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Educação

Contextualização: um conceito em debate

Anderson Cezar Lobato

Especialista em Ensino de Ciências/Química pela Universidade Federal de Minas Gerais

A motivação desempenha um papel central na aprendizagem. (...) Um professor que consegue manter seus alunos motivados tem ganha metade da batalha
(Mamede-Neves, 1999)

É importante, no contexto educacional atual, a discussão do conceito de contextualização, que está presente nas falas de professores do Ensino Médio. Utilizando principalmente os Parâmetros Curriculares Nacionais e o conceito contido neles, percebemos que poucas vezes conseguimos, em nossas aulas, contextualizar os assuntos escolares, o que provoca o desenvolvimento de aulas em que não há uma dimensão mais ampla do conteúdo, em suas inserções sociais, culturais, políticas e econômicas.

A versão final dos Parâmetros Curriculares Nacionais está circulando nas escolas desde 1999. Antes disso, e mais especificamente após a publicação da Lei de Diretrizes e Bases (nº 9394/96), o debate sobre as novas diretrizes curriculares já vinha acontecendo. Mesmo assim, os professores ainda não têm uma visão global dessas novas diretrizes nem dos conceitos mais importantes presentes nos PCN. Percebe-se uma clara necessidade de discussão dessas diretrizes, de forma que os novos parâmetros estejam mais presentes na vida dos professores. Faz-se necessário, portanto, que os diversos setores da educação promovam esse debate, mas que o educador, como agente do processo educacional, seja efetivamente incluído nele.

Introdução

A educação atual permite vários pontos de discussão, inclusive o que é ensinado nas escolas de ensino fundamental e médio. Educadores e especialistas discutem a estagnação da educação, que com o passar dos anos sofreu poucas mudanças que possam ser consideradas significativas - tanto no que é ensinado quanto no como é ensinado. Nós, professores, muitas vezes ficamos presos ao que é ditado pelos livros didáticos ou pelos currículos rígidos, predeterminados e fechados que a maioria das escolas possui e acabamos por esquecer o papel que temos na sala de aula e na formação de nossos alunos.

Sabemos que o aluno estará motivado para os estudos somente quando o assunto trabalhado despertar o seu interesse. Assim, ele verá na aprendizagem a satisfação de sua necessidade de conhecimento. Um dos pontos de crítica à escola é o fato de o ensino tradicional não considerar interesses da vida do aluno. Esse divórcio escola-vida faz com que o aluno se desinteresse pelo que é ensinado em sala de aula.

A versão final dos Parâmetros Curriculares Nacionais (Brasil, 1998a) propõe a contextualização e a transversalidade como meios de motivar o aluno e dar significado ao que é ensinado em sala de aula. Um dos enfoques dos PCN é a cidadania. Faz parte das diretrizes curriculares a formação de um cidadão pleno, capaz de interferir no mundo em que vive, melhorando-o. Para interferir no seu mundo, torna-se necessário visualizar diferentes soluções para um mesmo problema, optando por aquela que for mais coerente. Para isso, não resta dúvida, é necessário que o "cidadão" formado pela escola tenha muito conhecimento, mas também que saiba usar este conhecimento. Então, segundo os PCN, a escola deve englobar questões sociais e problemas cotidianos do educando, para que os objetivos de educação sejam atingidos. Ou seja, a contextualização do conhecimento tornou-se um dos principais conceitos dos PCN.

Referencial teórico: os Parâmetros Curriculares Nacionais

Como o próprio nome diz, os Parâmetros Curriculares Nacionais não são regras impostas para dizer o que os professores devem ou não fazer. Muito menos podem ser chamados de proposta curricular ou programa curricular. São, isto sim, parâmetros que podem proporcionar subsídios para melhorar a educação, apontando e sugerindo possibilidades de trabalho, levando os profissionais da educação, professores e comunidade escolar a refletir sobre o porquê e para quê ensinar.

