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A INFÂNCIA DA EDUCAÇÃO: O CONCEITO DEVIR-CRIANÇA

Walter Omar Kohan

Professor de Filosofia da Educação da Uerj

É preciso pensar o devir-criança enquanto átomos de infantilidade, que produzem uma política infantil (desta vez, sim) molecular, que se insinuam nos afrontamentos molares de adultos e crianças...
S. Corazza, Infancionática..., 2003, p. 101

Introdução

[Suficiente] é a educação e a criação, respondi; pois se bem educados, surgirão homens medidos que distinguirão claramente todas estas coisas e outras...
Platão, A República IV 423e

O que é a infância? A pergunta ressoa sem parar. Será que conseguimos levar a interrogação até onde ela consiga, de verdade, fazermo-nos interrogar? Será que nos perguntamos mesmo pela infância? Será que conseguimos interrogarmo-nos sobre nossa relação com a infância, sobre o que somos em relação à infância? Será que algo infantil nos atravessa com a pergunta?

Em outros trabalhos, temos estudado uma forma dominante de responder essa pergunta no pensamento filosófico educacional da tradição que chamamos Ocidental (cf., por exemplo, Kohan, 2003, passim). Para dizê-lo em poucas palavras, segundo essa forma, educar a infância é importante porque as crianças serão os adultos do amanhã e, portanto, os artífices das futuras sociedades; assim, educar a infância é a melhor e mais sólida maneira de introduzir mudanças e transformações sociais. A infância, entendida em primeira instância como potencialidade é, afinal, a matéria-prima das utopias, dos sonhos políticos dos filósofos e educadores.

Platão é talvez quem mais nitidamente inaugure essa tradição, particularmente em A República. Pensamos, sobretudo, no livro II, aquele da censura aos poemas homéricos e hesiódicos, que não contribuíam à propagação de uma divindade verdadeira, perfeita, imutável. Situemos esse livro no projeto da obra: depois de uma discussão sobre o conceito de justiça, no livro I, 'Sócrates' e seus interlocutores percebem que não há como não se ocupar e preocupar com a educação da infância, se é que a investigação pretende estabelecer as condições que tornem possível a justiça na pólis.

Com efeito, o livro II de A República trata, sobretudo, da educação dos guardiões da pólis que são, segundo Platão, as melhores naturezas, as mais aptas para cumprir essa função. Tratar de educação permitirá compreender a gênese da justiça e injustiça na pólis e será inevitável se queremos pensar numa pólis mais bela, justa e melhor. A estratégia adequada para chegar a tal pólis é a educação dos guardiões segundo os modelos mais apropriados. Essa intervenção se fundamenta em que a educação tem uma importância extraordinária para conduzir alguém até a excelência ou virtude, areté (Ibid., II 378e ), tanto que toda educação determina uma ordem social: uma boa educação leva a uma ordem justa e uma má educação a uma ordem injusta (Ibid., II 376 c-d). A tarefa começará cedo, desde a sua mais tenra idade porque "o princípio de toda obra é o principal... porque então se forma e imprime o tipo que alguém quer disseminar em cada pessoa" (Platão. A República, II 377a-b). De modo que, para educar essas tenras naturezas, será necessário tomar, quanto antes, todos os cuidados necessários, e definir muito precisa e escrupulosamente as formas (os modelos) e também os caminhos que haverão de seguir desde o início de suas vidas. Depois, quando eles se tornem os reis-filósofos, desde o governo da pólis, "educarão" todos os outros habitantes.

O conceito de infância que se desprende dessas passagens é nítido. Ela é uma etapa da vida, a primeira, o começo, que adquire sentido em função de sua projeção no tempo: o ser humano está pensado como um ser em desenvolvimento, numa relação de continuidade entre o passado, o presente e o futuro. A intervenção educacional tem um papel preponderante nessa linha contínua. Ela se torna desejável e necessária na medida em que as crianças não têm um ser definido: elas são, sobre tudo, possibilidade, potencialidade: elas serão o que devem ser. Assim, a educação terá a marca de uma normativa estética, ética e política instaurada pelos legisladores, para o bem dos que atualmente habitam a infância, para assegurar seu futuro, para fazê-los partícipes de um mundo mais belo, melhor. A infância é o material dos sonhos políticos a realizar. A educação é o instrumento para realizar tais sonhos.

