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Educação

Anísio Teixeira: grande empreendedor da educação

Mara Lúcia Martins

A inovação para o progresso da educação

Só existirá democracia no Brasil, no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a escola pública.
(Manifesto dos Pioneiros, 1932)

Anísio Teixeira, ao lado de Paulo Freire, foi um dos grandes educadores nascidos no Brasil. Do nascimento à misteriosa morte, acontecida no poço de um elevador na Av. Rui Barbosa Rio de Janeiro (RJ) onde morava, dedicou sua vida ao Brasil e à Educação. Vindo do nordeste, de uma cidade pequena no interior da Bahia, mostrou ao mundo que a Educação era o maior bem de um povo e que por ela devemos lutar seja no modo de educar ou pelos empreendimentos para que esse modo seja aplicado com sucesso.

Filho de fazendeiro, Anísio Spínola Teixeira, nasceu em 12 de julho 1900, em Caetité, uma cidade rica em minério de Urânio no sudeste da Bahia. Começou os estudos lá mesmo, no colégio de jesuítas e mais tarde se transferiu para o Rio de Janeiro onde cursou a faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais. Estudou também na Universidade de Columbia (EUA) onde conviveu com o pedagogo John Dewey e conheceu as teses do pragmatismo norte-americano - corrente de ideias que prega que a validade de uma doutrina é determinada pelo seu bom êxito prático.

Nomeado, em 1931, secretário do Rio de Janeiro, criou um tipo de ensino chamado rede municipal de ensino completa que ia da escola primária à universidade. É de 1932, com o Manifesto do Pioneiros da Educação Nova, assinado por ele e vários intelectuais, a urgência em mostrar que na lista dos problemas nacionais, nenhum era maior em importância e gravidade ao da educação. 1935 foi importante para educação, pois com sua participação foram criadas a Universidade de Brasília e a Universidade de São Paulo, modelos de tipo de ensino superior do Brasil, instintos com a instalação do Estado Novo que teve início em 1937.

Passou nove anos como empresário, - alguns de seus opositores gostam de lembrá-lo assim -, porque foi perseguido durante o governo de Getúlio Vargas, o que o fez voltar a morar durante esse tempo em sua cidade natal, afastando-o da educação. Passada a época de crise, em 1946, assumiu o cargo de conselheiro da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), onde permaneceu até 1947 com o fim do Estado Novo, quando pode voltar ao Brasil para novamente assumir um cargo na Secretaria de Educação e Saúde de Caetité.

Foi um dos responsáveis pela fundação da Universidade de Brasília (UnB),  chegando, em 1961, a ser o reitor da Instituição. Sempre gostou dos métodos de Dracy Ribeiro a quem chamava de seu sucessor, e deixou nas suas mãos o projeto da UnB para voltar aos Estados Unidos e lecionar nas Universidades de Columbia e da Califórnia. Foi também Secretário-geral da Campanha de Aperfeiçoamento do Pessoal do Ensino Superior (Capes) e diretor do Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos (Inep), onde ficou até 1964. Dois anos mais tarde, voltou ao Brasil em definitivo e se tornou consultor da Fundação Getúlio Vargas até sua misteriosa morte.

Inovar para melhor educar

Anísio Teixeira aderiu rapidamente às ideias de democracia e de ciência, que apontavam a educação como o canal capaz de gerar as transformações necessárias para a realidade brasileira e sua modernização. Dizia ele: "Como a escola visa a formar o homem para o modo de vida democrático, toda ela deve procurar, desde o início, mostrar que o indivíduo, em si e por si, é somente necessidades e impotências; que só existe em função dos outros e por causa dos outros; que a sua ação é sempre uma trans-ação com as coisas e pessoas e que saber é um conjunto de conceitos e operações destinados a atender àquelas necessidades, pela manipulação acertada e adequada das coisas e pela cooperação com os outros no trabalho que, hoje é sempre de grupo, cada um dependendo de todos e todos dependendo de cada um".