Os PCN são o resultado de estudos dos sistemas educacionais - municipais ou estaduais - e de dados de pesquisas realizadas nas escolas brasileiras sobre o desempenho dos alunos e as práticas pedagógicas dos professores. Para todos os educadores, é claro que a escola atual encontra-se em debates intensos sobre o que ensinar, por que ensinar e como ensinar. Os PCN trazem a importante ideia de que o papel da escola está além das informações, uma vez que os meios de comunicação atuais cumprem melhor essa tarefa.

Um ensino de qualidade que busca formar cidadãos capazes de interferir criticamente na realidade para transformá-la deve também contemplar o desenvolvimento de capacidades que possibilitem adaptações às complexas condições e alternativas de trabalho que temos hoje e a lidar com a rapidez na produção e na circulação de novos conhecimentos e informações, que têm sido avassaladores e crescentes. A formação escolar deve possibilitar aos alunos condições para desenvolver competências e consciência profissional, mas não se restringir ao ensino de habilidades imediatamente demandadas pelo mercado de trabalho (Brasil, 1996, p. 34).

A ideia de ensino que enfatiza a construção do conhecimento nos remete a refletir nossa prática em sala de aula e como estruturamos nossa aula. Para o Ensino Médio, os PCN (Brasil, 1998) têm como objetivo:

  • a formação da pessoa, de maneira a desenvolver valores e competências necessárias à integração de seu projeto individual ao projeto da sociedade em que se situa;
  • o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento de autonomia intelectual e do pensamento crítico;
  • a preparação e a orientação básicas para sua integração ao mundo do trabalho, com as competências que garantam seu aprimoramento profissional e permitam acompanhar as mudanças que caracterizam a produção de nosso tempo;
  • o desenvolvimento das competências para continuar aprendendo, de forma autônoma e crítica em níveis mais complexos de estudos.

Se um dos enfoques dos PCN é a cidadania, a escola deve englobar questões sociais e problemas cotidianos do educando para que os objetivos de educação previstos nos Parâmetros sejam atingidos. É possível que, ao trabalhar situações do dia-a-dia em sala de aula, buscando o conhecimento científico para explicá-las, o aluno seja mais capaz de relacionar o conhecimento químico com sua vida.

A contextualização

A educação, como processo de socialização integralizador dos indivíduos ao contexto social, tem sido abordada de diferentes formas na sociedade brasileira, variando com o tempo e o meio. Atualmente o ensino adquiriu uma tonalidade de que qualquer coisa a ser estudada deve ter relação com o mundo de vida do estudante. Ao formular atividades que não contemplam a realidade imediata dos alunos, formam-se então indivíduos treinados para repetir conceitos, aplicar fórmulas e armazenar termos, sem, no entanto, reconhecer possibilidades de associá-los a seu cotidiano. É importante o educando reconhecer as possibilidades de associação do conteúdo com contextos locais para que haja significado imediato daquilo que ele vê em sala de aula.

Ao selecionar os conteúdos da série em que irá trabalhar, o professor precisa analisar os textos, verificar como são abordados os assuntos para enriquecê-los com sua própria contribuição e a dos alunos, comparando o que se afirma com fatos, problemas, realidades da vivência real dos alunos (...)
(Libâneo, 1990)

A contextualização tem muito a ver com a motivação do aluno, por dar sentido àquilo que ele aprende, fazendo com que relacione o que está sendo ensinado com sua experiência cotidiana. Através da contextualização, o aluno faz uma ponte entre teoria e a prática, o que é previsto na LDB e nos Parâmetros Curriculares Nacionais (Brasil, 1998), que definem Ciência como uma elaboração humana para a compreensão do mundo. As escolas brasileiras seguem o mesmo ritmo há tempos. Possuem uma organização curricular por áreas, muitas vezes sem ligação de uma disciplina com outra, fazendo com que professores trabalhem sozinhos com seus alunos. Em relação à escola e ao processo ensino-aprendizagem, "as dificuldades vão desde problemas com a formação inicial e continuada à pouca disponibilidade de material didático-pedagógico; desde a estrutura verticalizada dos sistemas de ensino à incompreensão dos fundamentos da lei, das diretrizes e parâmetros" (Ricardo, 2003, v. 4, p. 8-11).

