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Augusto Rodrigues: um educador com arte

Mara Lúcia Martins

Detesto a escola repressiva... eu tinha também a minha vida fora da escola, e muito plena. A vida onde havia o devaneio, a exploração do rio, a natureza, os jogos onde a fantasia estava muito presente.
(Augusto Rodrigues)

Augusto Rodrigues nasceu em Recife/PE, em 1913. Pintor, desenhista, gravador, ilustrador, caricaturista e poeta, trabalhou no ateliê de Percy Lau e realizou sua primeira exposição individual em 1933, ainda em Recife. Dentre seus trabalhos os ligados ao desenho são os de maior repercussão nas artes, mas em qualquer de seus trabalhos existia lirismo, sensibilidade cromática, concisão formal e beleza do desenho.

Em 1935 mudou-se para o Rio de Janeiro onde começou a aparecer nos jornais como ilustrador e realizou uma das suas maiores obras: em 1948 ele fundou a Escolinha de Arte do Brasil (EAB), na Biblioteca Castro Alves. A escola tinha como característica a diferença das consideradas "normais" e era frequentada por crianças, as especiais principalmente, que podiam desenhar em grandes papéis, cantar, desafinar, colher flores no jardim e brincar, acima de tudo, e muito!

Essa noção moderna de escola foi baseada por Augusto Rodrigues na sua própria infância - quando criança não se deu muito bem nas escolas, não por não ser inteligente, mas porque desde muito cedo possuía alma de artista e percebia as coisas de modo divergente, não se adaptava às normas e ao excesso de regras das escolas convencionais. Ele dizia: "No fundo, eu me formei na rua, em contato com as pessoas, evidentemente passando por uma escola. A minha primeira escola foi uma experiência muito triste porque não só eu me via impossibilitado de me movimentar, de falar, de viver, como também olhava as outras crianças impedidas igualmente de se expressarem. A escola era sombria, era triste, a professora também era sombria, e eu sentia uma preocupação, uma tensão dessa professora de imprimir nas crianças coisas que não tinham nenhum sentido para elas. Nós teríamos que aprender o que interessava a ela ensinar e teríamos que abdicar aquilo que era fundamental para nós, que era brincar".

Vários prêmios e uma carreira muito bem sucedida

Em 1953 recebeu um prêmio por seus trabalhos apresentados no Salão Brasileiro de Arte Moderna e com o dinheiro pode viajar pelos países europeus durante o período de 1955 e 1956, quando teve contato com arte europeia de grande valia para a expansão da sua expressão. E em 1960, fundou e tornou-se o primeiro presidente da Associação dos Artistas Plásticos Contemporâneos (Arco).

Na década de 1980, escreveu seu primeiro livro "A Fé entre os Desencantos". Ainda nesta década recebeu vários prêmios bem significativos para sua carreira: Medalha Anchieta, da Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro (1982); Medalha do Mérito da Fundação Joaquim Nabuco de Pesquisa Social de Pernambuco (1982); Medalha Pernambucana do Mérito, Classe Ouro, do governo do Estado de Pernambuco (1986) e o título de Doutor Honoris Causa, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (1988).

Ainda na década de 1980 participou da fundação do Museu do Desenho e Gravura, de Itajaí (SC), doando seu acervo de gravuras e desenhos de artistas e estrangeiros. Em 1982, em Florianópolis (SC), participou da organização da Oficina de Desenho e Gravura do Museu de Florianópolis que recebeu o nome Atelier Livre de Gravura Augusto Rodrigues.

Na década de 1990, no pouco tempo em que esteve vivo - morreu em 1993 -, foi eleito Presidente de Honra do Colloque Homme, Santé, Tropique, da Universidade de Poitiers (1990); foi lançado em Recife (PE) o livro com sua biografia: Augusto Rodrigues: o Artista e a Arte, Poeticamente, de Rosza W. Vel. Zoladz, da Editora Civilização Brasileira, na Escolinha de Arte do Recife (1991); foi homenageado no 6º Congresso Nacional da Federação de Arte-Educação do Brasil (Confaeb), na Universidade Federal e na Universidade Católica de Pernambuco (1993); e a ele foi entregue a Medalha Comemorativa Augusto Rodrigues na Casa Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.

EAB fez a diferença na carreira do educador

Na criação da Sociedade Pestalozzi - uma escola para educação de crianças especiais - a contribuição de Augusto se deu quando se tornou professor de crianças e adultos. Principalmente com as crianças aprendeu que a atividade artística poderia ser motivo de estudo, registro e debates. Dona Helena, criadora da Sociedade, acreditava que a arte, como expressão livre e criadora, era o meio de educação por excelência, e que o artista tinha um papel fundamental na educação - maior do que os pedagogos e psicólogos. Por isso convidou Augusto Rodrigues para lecionar na escola.

Já uma das maiores criações de Augusto Rodrigues foi feita nos anos de 1970, juntamente com a gaúcha Lúcia Alencastro Valentim e a escultora norte-americana Margareth Spencer - a Escolinha de Arte do Brasil (EAB). A criação desta escola, fora do modelo oficial, há muito habitava os sonhos de Augusto. Logo cedo desejou fazer arte e, certa vez, conta ele que tentando vender uma assinatura de jornal ao psiquiatra Ulisses Pernambuco travou o seguinte diálogo: "Ele me perguntou se eu ia à escola, eu respondi que não (...) O que você gosta de fazer? Eu disse que gostava de fazer arte e ele respondeu: Muito bem, faça arte. Você tem que fazer aquilo que gosta para não ficar à margem da profissão".

A EAB, hoje espalhada por vários pontos do país, oferece à criança uma proposta diferente com a oportunidade para atividades de criação artística. Representa, no Brasil, alguma coisa que se poderia considerar óbvia, e que, entretanto, é, no gênero, talvez, o que mais significativo se faz entre nós no campo da educação infantil.

Ele mesmo definiu, como ninguém a EAB: "Na imensa aridez da paisagem das escolas nacionais, paisagem que lembra aspectos de nossos desertos, as escolinhas de arte são oásis de sombra e luz. Em que as crianças se encontram consigo mesmo e com a alegria de viver, tão 'deliberadamente' banida das 'escolas' convencionais de 'retalhos de informação', secos e duros como a vegetação habitual das zonas áridas. Mas não é somente a escolinha de arte uma inovação pedagógica. É também inovação do próprio conceito de arte, pois esta já não é a atividade especial das criaturas excepcionais, mas atividades inerentes ao senso humano da vida, que, felizmente, ainda se pode encontrar nas crianças que não foram completamente deformadas pelos condicionamentos inevitáveis da instrução morta e fragmentada das escolas convencionais. É essa a grande motivação das escolinhas de arte - dar às crianças oportunidade para a mais educativa das atividades, a atividade da criação artística".

Fica então muito bem circunscrita a contribuição de Augusto Rodrigues para a Arte/Educação brasileira - o seu conhecimento espalhou e estimulou em todo território nacional a necessidade de inclusão da Arte na educação escolar, chegando a confundir sua história com a EAB. Por isto e pela modernidade na educação ele merece o respeitado e admiração como grande Educador que foi.