1. Outros ares para a infância: outros tempos

Por isso, um adulto não pode aprender a falar; foram crianças e não adultos os que acessaram pela primeira vez a linguagem e, apesar dos quarenta milênios da espécie homo sapiens, a mais humana de suas características, precisamente - a aprendizagem da linguagem - permaneceu tenazmente ligada a uma condição infantil e a uma exterioridade: quem acredita num destino específico não pode verdadeiramente falar.
G. Agamben, Infância e história, 2001, p. 79-80.

Diversos trabalhos contemporâneos afirmam outros conceitos e outros lugares para a infância. Dentre eles, G. Agamben mostra como a infância é, antes de uma etapa, uma condição da experiência humana (2001, p. 5 ss.). Como diz o texto da epígrafe desta seção, Agamben esclarece que ela indica uma condição: infância é tanto ausência, quanto busca de linguagem; só um infante se constitui em sujeito da linguagem e é na infância que se dá essa descontinuidade especificamente humana entre o dado e o adquirido, entre a natureza e a cultura. O ser humano é o único animal que aprende a falar, e não poderia fazê-lo sem infância.

Notemos que a infância não é apenas uma questão cronológica: a infância é uma condição da experiência. É preciso ampliar os horizontes da temporalidade. Os gregos, aqui também, podem nos ajudar. Em grego clássico há mais de uma palavra para referir-se ao tempo. A mais conhecida entre nós é chrónos, que designa a continuidade de um tempo sucessivo. Aristóteles define chrónos como "o número do movimento segundo o antes e o depois", na Física (IV, 220a); percebemos o movimento, o numeramos e a essa numeração ordenada damos o nome de chrónos. O tempo é, nesta concepção, a soma do passado, presente e futuro, sendo o presente um limite entre o que já foi e não é mais (o passado) e o que ainda não foi e, portanto, também não é mas será (o futuro).

Mesmo que chrónos tenha sido a palavra mais bem-sucedida e comum entre nós, não é a única para designar o tempo. Outra é Kairós, que significa 'medida', 'proporção', e, em relação com o tempo, 'momento crítico', 'temporada', oportunidade (Liddell; Scott, 1966, p. 859). Uma terceira palavra é Aión que designa, já em seus usos mais antigos, a intensidade do tempo da vida humana, um destino, uma duração, uma temporalidade não numerável nem sucessiva, intensiva (Liddell; Scott, 1966, p. 45).

O intrigante fragmento 52 de Heráclito conecta esta palavra temporal  ao poder e à infância. Ele diz que "aión é uma criança que brinca (literalmente, "criançando"), seu reino é o de uma criança". Há uma dupla relação afirmada: tempo- infância (aión - paîs) e poder-infância (basileíe - paîs).  Este fragmento parece indicar, entre outras coisas, que o tempo da vida não é apenas questão de movimento numerado e que esse outro modo de ser de temporal parece com o que uma criança faz. Se uma lógica temporal segue os números, outra brinca com os números.

Com relação à infância, o fragmento também sugere que o próprio da criança não é ser apenas uma etapa, uma fase numerável ou quantificável da vida humana, mas um reinado marcado por outra relação - intensiva - com o movimento. No reino infantil que é o tempo não há sucessão nem consecutividade, mas a intensidade da duração. Uma força infantil, sugere Heráclito, que é o tempo aiónico.

2. Uma infância inventada

Desse modo, essas duas dimensões da temporalidade se desdobram em dois modos de pensar a infância. De antecedentes muito antigos, como acabamos de ver, também há inúmeros registros desses modos na arte, literatura e na filosofia de nosso tempo.

Um deles é a poesia do mato-grossense, Manoel de Barros. Visitemos por um instante um dos seus livros mais recentes, Memórias inventadas. A infância (2003). Como o título sugere, são dezesseis curtas crônicas de uma memória que o poeta inventa. Vamos nos deter no título.

Memórias inventadas é um oxímoro. Isto significa que se trata de dois termos em contradição, um nega o outro. Expressões semelhantes seriam, por exemplo, "mar pequeno" ou "criança velha". Em todos estes casos os dois termos parecem estar em contradição. Se algo é um mar então não pode ser pequeno porque dentro do conceito "mar" não cabe o conceito "pequenez"; ao contrário, ele contém o contrário de pequenez, a imensidão; nenhuma coisa pequena poderia aspirar a ser um mar; e o mesmo sucede com o conceito "criança" que parece conter notas que se opõem à velhice. Nenhuma criança poderia ser velha se é criança; nenhum velho poderia aspirar a ser criança.

