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Uma experiência com modelagem na educação de jovens e adultos

Thiago Pires Santana

Mestrando em Educação, professor do ensino fundamental, superior e EJA

Este texto pretende relatar uma experiência de modelagem matemática numa turma formada por jovens e adultos do Colégio Municipal Oscar Pereira de Magalhães, no município de Terra Nova (BA), a fim de que sirva de análise e motivação para professores de Matemática trabalharem a modelagem, na intenção de unir o conhecimento matemático às relações encontradas no dia a dia.

Entende-se que a proposta do EJA (Educação de Jovens e Adultos) é fundamentada nos ideais freireanos de emancipação e libertação, que têm por objetivo desenvolver o ser humano em sua amplitude, valorizando sua realidade e sua cultura, além da ampliação do conhecimento crítico, da compreensão das relações de poder no uso social da linguagem, da valorização do cotidiano e da análise de fatos passados para a compreensão da realidade histórica etc. Neste viés, o EJA é visto como um processo permanente de aprendizagem, visto que fortalece a sociedade civil ao resgatar a tradição de luta pela democracia e pela justiça social (Alfabetização de jovens e adultos: manual do alfabetizador, 2008).

Nessa mesma linha, procurei trabalhar buscando a realidade dos educandos para que estes pudessem ter uma aprendizagem significativa e contextualizada, considerando seus conhecimentos e saberes, aproximando, assim, os fundamentos da Matemática às suas vidas. Os próprios PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) orientam que a Matemática seja uma disciplina que venha a descrever e trabalhar a realidade do aluno, para que possa ser mais lúdica e contextualizada.

Santana (2008) afirma que habilidades e competências podem ser desenvolvidas com o ensino da Matemática, destacando a capacidade de utilizar essa disciplina na interpretação e intervenção do real e na seleção de estratégias para resolução de problemas, entre outros. “A Matemática, assim como as outras disciplinas do currículo escolar, pode servir para organizar o discurso; ativa o processo de pensar, impulsionando as operações básicas de análise, de síntese, da abstração e da generalidade” (Borges, 1995, p. 103).

O que desejo enfatizar é que o ensino de Matemática no EJA precisa ser trabalhado em paralelo à realidade para que o conhecimento matemático tenha realmente significado e relevância para o aprendiz, fazendo com que este identifique no seu cotidiano as relações matemáticas existentes. Para isso, acredita-se que a modelagem matemática pode proporcionar um ambiente colaborativo de aprendizagem, em que aspectos relacionados à realidade podem ser abordados, visto que “a modelagem matemática consiste na arte de transformar problemas da realidade em problemas matemáticos, resolvendo-os e interpretando suas soluções na linguagem do mundo real” (Bassanezi, 2002 p. 16).

Biembengut e Hein acrescentam que:

A modelagem no ensino da Matemática pode ser um caminho para despertar no aluno o interesse por tópicos matemáticos que ele ainda desconhece, ao mesmo tempo que aprende a arte de modelar, matematicamente. Isso porque é dada ao aluno a oportunidade de estudar situações-problema por meio da pesquisa, desenvolvendo seu interesse e aguçando seu senso crítico (2003, p. 18).

Os autores descrevem ainda alguns objetivos que podem ser alcançados com a modelagem aplicada ao ensino da Matemática:

  • Aproximar uma outra área do conhecimento da Matemática;
  • Enfatizar a importância da Matemática para a formação do aluno;
  • Despertar o interesse pela Matemática ante a aplicabilidade;
  • Melhorar a apreensão dos conceitos matemáticos;
  • Desenvolver a habilidade para resolver problemas; e
  • Estimular a criatividade.

Diante desses argumentos e acreditando que a modelagem aplicada ao ensino da Matemática pode trazer uma aprendizagem de maior qualidade e que esta atenderia às exigências e critérios da educação de jovens e adultos, foi criada uma atividade para uma turma formada por estudantes com faixa etária acima de 15 anos que fazem o 6º ano (antiga 5ª série).

A atividade

A partir da socialização de experiência vivida em um workshop sobre modelagem, foi pensada a atividade, que poderia ser trabalhada com alunos do EJA. Foi a troca de informações que me incitou a pensar na atividade, composta de quatro questões e uma tabela que tinha as calorias de uma determinada porção dos alimentos mais consumidos:

  1. Descreva todo alimento consumido durante o dia anterior, organize separando o consumo da manhã, tarde e noite.
  2. Com base na consulta da tabela, separe os alimentos consumidos por porção.
  3. Calcule a quantidade de calorias consumida durante os três turnos e durante o dia inteiro.
  4. Faça uma análise do seu consumo.

Com esta atividade, os alunos tiveram que trabalhar as quatro operações básicas inúmeras vezes, além de refletir sobre seu consumo diário de alimentos, carboidratos, frutas, carnes, laticínios etc. Os alunos trabalharam essas questões em três momentos, durante uma semana; o ultimo encontro foi utilizado para socializar e discutir as respostas.

Considerações finais

Foi perceptível, nessa prática, que os alunos identificaram um significado real para utilizar seus conhecimentos em Matemática de maneira lúdica e contextualizada. A abordagem de uma realidade conhecida pelos alunos, proporcionada pela modelagem, fez com que adquirissem mais informações sobre sua vivência e pudessem estabelecer relações com o cotidiano, por meio de questionamentos de base matemática.

A incitação gerada pela proposta de modelagem fez com que muitos alunos viessem a problematizar questões do seu dia a dia e estabelecessem possíveis modelagens de outras realidades vividas por eles. Essa incitação fomentou, de forma bem visível, a iniciativa para reflexão e pesquisa de análise das realidades significativas do grupo, em que alguns alunos disserem que iam utilizar o que tinham aprendido para controlar a alimentação e fazer uma boa dieta.

Em suma, acredito que seja possível caminhar do abstrato para o concreto, estabelecendo vínculos entre o processo de ensino-aprendizagem e as relações do cotidiano, partindo dos pressupostos da modelagem. A socialização dessa atividade tencionou fazer com que professores possam trabalhar com modelagem em todos os níveis de ensino e possam, num futuro próximo, trocar experiências inovadoras e criativas de aprendizagem.

Referências

ANTUNES, A. M. B. et al. Alfabetização de jovens e adultos. Manual do alfabetizador. Rio de Janeiro: Escola Multimeios, 2008.

BASSANEZI, R. C. Ensino-aprendizagem com modelagem matemática. São Paulo: Contexto, 2002.

BIEMBENGUT, M. S. e HEIN, N. Modelagem matemática no ensino. São Paulo: Contexto, 2003.

BORGES, C. C. Reflexões sobre o ensino da matemática. In: TENÓRIO, R. M. (org). Aprendendo pelas raízes: alguns caminhos da Matemática na História. Salvador: Centro Editorial e Didático da UFBA, 1995. p. 101-110.

BRASIL. Ministério da Educação. Parâmetros curriculares nacionais: Matemática. Brasília: MEC/SEF, 1997.

SANTANA, T. P. A educação matemática e a matemática financeira: uma proposta de ensino. Revista virtual P@rtes. Disponível em: http://www.partes.com.br/educacao/matematicafinanceira.asp. Acesso em 11/08/2009.

Publicado em 15 de setembro de 2009.