação com o meio ambiente, a vivência equilibrada da afetividade e sexualidade, o respeito à diversidade cultural, entre outros, são temas cruciais com que, hoje, todos nós nos deparamos e, como tal, não podem ser desconsiderados pela escola.

Um movimento chamado Escola Nova, inicialmente comandado por Ovide Decroly (1871-1932), Maria Montessori (1870-1952) e John Dewey (1859-1932), criticou a escola tradicional, discutindo sua função, a do professor, a do aluno e a organização do trabalho pedagógico.

Os escolanovistas pregaram a educação que priorizava a globalização do ensino, o atendimento ao interesse e à participação dos alunos, uma nova organização didática e reformulação da sala de aula.

Em 1931, Fernando Sáinz, professor dos movimentos renovadores espanhóis, quis responder a uma pergunta: "por que não aplicar à Escola Fundamental o que se faz na esfera dos negócios ou no ensino superior especializado? Por que não organizar a Escola seguindo um plano de tarefas análogo ao que se desenvolve fora, na casa, na rua, na sociedade?” O que se pretende é que o aluno não sinta diferença entre a vida exterior e a vida escolar; por isso, os projetos devem estar próximos à vida.

Surge então uma Pedagogia que oferece a vantagem de atuar concomitantemente com o processo de desenvolvimento profissional do professor e sobre o processo de aprendizagem dos alunos. Essa proposta implica aprender na prática (aprender fazendo), ousar trabalhar de uma nova maneira, o que certamente abrirá novas perspectivas de ensino.

Rosseau (apud Almeida, 1998, p. 22) demonstrou que a criança tem maneiras de pensar e de sentir que lhe são próprias; demonstrou que não se aprende nada senão por meio de uma conquista ativa.

Freire (1994) pede que, quando os pais matriculem seus filhos na escola, matriculem também seus corpos, rompendo a visão de que o aluno é em momentos corpo e em momentos cérebro. Corpo, consciência e sentimentos estão sempre juntos.

A nova concepção de educação preza a união entre disciplinas “cognitivas” e “corporais”, mostra que somos todos educadores, não importa se na quadra ou na sala de aula. Como nas relações sociais, a escola deve proporcionar a união de forças para que cheguemos a um grande objetivo, que no nosso caso é formar pessoas.

Os educadores citados consideram o aluno como parte mais importante do processo educativo visando sua formação integral, mudança principal na nova roupagem da educação brasileira. Baseados nestes preceitos, trataremos mais profundamente a Pedagogia de Projetos.

Pedagogia de Projetos

À luz das mudanças na visão de Educação, surge a Pedagogia de Projetos, que procura promover a integração e a cooperação entre professores e alunos, rompendo a rigidez da sala de aula e transformando todo o ambiente escolar, a fim de resolver problemas de interesse dos alunos e relacionados à vida. Reafirmado por Boutinet (1993), em uma "cultura de projeto" todos devem estar familiarizados com a idéia de projeto, tanto alunos quanto professores.

Na vida, os conteúdos são todos integrados; ao desempenhar qualquer atividade social ou profissional, utilizamos concomitantemente saberes diversos: uma inspetora na escola não apenas “vigia” alunos, também atua na educação, no auxilio da higiene pessoal dos alunos menores e na resolução de conflitos entre os alunos. Da mesma forma, o porteiro não apenas recepciona os alunos, trabalha na administração do fluxo de pessoas na escola, orienta os pais sobre como proceder em determinados momentos. Na Educação, para facilitar a aquisição de conteúdos, seriaram o aprendizado dos conhecimentos, mas isso tem, por outro lado, destituído muitas vezes esses conhecimentos de seu significado.

Segundo os preceitos da interdisciplinaridade juntamente com a Pedagogia de Projetos, podemos dar novos significados ao processo de ensino-aprendizagem, pois o aprender não é apenas decorar determinada quantidade de conteúdo. Nessa postura, o aprendizado e o conhecimento são construídos em estreita relação com o contexto em que são utilizados (a vida real), unindo o cognitivo, o afetivo, o social, o motor e o sentimento, ao aproximar-se do conhecimento. Embasado por Nogueira (2001),

Diferente dos cansativos e anacrônicos trabalhos de casa e das pesquisas que se transformam no máximo em “bons” exercícios de caligrafia, já que elas refletem apenas a cópia de centenas de enfadonhas palavras com os conteúdos indo além da forma conceitual e articulando diferentes áreas do conhecimento (p. 79).