De forma semelhante, a memória seria algo da ordem da descoberta, da recuperação, da rememoração, em suma, algo da ordem do não inventado, da des-invenção. Ao contrário, a invenção parece indicar algo novo, que se inicia, que começa, portanto impossível de ser lembrado. A invenção seria algo da ordem da des-memória e a memória algo da ordem do não inventado. Se algo é inventado não poderia vir da memória; se algo vem da memória não poderia ser inventado. A memória e a invenção andariam em direções contrárias, encontradas, desentendidas.

Alguém poderia pensar que um oxímoro congela o pensamento. Mas acontece o contrário. É justamente nas contradições que podemos pensar, se é que pensar tem a ver com criar e não apenas com reproduzir o já pensado. É quando nos situamos nesse espaço em que o já pensado parece impossível que nascem as condições para pensar outra coisa, algo diferente do já pensado. O pensar é algo que se faz sempre entre o possível e o impossível, entre o saber e o não saber, entre o lógico e o ilógico. Se estivéssemos situados na clareza do absolutamente lógico, da pura consistência, muito provavelmente não teríamos materiais para criar; se estivéssemos situados na absoluta certeza do que não responde a qualquer lógica talvez não poderíamos sequer pensar. É na tensão da contradição entre os dois extremos que algo nos força a pensar, nos faz perceber o sentido e o valor de pensar algo não pensado. E assim, pensamos como quem caminha sobre um fio composto pela consistência e a contradição.

De modo que na aparente contradição das memórias inventadas pensamos, de novo, a memória, a invenção. Junto com a memória vem o tempo. Talvez se abríssemos o tempo poderíamos abrir a memória: o que poderia ser a memória se não fosse algo da ordem da recuperação, da cronologia, da descoberta do que já foi, e portanto já não é mais: o que não "lembramos"? O que outra coisa poderia fazer a memória que não seja recuperar o passado?

Talvez se abríssemos a memória em uma dimensão aiónica do tempo, quiçá ela pudesse ser, ao contrário, algo da ordem da ruptura com o passado e com a temporalidade contínua e sucessiva do antes e o depois; talvez a memória possa ser algo da ordem do afastamento do passado, da recusa de outro tempo e da instauração de um novo tempo para pensar, de um novo início de pensar o tempo, e de um tempo para pensar.

De forma semelhante ao tempo de Heráclito, que brinca, como uma criança, a memória do poeta brinca, irreverente, com o passado, o presente e o futuro: altera sua ordem, não respeita sua sucessão; abre, a cada vez, um novo início da não continuidade, do não progresso, da não evolução. A memória se faz companheira e amiga da invenção, de um novo tempo, de um novo pensar.

Mais uma vez, o poeta ajuda a pensar e a nos interrogar. Depois do título, Memórias inventadas, lemos o subtítulo: a infância. Acometem-nos algumas perguntas infantis: qual o sentido e significado dos "dois pontos"? É a infância que é inventada ou é a infância que inventa? São as memórias da infância ou a infância das memórias? Não podemos parar de perguntar: É a invenção da infância ou a infância da invenção?

Depois do título e do subtítulo vem a epígrafe: tudo o que não invento é falso. Parece fala de criança, primeira memória inventada, primeiro invento da memória, primeiro novo início. Estamos acostumados a pensar a verdade do lado da ciência, do lado da demonstração, da prova, da regra, da lei, do estatuto, da argumentação, da aquiescência, da conformidade, da proposição, da concordância entre o discurso e a realidade. Aqui, ao contrário, a invenção é a produtora e condição de possibilidade da verdade. A sentença significa, então, que não há nada verdadeiro que não seja inventado, ou que só pode existir a verdade quando há invenção. O que não significa que toda invenção seja verdadeira, mas significa, diferentemente, que sem invenção não há verdade. A invenção - e não outra coisa - é condição da verdade.