As mudanças na sociedade, bem como nas atitudes e pensamentos das pessoas, passaram a exigir auxílio imediato na reflexão e na resolução de problemas e situações do dia-a-dia. A condição em que a sociedade se encontra exige maior participação do educando no que se refere ao ensino-aprendizagem. Diante de problemas enfrentados pela escola, os Parâmetros Curriculares Nacionais, como forma de propiciar reflexão e discussão sobre o ensino atual, propõem a contextualização.

Contextualizar o conteúdo que se quer aprendido significa, em primeiro lugar, assumir que todo conhecimento envolve uma relação entre sujeito e objeto (...). O tratamento contextualizado do conhecimento é o recurso que a escola tem para retirar o aluno da condição de espectador passivo (Brasil, 1998).
A contextualização visa dar significado ao que se pretende ensinar para o aluno (...), auxilia na problematização dos saberes a ensinar, fazendo com que o aluno sinta a necessidade de adquirir um conhecimento que ainda não tem
(Ricardo, 2003, v. 4, p. 11).

Segundo essas citações, contextualização curricular é fundamental para motivar nossos alunos. Se, como educadores, conseguirmos trazer para sala de aula situações que permitem ao educando se identificar, conseguiremos maior interação em sala de aula, pois ele vê, assim, ligação com sua vida. A escola deve contribuir para a formação do aluno vendo-o como pessoa humana, crítico e reflexivo frente à realidade em que vive. Portanto, as várias estratégias de ensino devem permitir a significação da aprendizagem, e a contextualização mostra-se como uma boa possibilidade de dinamizar o ensino, envolvendo mais os alunos com o conhecimento científico, inserido no seu mundo de vida.

Alguns artigos da revista Química nova na Escola mostram interessantes trabalhos que podem ser feitos em sala de aula, nos quais o conhecimento químico é trabalhado de forma contextualizada. Como exemplo, podemos citar o artigo sobre o petróleo (Maria et al., 2002) como tema incentivador no estudo de outros tópicos da Química. Nesse artigo, os autores mostram um trabalho realizado com alunos do terceiro ano do Ensino Médio envolvendo experimentos em sala de aula, discussões sobre a origem, a importância e os usos do petróleo, além de os alunos terem assistido a fitas de vídeo sobre o assunto e terem tido contato com amostras de petróleo bruto fornecidas pelos professores. Os conceitos importantes de Química Orgânica foram usados para entender a questão do petróleo. Esse artigo mostrou que o petróleo pode ser trabalhado de forma contextualizada e transversal, abordando questões políticas e econômicas relativas a comercialização, preço do barril e disputas em torno desse líquido precioso.

Da mesma forma, as drogas no ensino de Química (Martins et al., 2003) são citadas como um bom tema para trabalhar tópicos do programa e questões da sociedade como: consumo, problemas psicológicos, estrutura familiar, tráfico etc. O tema água também é sugerido como um tema contextualizado, interdisciplinar e transversal nos artigos de Rejane Maria Ghisolfi da Silva (2003) e de Ana Luiza Quadros (2004), ambos relatando a importância do estudo químico da água, bem como a escassez, distribuição, poluição e fontes dessa substância. Também no artigo de Luiz Roberto Pitombo e Júlio Cezar Lisbôa (2001) há um trabalho que se mostra contextualizado e interdisciplinar sobre o envolvimento do conhecimento químico na vida humana, na sobrevivência da espécie, na extração de materiais, na busca de alimentos etc.

Citei exemplos da Química por ser minha área de atuação, porém é possível perceber que existem várias propostas concretas de contextualização também em outras áreas da ciência que podem servir de base para que os professores construam suas próprias propostas ou até mesmo as adaptem.