A Pedagogia de Projetos pressupõe características de Educação diferentes da noção de que todas as crianças devam aprender as mesmas coisas pelos mesmos métodos, nos mesmos ritmos e nos mesmos momentos, independentemente de seus interesses, suas habilidades, sua cultura; essa aprendizagem é exercida com o acompanhamento pessoal, o que explica por que, a partir dos mesmos saberes, há sempre lugar para a construção de inúmeros significados, e não sua uniformidade.

Segundo Perrenoud (2000, p. 83),

Os projetos se organizam em torno de uma atividade pedagógica precisa, como a montagem de um espetáculo em conjunto, a organização de uma jornada esportiva, a criação de oficinas abertas, a criação de um jornal; a cooperação é, então, o meio para realizar um empreendimento que ninguém tem a força ou a vontade de fazer sozinho; ela se encerra no momento em que o projeto é concluído.

Os projetos cujo desafio é a própria cooperação e que não têm prazos precisos visam a instaurar uma forma de atividade profissional interativa que se assemelha mais a um modo de vida e de trabalho do que a um desvio para alcançar um objetivo preciso.

Ao invés de trabalhar um método rígido, em que o professor é o detentor do saber e único informante, dando respostas certas e cobrando sua memorização, o professor de projetos interdisciplinares une-se às áreas de conhecimento e intervém no processo de aprendizagem dos alunos, criando situações problematizadoras, estimulando novos conhecimentos.

Segundo Maria Elizabeth Biaconcini de Almeida (1999), a aprendizagem por projetos ocorre pela interação e articulação entre conhecimentos de distintas áreas, conexões a partir dos conhecimentos cotidianos dos alunos cujas expectativas, desejos e interesses são mobilizados na construção de conhecimentos científicos.

Com os projetos de trabalho, os alunos interagem com o meio; os conteúdos deixam de ser um fim em si mesmos, passam a ser meios para ampliar a formação dos alunos e sua interação com a realidade, de forma critica e dinâmica, um modo de organizar o ato educativo que indica uma ação concreta, voluntária e consciente, trabalhando com situações-problema dos fenômenos, da realidade e não da recepção de conteúdo, vindo como ruptura das disciplinas escolares, tendo a educação como uma proposta única e não segmentada.

A Pedagogia de Projetos vem ao encontro das ideias de Demo (2000), pois permite que o aluno aprenda fazendo e reconheça sua participação efetiva naquilo que produz por meio de questões de investigação que o impulsionam a contextualizar conceitos já conhecidos e descobrir outros que aparecem durante o processo do projeto; nessa situação de aprendizagem, o aluno seleciona informações significativas, toma decisões, trabalha em grupo, gerencia confrontos de ideias; enfim, desenvolve competências interpessoais para aprender de forma colaborativa com seus pares.

Os conteúdos curriculares passam a ser concebidos de maneira integral, articulada e dinâmica. Desta forma, ocorre a conquista de níveis mais elevados de motivação, participação e coprodução vivenciada entre os educandos, seus pares e o educador.

Na prática de uma rígida divisão dos conteúdos, é como se existisse um muro entre as disciplinas; cada professor trata de seu assunto sem sequer saber o que as outras disciplinas abordam. Quando os professores se propõem a trabalhar com projetos interdisciplinares, é como se fossem abertas janelas entre os muros, proporcionando aos professores comunicações efetivas visando o conhecimento e o desenvolvimento integral dos alunos.

Uma ação de projetos desarticula os conteúdos da própria disciplina; diferentemente das ações anteriores, não havia, por exemplo, nenhuma integração entre a Física e Geografia. O professor de uma disciplina exata, ao ver um aluno que escreva errado, não procuraria intervir e solucionar a dificuldade real do aluno, pois o docente é especialista na sua área. Cada professor com a sua disciplina, seu planejamento preestabelecido, seu livro didático e seu currículo; são professores preocupados somente com a transmissão de conteúdos disciplinares; todas as discussões fora do “conteúdo” com os alunos significam perda de tempo e o não-cumprimento do conteúdo.

O professor torna-se um consultor, mediador, orientador e facilitador do processo em desenvolvimento pelos alunos, criando um ambiente propicio à confiança, ao respeito, ao encorajamento e à interação do aluno com o mundo do conhecimento.

Para o sucesso de um projeto, é necessário que o educador domine métodos de pesquisa: como fazer levantamento de dados através de diferentes tipos de fontes, como sistematizar, analisar, reelaborar e sintetizar os dados, pois o conteúdo não está preestabelecido; e os métodos são fundamentais para que isso ocorra.

O apoio familiar é também expediente significativo, evitando que o processo de aprendizagem seja função única da escola; é importante que a família participe integralmente, garantindo o apoio necessário, fazendo cumprir a gestão democrática, a união entre escola, família e sociedade.