Talvez possamos agora entender melhor um dos "porquês" do título memórias inventadas: porque se a invenção é a condição da verdade então não poderíamos ter memórias apenas descobertas e rememoradas, porque não poderiam ser memórias verdadeiras... E como poderíamos aceitar que a memória fique do lado da falsidade? Não há então como fugir da invenção se pretendemos manter-nos do lado da verdade. Mesmo tratando-se da memória que pensávamos estar acostumada a fazer outras coisas, ela deve  tornar-se inventora. A invenção torna-se assim condição epistemológica, estética e política do pensar. O poeta proclama, deste modo, o "dever" universal de inventar, com o prêmio inveterado das mais potentes verdades para as mais potentes invenções.

Transcreverei apenas um trecho de uma dessas memórias inventadas, como exercício de invenção, de pensar e de infantilizar, como forma de exercitarmo-nos nessa invenção de verdade infantil. Vou transcrever parte da memória XIV, uma das últimas, que tem por título, "Achadouros". Ela diz assim:

Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas. Há de ser como acontece com o amor. Assim, as pedrinhas do nosso quintal são sempre maiores do que as outras pedras do mundo. Justo pelo motivo da intimidade. [...] Mas eu estava a pensar em achadouros de infância. Se a gente cavar um buraco ao pé da goiabeira do quintal, lá estará um guri ensaiando subir na goiabeira. Se a gente cavar um buraco ao pé do galinheiro, lá estará um guri tentando agarrar no rabo de uma lagartixa. Sou hoje um caçador de achadouros de infância. Vou meio dementado e enxada às costas a cavar no meu quintal vestígios dos meninos que fomos. [...]

Vou me deter em duas invenções dessa memória infantil. A primeira está naquelas primeiras linhas onde se diz que, de grandes, "a gente descobre que o tamanho das coisas há que ser medido pela intimidade que temos com as coisas." Descobrimos (ou inventamos?) que a intimidade é a medida do tamanho das coisas. Assim, na falta de intimidade o mar pode ser muito pequeno, menorzinho, imperceptível. Mas também ele pode ser aquela imensidade infinita na intimidade do pescador, do achador de infâncias marítimas, do inventor de memórias marinhas. Tamanho também pode querer dizer força, potência, alegria. A intimidade indica, então, uma relação potente, alegre com os outros, com o mundo.

A segunda ideia está no título e repercute no meio do texto: "achadouros", lugares onde se acha ou encontra alguma coisa. O que ao poeta interessa especialmente achar são lugares onde se encontra a infância. De modo que a memória não apenas inventa, mas também encontra. Encontra o que inventa ou inventa o que encontra? Ou encontrar é um ato de invenção e só se pode encontrar o que se inventa? Teremos que dizer então "tudo o que não invento não posso encontrar? Talvez também isso signifique pensar: encontrar a invenção, inventar encontros. Algo da ordem do achado, do cruzamento, da encruzilhada, uma localização.

No texto do poeta convivem duas infâncias, uma da cronologia; a outra de um tempo intenso, contemporâneo, presente. As duas convivem. A primeira remete a nossa biografia primeira, às crianças; a outra não tem idade, diz respeito à potência de cada idade. Talvez outro pensador nos ajude a pensar essa infância.

3. Ainda novos ares para a infância: tempo e devir

A obra gaguejante de Biely, Kotik Letaiev, lançada num devir-criança que não é eu, mas cosmos, explosão de mundo: uma infância que não é a minha, que não é uma recordação, mas um bloco, um fragmento anônimo infinito, um devir sempre contemporâneo.
G. Deleuze, Crítica e clínica, 1997, p. 129.

G. Deleuze, filósofo francês contemporâneo, distingue também dois modos da temporalidade. De um lado, temos o devir e, do outro, a história (Deleuze, 1992, p. 210-1). A historia não é a experiência, mas o conjunto de condições de uma experiência e de um acontecimento que têm lugar fora da história. A história é a sucessão de efeitos de uma experiência ou acontecimento. De um lado, então, estão as condições e os efeitos; do outro lado, o acontecimento mesmo, a criação, o que Nietzsche chamava de intempestivo. De um lado, está o contínuo: a história, chrónos, as contradições e as maiorias; do outro lado, o descontínuo: o devir, aión, as linhas de fuga e as minorias. Uma experiência, um acontecimento, interrompem a história, a revolucionam, criam uma nova história, um novo início. Por isso o devir é sempre minoritário.

