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O que é Ecopedagogia?

Karla Hansen

A Ecopedagogia é um conceito ainda em construção e é definido mais como um movimento do que como uma nova teoria de educação. No Brasil, o principal centro de estudo sobre a Ecopedagogia é o Instituto Paulo Freire, em cujo site existe uma série de documentos e artigos sobre o tema, entre eles "Pedagogia da Terra - ideias centrais para um debate", de Moacir Gadotti, professor titular da Universidade de São Paulo e diretor do IPF. O artigo foi apresentado no I Fórum Internacional sobre Ecopedagogia, realizado pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Porto, Portugal, em março de 2000.

Nele, o professor Gadotti aborda o contexto em que a ecopedagogia surge, particularmente no Fórum Global 92, evento paralelo à Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992, Rio-92, e seus princípios fundamentais.

"... a ecopedagogia não é uma pedagogia a mais, ao lado de outras pedagogias. Ela só tem sentido como projeto alternativo global onde a preocupação não está apenas na preservação da natureza (Ecologia Natural) ou no impacto das sociedades humanas sobre os ambientes naturais (Ecologia Social), mas num novo modelo de civilização sustentável do ponto de vista ecológico (Ecologia Integral) que implica uma mudança nas estruturas econômicas, sociais e culturais. Ela está ligada, portanto, a um projeto utópico: mudar as relações humanas, sociais e ambientais que temos hoje. Aqui está o sentido profundo da Ecopedagogia, ou de uma Pedagogia da Terra, como a chamamos." (in: Pedagogia da Terra - ideias para um debate", Moacir Gadotti, Portugal, 2000).

Desse modo, Gadotti não opõe ecopedagogia à educação ambiental, mas amplia o seu campo de reflexão e de ação. Ele explica que a ecopedagogia está mais para uma educação sustentável , para uma ecoeducação, que não se preocupa apenas com uma relação saudável com o meio ambiente, mas com o sentido mais profundo do que fazemos com nossa existência, a partir da vida cotidiana, e que este sentido está intimamente ligado ao futuro de toda Humanidade e da própria Terra.

Gadotti trabalha com conceitos como consciência planetária, cidadania planetária, defendendo uma verdadeira revolução pedagógica e curricular tendo como centro a formação de indivíduos que sejam cidadãos do mundo, no sentido de pertencerem não a uma nação ou a um grupo étnico, mas à Humanidade.

"Como posso sentir-me estrangeiro em qualquer território se pertenço a um único território, a Terra? Não há lugar estrangeiro para terráqueos, na Terra. Se sou cidadão do mundo, não podem existir para mim fronteiras. As diferenças culturais, geográficas, raciais e outras enfraquecem, diante do meu sentimento de pertencimento à Humanidade."

A ecopedagogia seria, assim, uma educação para a cidadania planetária, o que segundo o professor, implica uma reorientação de nossa visão de mundo, uma re-educação para vivermos numa comunidade que é local e global ao mesmo tempo.

Gadotti, fala, ainda sobre a necessidade de resgatarmos as utopias de libertação dos anos 60, afirmando que mais do que nunca precisamos lutar por um mundo mais justo e produtivo, num ambiente sustentável. Não é possível, como diz Leonardo Boff, citado no artigo, ter um mundo ecologicamente equilibrado sem justiça social, Boff fala em "justiça social com justiça ecológica". O artigo lembra, também, o sociólogo português Boaventura de Souza Santos, que mostra como saída para a Humanidade a "democracia eco-socialista". Para o sociólogo, "a única utopia possível é a utopia ecológica e democrática justamente porque chegamos ao limite entre um ecossistema finito e uma acumulação capitalista tendenciosamente infinita."

Diante de desafios tão grandes, Gadotti fala sobre o papel da educação sustentável ou ecológica nesse projeto utópico. Colocar em questão o modelo econômico capitalista, poluidor e consumista que está levando ao esgotamento dos recursos naturais.

"O desenvolvimento sustentável tem um componente educativo formidável: a preservação do meio ambiente depende de uma consciência ecológica e a formação da consciência depende da educação. É aqui que entra em cena a ecopedagogia. Ela é uma pedagogia para a promoção da aprendizagem do sentido das coisas a partir da vida cotidiana.

Como a ecologia, a ecopedagogia também pode ser entendida como um movimento social e político. E como todo movimento novo, em processo, em evolução, ele é complexo e, pode tomar diferentes direções, até contraditórias. Ela ainda está em formação e formulação como teoria da educação. Mas já tem se manifestado em diversas práticas educativas que fazem parte do "Movimento pela ecopedagogia", liderado pelo Instituto Paulo Freire.

Procurando orientar educadores, Gadotti lista algumas referências dessa pedagogia, reconhecendo que são ainda imprecisas e que bebem em diversas fontes, sendo uma delas Paulo Freire, considerado um dos inspiradores da ecopedagogia, com seu método de aprendizagem a partir do cotidiano. São princípios da ecopedagogia ou de uma Pedagogia da Terra, segundo Moacir Gadotti:

  1. O planeta como uma única comunidade.
  2. A Terra como mãe, organismo vivo e em evolução.
  3. Uma nova consciência que sabe o que é sustentável, apropriado, e faz sentido para a nossa existência.
  4. A ternura para com essa casa. Nosso endereço é a Terra.
  5. A justiça sóciocósmica: a Terra é um grande pobre, o maior de todos os pobres.
  6. Uma pedagogia biófila (que promove a vida): envolver-se, comunicar-se, compartilhar, problematizar, relacionar-se entusiasmar-se.
  7. Uma concepção do conhecimento que admite só ser integral quando compartilhado.
  8. O caminhar com sentido (vida cotidiana).
  9. Uma racionalidade intuitiva e comunicativa: afetiva, não instrumental.
  10. Novas atitudes: reeducar o olhar, o coração.
  11. Cultura da sustentabilidade: ecoformação. Ampliar nosso ponto de vista.

Leia o artigo "Pedagogia da Terra - ideias centrais para um debate" no site do Instituto Paulo Freire.

Publicado em 23/10/2006