No entanto, para que o aluno mergulhe nos projetos, o objeto de estudo deve ter o mínimo de significado; segundo Nogueira (2001), o projeto nasce de um sonho, de uma necessidade, interesse e vontade de conhecer e investigar um assunto.

Não basta apenas pensar em construir conjuntamente o conhecimento, é necessária a definição concreta da relação professor-aluno, do vínculo que a criança forma com o professor, rompendo obstáculos que ela encontra em seu processo de aprendizagem e desenvolvimento.

A criança é incentivada a desvendar o mundo conforme seus interesses, as coisas que lhe atraem e que gostaria de aprender; o educador é a pessoa a quem é dada a responsabilidade de encontrar maneiras de, a partir desses interesses, tornar a atividade da criança útil e significativa ao seu desenvolvimento.

Para que um projeto educativo seja elaborado, devemos ter bem clara a intencionalidade. Todo projeto deve ter objetivos claros e bem definidos. O que pretendo com a realização desse trabalho? Quais resultados posso esperar? Em que sentido meus alunos serão modificados? Não é aconselhável que os modelos sejam copiados, mas sim adaptados a cada realidade; depende da série dos alunos, do acesso às informações, dos materiais disponíveis, do envolvimento dos responsáveis pelos educandos e, principalmente, do comprometimento da escola com essa proposta pedagógica.

Principais características na elaboração de um projeto educacional

Aqui estão alguns passos para a elaboração de um projeto interdisciplinar desde sua criação até a avaliação.

Um projeto é uma sucessão de atos coerentes; um passo prepara a necessidade do seguinte, e na qual cada um deles se acrescenta ao  que já se fez e o transcende de um modo cumulativo.

Desde seu início, considera-se que não há uma única maneira de realizar o Método de Projetos. Sáinz (1950) distingue quatro possibilidades:

  1. globais, nas quais se fundem todas as matérias, desenvolvendo projetos complexos em torno de núcleos temáticos como família, lojas, cidades;
  2. por atividades: de jogo, para adquirir experiência social e na natureza e com finalidade ética;
  3. por matérias vinculadas às disciplinas escolares;
  4. de caráter sintético. Fala-se também de projetos simples e complexos, relacionados às matérias ou com a experiência próxima, breves ou extensos.

Conhecendo a característica do projeto a ser executado, é necessário conhecer os caminhos a percorrer:

  • Escolha do objetivo central do projeto; 
  • Planejamento;
  • Execução;
  • Avaliação e divulgação dos trabalhos.

O problema de estudo é o ponto de partida do projeto, antes mesmo do tema. Significa o que eu pretendo responder ao final do projeto. É fundamental que todos tenham conhecimento do problema a ser resolvido, pois todo o projeto irá girar sobre esses objetivos.

Algumas técnicas para escolha do problema de estudo são: debates, rodas de conversa, questionário de análise das necessidades da comunidade, análise dos conteúdos programáticos, explanação e votação de temas; assim todos se sentem com poder de decisão no projeto.

Ao escolher o tema do projeto, podemos pensar que o tema deva partir exclusivamente dos alunos para não demonstrar imposição, ou que, pela experiência do professor, deva partir dele, estimulando os alunos a desenvolver-se e a buscar conhecimento; o critério a ser seguido depende do grau de maturidade dos educandos.

Hernández (1998) alerta que não basta o tema ser "do gosto" dos alunos. Se não despertar a curiosidade por novos conhecimentos, nada feito. "Se fosse esse o caso, ligaríamos a televisão num canal de desenhos animados”, explica. Por isso, uma etapa importante é a de levantamento de dúvidas e de definição de objetivos de aprendizagem.

O tema pode aparecer da curiosidade dos alunos em conhecer algo, de uma característica particular da escola, da comunidade, do grupo em particular ou da atualidade. Independentemente da origem do tema do projeto, o importante é o envolvimento de todos os participantes; ele dará vida ao processo, o que importa é a significância do tema.

No desenvolvimento do projeto é necessário planejamento do caminho percorrido; um bom planejamento torna mais sólido o caminho a ser percorrido. Nesse momento, as metas devem ser estabelecidas, os alunos devem ter claras essas metas e as prioridades para acompanhá-las e cobrá-las.

Conhecer o local no qual irei intervir é fundamental; as características particulares podem levar o projeto ao sucesso ou ao fracasso: um projeto em um bairro pode ter sucesso total e no bairro vizinho pode demonstrar características ofensivas a determinado grupo; por isso é necessária uma espécie de “etnografia”, ou seja o conhecimento das peculiaridades do local trabalhado.