Algumas considerações

Ensinar é uma prática social, uma ação cultural, pois se concretiza na interação entre professores e alunos, refletindo a cultura e os contextos sociais a que pertence
(Freire, 1974).

Questões que envolvem contextualização muitas vezes passam despercebidas nos cursos de formação inicial, tendo algum tipo de ênfase somente em cursos de formação continuada na área de Educação. Não basta a um profissional da educação ter um bom conhecimento de seu trabalho se não souber fazê-lo. Para muitos educadores e escolas, mudar a prática pedagógica é um obstáculo a enfrentar, pois sair do habitual provoca certa insegurança. Muitas práticas pedagógicas se restringem ao livro didático: "o professor adota um livro e aí encontra tudo: teoria e exercícios devidamente calculados para lhe ocupar todo e somente o tempo de que dispõe" (Campos, 2005).

É dever do professor, sabendo da "deficiência" em sua formação inicial, manter-se atualizado, pois essa caminhada em busca de renovação de conhecimentos é cíclica e se processa durante toda a vida profissional.

Apesar de conceitos como contextualização, temas transversais e interdisciplinaridade estarem presentes na vida de cada professor, torná-los parte do contexto de sala de aula ainda é um desafio que tem que ser discutido tanto na formação inicial quanto na formação continuada.

Os PCN orientam e reforçam a necessidade de uma discussão permanente e atualizada, constituindo um certo "avanço" em termos de compreensão do processo de ensino, porque propõe a interdisciplinaridade e a ideia de construção dos conteúdos, passando a considerar a sala de aula um espaço social de aprendizagem que vai além da transmissão de saberes, dando ênfase à contextualização dos assuntos trabalhados e aos temas sociais. Sugiro, como educador em constante formação, que os documentos dos PCN sejam utilizados pelas escolas não na sua íntegra, como uso obrigatório ou como um manual de reformulação escolar, mas como uma forma de propiciar reflexão e discussão sobre o ensino atual, o que se dá de forma que o educador se atualize e seja capaz de encontrar resposta para questões de sala de aula envolvendo a educação como um todo.

Referências bibliográficas

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais. Apresentação - versão agosto/1996.

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: introdução aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1998.

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília: MEC/SEF, 1998.

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais, terceiro e quarto ciclos: apresentação dos temas transversais. Brasília: MEC/SEF, 1998.

CAMPOS, Maria Tereza Rangel Arruda. Materiais Didáticos e Formação do Professor. Consultoria da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. Disponível em:<http://www.tvebrasil.com.br/salto/boletins2001/em1/em1txt3.htm>. Acesso em 20 de março de 2008.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1974.

LIBÂNEO, J. C. Didática. Coleção Magistério: 2º Grau. São Paulo: Cortez, 1990.

LOBATO, A. C. Contextualização e transversalidade: conceitos em debate. Monografia de Especialização. Belo Horizonte: Faculdade de Educação da UFMG, 2005.

MAMEDE-NEVES, Maria Apparecida. Aprendendo Aprendizagem (em CD-ROM). Rio de Janeiro: PUC-Rio, 1999.

MARTINS, Andréa Barbosa et al. As drogas no ensino de Química. Química nova na escola, n. 18, p. 18-21, nov.2003.

PITOMBO, L. R. de M.; LISBOA, J. C. F. Sobrevivência humana - um caminho para o desenvolvimento do conteúdo Químico no Ensino Médio. Química nova na escola, n. 14, p. 31-35, nov.2001.

QUADROS, Ana Luiza de. A água como tema gerador do conhecimento químico. Química nova na escola, n. 20, p. 26-31, nov.2004.

RICARDO, E.C. Implementação dos PCN em sala de aula: dificuldades e possibilidades. Caderno Brasileiro de Ensino de Física. Florianópolis, v. 4, n. 1, 2003.

SILVA, Rejane Maria Ghisolfi da. Contextualizando aprendizagens em Química na formação escolar. Química nova na escola, n. 18, p. 26-30, nov.2003.

Publicado em 6 de maio de 2008