As maiorias não se definem pelo número ou pela quantidade, mas porque são um modelo ao qual há que se conformar. As minorias, ao contrário, são potências não numeráveis ou agrupáveis em conjuntos (Deleuze; Guattari, 1997b, p. 174); elas não têm modelo, estão sempre em processo. O dinamismo das minorias, o que libera o devir é um certo nomadismo (ser nômade é alcançar velocidade, movimento absoluto, pode-se ser nômade sem sair do lugar. Cf. Deleuze; Guattari, 1997b, p. 50-4), um certo fugir do controle, da pretensão unificadora, totalizadora; é uma força de resistência, um "exorcizar a vergonha" (Deleuze, 1992, 212). Por isso o devir, o acontecimento e a experiência são verbos em infinitivo e não conjugados ou substantivos. Por isso a infância ou a criança não são propriamente acontecimentos, mas o devir-criança, o infantilar o são [estamos criando este neologismo para evitar o "infantilizar" de sentido usualmente pejorativo. Sandra Corazza é mestre desta criação. Dela são meninar; devir crianceiro; crianceirar; devir-infantil e tantas outras (2003; 2004)].

Entre a geografia e a história, Deleuze privilegia a primeira. Assim, sua ontologia é cheia de planos, segmentos, linhas, mapas, territórios, movimentos (Deleuze; Guattari, 1997a, p. 83 ss.). Os seres humanos - como todas as formas da vida - atravessamos simultaneamente espaços cruzados, entrelaçados, opostos. De um lado, estão os espaços da macropolítica, o Estado, os segmentos molares, binários por si mesmos, concêntricos, ressonantes, exprimidos pela Árvore, princípio de dicotomia e eixo de concentricidade. De outro lado, os espaços da micropolítica, os segmentos moleculares, o rizoma, aonde as binaridades vêm de multiplicidades, e os círculos não são concêntricos.

Esses espaços são coextensivos, no campo social, e estão mutuamente imbricados, entrelaçados. Os dois espaços são reais: não há como habitar um deles sem, ao mesmo tempo, estar habitando também o outro. De modo que toda política é, a uma só vez, macro e micro. Na perspectiva de Deleuze, o que diferencia uma e outra política não é tanto uma questão de tamanho ou de escala, mas de massa, vibração e fluxo (Deleuze; Guattari, 1997a, p. 95). Enquanto os segmentos molares concentram, centralizam e totalizam, os fluxos moleculares vazam, escapam à captura, se conectam na diversidade, fogem da centralização e da totalização. Uma sociedade, uma instituição, um indivíduo são atravessados por linhas de um e de outro tipo.

Na macropolítica, o possível é o que antecipa o real e o real é o que atualiza o possível a partir de um projeto político, ou político-educacional. Nela, o possível é anterior do real e dá sentido a uma prática política. Por exemplo, Platão, desde sua macropolítica, pensava a infância como pura possibilidade e partir de sua utopia pedagógica buscava concretizar essa possibilidade espelhando-se nas formas puras de beleza, bem e justiça.

Na micropolítica, o possível é o resultado da política, seu produto. Uma política do acontecimento, revolucionária, não é aquela que atualiza um projeto possível mas a que provoca o possível, a experiência; ela cria novos possíveis, novas possibilidades de vida, uma vida nova, uma nova política (Zourabichvili, 2000). Uma micropolítica não parte da infância como possibilidade e não define uma educação que transforme a infância, atualizando suas já pensadas potencialidades. Uma micropolítica gera novas potências infantis, devir-criança, infantilar. O possível é criado pelo devir, pela experiência, pelo acontecimento, pelo infantilar.

4. Devir-criança, infância e infantilar

Não é a criança que se torna adulto, é o devir-criança que faz uma juventude universal.
G. Deleuze - F. Guattari, Mil Platôs, 1997a, p. 69.

As distinções entre história e devir, chrónos e aión, macro e micropolítica, podem nos ajudar a pensar a infância. Em certo sentido, há duas infâncias. Uma é a infância majoritária, a da continuidade cronológica, da história, das etapas do desenvolvimento, das maiorias e dos efeitos: é a infância que, pelo menos desde Platão, se educa conforme um modelo. Essa infância segue o tempo da progressão sequencial: seremos primeiro bebês, depois, crianças, adolescentes, jovens, adultos, velhos. Ela ocupa uma série de espaços molares: as políticas públicas, os estatutos, os parâmetros da educação infantil, as escolas, os conselhos tutelares.