No planejamento do projeto é importante tomar como preocupações básicas os seguintes itens:

  • Trabalhar com temas abrangentes e ricos;
  • Evitar enfatizar uma única disciplina, procurando sempre promover a interdisciplinaridade;
  • Trabalhar o máximo de materiais possíveis, aproveitando toda a estrutura do local;
  • Planejar atividades que trabalhem com diferentes formas de expressões, como: redação, dramatização, artes, música, atividades corporais, apresentações orais etc.

Quando estamos envolvidos no trabalho, muitas vezes não nos damos conta do percurso trilhado; o trabalho de síntese nos dá os parâmetros de quanto já fizemos e o quanto devemos fazer.

A síntese pode ser uma amostra do processo, uma apresentação do que foi trabalhado pelo projeto, um resumo das experiências adquiridas. A apresentação pode ser feita por feiras, apresentações artísticas, exposições e filmagens, entre outras formas. O registro pode ser feito por fotos, textos escritos, filmados, relatos feitos pelos alunos em forma de diário, portfólio.

A avaliação deve acontecer não somente no final do processo, mas durante todo ele, continuamente. A avaliação dos projetos pretende ser instrumento de análise para aprimoramento, e não como instrumento seletivo, separando os melhores dos piores.

Segundo Janssen (2003, p. 16), “há uma emergente necessidade em ‘desenvolver uma nova postura avaliativa’, e a prática pedagógica deve estar sendo revisada à luz dos dados que emergem da avaliação”.

A avaliação inicial é importante, pois poderemos conhecer o público com quem estamos interagindo; com a avaliação é possível planejar melhor o processo de ensino, com informações de grande valor para seu planejamento posterior; por isso, é recomendado seu uso, para criar parâmetros de trabalho.

A avaliação contínua deve ser feita em conjunto, como roda de conversa e análise: se o projeto tem trazido significados importantes para o processo e o que poderia ser modificado, apresentando sugestões.

Outro instrumento eficaz é o diário de campo. Ao término da aula, o aluno e o professor fazem anotações, sempre levando em consideração os objetivos iniciais, relacionando às atividades realizadas (atividade programada e realizada), explanando as dificuldades encontradas, o que acharam significativo, ou seja, tudo que considerem importante para ser discutido com os alunos e outros educadores.

A educação deve ser emancipatória, analisando facilidades e necessidades; a avaliação tem como objetivo criar instrumentos para verificar o que deve ser melhorado. O erro relacionado à avaliação é que ela não pode ser considerada forma de seleção ou punição, mas, sim, instrumento de análise para novas possibilidades de conhecimento, vendo o que não está sendo alcançado, reavaliando e estimulando o sucesso e novas intervenções dos educadores.

Por fim, temos a avaliação recapitulativa, instrumento que oportuniza apresentar o processo de síntese de um tema, momento que permite reconhecer se os estudantes alcançaram os resultados esperados.

Assim, a avaliação é ferramenta de reorientação didático-pedagógica, esperando a aprendizagem significativa. Assim, encaminhar as discussões na escola para propostas de avaliação formativa é uma alternativa de quebra de paradigma dos elementos constitutivos da avaliação enquanto mecanismo de repressão e exclusão.

O conhecimento, por parte do professor, dos passos a serem seguidos na elaboração do projeto, de novas abordagens, de instrumentos pedagógicos e novas tecnologias é fundamental para realizar projetos em que exista a participação efetiva e o aprendizado significativo dos alunos; do contrario, como citado por Nogueira (2001), “corremos o risco de estar praticando ‘trabalhos escolares’ que podem ficar resumidos apenas a meros cartazes com ‘babadinhos de papel crepom’, em que a autonomia do aluno ficará restrita apenas a escolher a cor do babadinho” (p. 187).

Considerações finais

De acordo com a pesquisa bibliográfica, considero a Pedagogia de Projetos um instrumento importante na educação brasileira, pois atende personalizadamente às necessidades de cada grupo sem fugir dos preceitos da educação, de formar cidadãos.

Seus objetivos são claros, mas não imutáveis, mostrando que cada grupo possui necessidades particulares e que existem condições de atender a todos se forma eficaz.

Reconheço a dificuldade dos professores de iniciar e mostrar a importância do projeto interdisciplinar, muitas vezes “lutando” com a instituição escolar, com os pais que compraram os livros e esperam que seja usado até o fim, com colegas de trabalho que consideram apenas mais uma forma de fugir da sala de aula. Essa luta é dura, mas não pode nos obrigar a estagnar na busca de nossos objetivos.

Nosso trabalho é como uma gota de água jogada no oceano, mas se não o fizermos será uma gota a menos a se juntar com outras que também esperam a mudança.

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Leia também:

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Publicado em 29/09/2009