Existe também uma outra infância, que habita outra temporalidade, outras linhas, a infância minoritária. Essa é a infância como experiência, como acontecimento, como ruptura da história, como revolução, como resistência e como criação. É a infância que interrompe a história, que se encontra num devir minoritário, numa linha de fuga, num detalhe; a infância que resiste aos movimentos concêntricos, arborizados, totalizantes: "a criança autista", "o aluno nota dez", "o menino violento". É a infância como intensidade, um situar-se intensivo no mundo; um sair sempre do "seu" lugar e se situar em outros lugares, desconhecidos, inusitados, inesperados.

Somos habitantes dos dois espaços, das duas temporalidades, das duas infâncias. Uma e outra infância não são excludentes. As linhas se tocam, se cruzam, se enredam, se confundem. Não nos anima a condenação de uma e a mistificação da outra. Não somos juízes. Não se trata de combater uma e idealizar a outra. Não se trata, por último, de dizer como há que se educar as crianças. A distinção não é normativa, mas ontológica e política. O que está em jogo não é o que deve ser (o tempo, a infância, a educação, a política), mas  o que pode ser (poder ser como potência, possibilidade real) o que é. Uma infância afirma a força do mesmo, do centro, do tudo; a outra, a diferença, o fora, o singular. Uma leva a consolidar, unificar e conservar; a outra a irromper, diversificar e revolucionar.

Talvez o conceito de "devir-criança", inventado por Deleuze e Guattari (cf., por exemplo, 1997a, p. 41 ss.), mereça ainda alguns esclarecimentos. Como acabamos de ver, o devir instaura outra temporalidade, que não a da história. Por isso mesmo, o devir não é imitar, assimilar-se, fazer como um modelo, voltar-se ou tornar-se outra coisa num tempo sucessivo. Devir-criança não é tornar-se uma criança,  infantilizar-se, nem sequer retroceder à própria infância cronológica. Devir é um encontro entre duas pessoas, acontecimentos, movimentos, ideias, entidades, multiplicidades, que provoca uma terceira coisa entre ambas, algo sem passado, presente ou futuro; algo sem temporalidade cronológica, mas com geografia, com intensidade e direção próprias (Deleuze; Parnet, 1988, p. 10-15). Um devir é algo "sempre contemporâneo", criação cosmológica: um mundo que explode e a explosão de mundo.

O devir-criança é o encontro entre um adulto e uma criança - o artigo indefinido não marca ausência de determinação, mas a singularidade de um encontro não particular nem universal - como expressão minoritária do ser humano, paralela a outros devires (devir-intenso, devir-animal, devir-imperceptível, Deleuze; Guattari, 1997a, p. 11 ss.) e em oposição ao modelo e à forma Homem dominante. O devir-criança é uma forma de encontro que marca uma linha de fuga a transitar, aberta, intensa.

Afirma Deleuze que as crianças obtêm suas forças do devir molecular que fazem passar entre as idades (Deleuze; Guattari, 1997a, p. 70) e que saber envelhecer não é manter-se jovem, mas extrair os fluxos que constituem a juventude de cada idade (ibid.). Devir-criança é, assim, uma força que extrai, da idade que se tem, do corpo que se é, os fluxos e as partículas que dão lugar a uma "involução criadora", a "núpcias antinatureza", a uma força que não se espera, que irrompe, sem ser convidada ou antecipada.

5. Considerações finais

Os conceitos filosóficos são também para aquele que os inventa ou os libera, modos de vida e modos de atividade.
Deleuze, As praias da imanência, 1985, p. 80.

O que todo este devaneio sobre a infância diz em respeito à educação ou, melhor, a um encontro entre filosofia e educação como o que motiva nossa presença neste lugar?

O discurso pedagógico está cheio de pessoas e ideias bem-intencionadas, que buscam formar as crianças para que elas adquiram as habilidades, capacidades e valores que as constituam em pessoas melhores e façam do mundo um lugar melhor para viver. As ideias sobre a infância aqui apresentadas, inspiradas em autores tão diversos quanto Manoel de Barros e G. Deleuze podem nos ajudar a encontrar um novo modo de pensar a educação, um novo início para a educação. Seria algo assim como uma infância da educação e não já apenas uma educação da infância.

Talvez possamos pensar de novo um outro lugar minoritário, molecular, para a infância, na espacialidade molar e concêntrica da escola; talvez queiramos promover outras potências de vida infantil, outros movimentos e linhas nesse território tão maltratado, descuidado e desconsiderado que é a escola. Nessa tentativa, estão envolvidas questões ontológicas e políticas.

As questões ontológicas dizem respeito à não percepção das forças que fazem com que sejamos o que somos e à ilusão - haverá que qualificá-la de iluminista, antropocêntrica ou moderna? - de que o Homem é o centro do mundo e, portanto, o artesão privilegiado e autoconsciente do homem. O mito de Frankenstein, o homem que fabrica o homem, ilustra a ilusão do Homem pseudoartífice de seu próprio destino e o mito da educação como fabricação (Meirieu, 1996, p. 15 ss.). As questões políticas derivam, em parte, das ontológicas e, a uma só vez, as alimentam: sob os efeitos da forma Homem, no mundo concêntrico da escola, nos ideais unificantes do bom pastor pedagógico, opera todo uma mutilação das forças que poderiam estar a serviço da criação de outros mundos.

Talvez possamos pensar a educação de outra forma. Quiçá consigamos deixar de nos preocupar tanto em transformar as crianças em algo distinto do que são, para pensar se acaso não seria interessante uma escola que possibilitasse às crianças, mas também aos adultos, professoras, professores, gestores, orientadores, diretores, enfim, a quem seja, encontrar esses devires minoritários que não aspiram a imitar nada, a modelar nada, mas a interromper o que está dado e propiciar novos inícios. Quem sabe possamos encontrar um novo início para outra ontologia e outra política da infância naquela que já não busca normatizar o tipo ideal ao qual uma criança deva se conformar, ou o tipo de sociedade que uma criança tem que construir, mas que busca promover, desencadear, estimular nas crianças, e também em nós mesmos, essas intensidades criadoras, disruptoras, revolucionárias, que só podem surgir da abertura do espaço, no encontro entre o novo e o velho, entre uma criança e um adulto.

Não se trata de nos infantilizarmos, de voltarmos à nossa tenra infância, de fazer memória e reescrever nossa biografia, mas de instaurar um espaço de encontro criador e transformador da inércia escolar repetidora do mesmo. Quem sabe, um tal encontro entre uma criança e uma professora, ou entre uma criança e outra criança, ou ainda entre uma professora e outra professora possam abrir a escola ao que ela ainda não é, permitam pensar naquilo que, a princípio, não se pode ou não se deve pensar na escola, e fazer dela espaço de experiências, acontecimentos inesperados e imprevisíveis, mundo do devir e não apenas da história, tempo de aión e não somente de chrónos.

Deleuze se perguntava insistentemente, com Spinoza, o que pode um corpo (por exemplo, Deleuze; Guattari, 1980, p. 312). Talvez nunca possamos sabê-lo e a pretensão de antecipá-lo contribua, infelizmente, para obstruir parte dessa potência. Algo dessa ordem podemos também perguntar a respeito da infância e sua educação: "o que pode uma criança?"  Não o sabemos. Quem sabe a pergunta não seja tão diferente da que se interroga o que pode um corpo. Não estamos certos. Mas nesse espaço que a insistência da pergunta abre - e que nenhuma resposta consegue fechar - talvez encontremos forças para desdobrar potências impensadas na infância. E um novo início para a educação.

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ZOURABICHVILI, F. Deleuze e o possível (sobre o involuntarismo na política). In: Alliez, É. (org.), Gilles Deleuze: uma vida filosófica, São Paulo, Editora 34, p. 333-355.

Publicado no livro KOHAN, Walter Omar (org.) Lugares da infância: filosofia. DP&A, 2004.

Partes deste trabalho, aqui modificadas, foram apresentadas no III Fórum do Ensino de Filosofia do Centro-oeste (Brasília, novembro de 2003) e no VI Encontro de Pesquisa em Educação da Região Sudeste (Rio de Janeiro, maio de 2004).