Ele acreditava que as modificações da sociedade brasileira precisavam modificar o homem também e esse papel deveria ser da escola que daria a esse "novo homem" uma visão democrática da vida. "Fácil demonstrar como todos os pressupostos em que a escola se baseava foram alterados pela nova ordem de coisas e pelo novo espírito de nossa civilização", costumava se referir ao novo estado das coisas que deveria estar associado às transformações materiais,  mudança da escola e consequentemente do homem que dela participava.

Anísio teve como base para sua proposta de educação o escolanovismo ou Escola Nova, surgido em fins do século XIX, na Europa e no EUA. O movimento teve como base a oposição aos métodos tradicionais de ensino em prol do movimento educacional renovador. Na época, no Brasil, havia uma falha da capacidade de os intelectuais desenvolverem um programa ou um ideal próprio e John Dewey dá essa base referindo-se ao respeito às características individuais das pessoas fazendo-as, assim, ser parte integrante e participante da sociedade.

A ideia deweyana era de que o sujeito com liberdade daria maior contribuição ao coletivo e foi aplicada assim aqui no Brasil. E Anísio foi um de seus maiores seguidores. Para ele a escola deveria ser o agente da contínua transformação e reconstrução social, colaboradora da constante reflexão e revisão social frente à dinâmica e mobilidade de uma sociedade democrática: "o conceito social de educação significa que, cuide a escola de interesses vocacionais ou interesses especiais de qualquer sorte, ela não será educativa se não utilizar esses interesses como meios para a participação em todos os interesses da sociedade... Cultura ou utilitarismo serão ideais educativos quando constituírem processo para uma plena e generosa participação na vida social".

Sociedade mais justa

Para o educador o conhecimento das diferentes realidades escolares poderia dar início a uma sociedade mais justa e igualitária. E diante disso a figura do professor contribuiria de forma definitiva, pois formava o homem e permitiria sua relação com o mundo. Anísio foi responsável, em 1961, por uma grande inovação quando formou a "Escola Parque", em Salvador - escola-modelo onde as crianças, durante o dia todo, estudavam e aprendiam ofícios, faziam dança, desenho, pintura, escultura, teatro, cinema, esporte, música etc. Ele iniciou nesta escola o método de alfabetização de Iracema Meireles que ensina as crianças a ler por meio de suas próprias atividades lúdicas e criadoras.

Sem os homens públicos que façam a máquina andar não há como expandir os pensamentos modernos aos seus alvos (aqui de educador a educando). A diferença entre Anísio Teixeira e Paulo Freire é que o primeiro era progressista enquanto o segundo liberal, mas ambos lutaram para melhoria da educação. Anísio era um cientificista - pertencente à concepção filosófica de matriz positivista que afirma a superioridade da ciência sobre todas as outras formas de compreensão humana da realidade (religião, filosofia metafísica etc.), por ser a única capaz de apresentar benefícios práticos e alcançar autêntico rigor cognitivo.

Apesar de ser um profissional público que ajudava a gerar a máquina para mover a educação achava que jamais administração escolar poderia ser equiparada à administração de empresa. Em educação o alvo supremo é o educando, a que tudo mais está subordinado; na empresa, o alvo supremo é o produto material, a que tudo mais está subordinado.

Reforma do ensino de 1968 foi baseada na experiência da Universidade de Brasília (UnB), que apesar de uma invasão militar na época da ditadura conseguiu servir de exemplo para que outras universidades fossem moldadas. Previu ele, com esperança: "A universidade será assim um centro de saber, destinado a aumentar o conhecimento humano, um noviciado de cultura capaz de alargar a mente e amadurecer a imaginação dos jovens para a aventura do conhecimento, uma escola de formação de profissionais e o instrumento mais amplo e mais profundo de elaboração e transmissão da cultura comum brasileira. Estas são as ambições da universidade. Profundamente nacional, mas intimamente ligada, por esse amplo conceito de suas finalidades, às universidades de todo o mundo, à grande fraternidade internacional do conhecimento e do saber".

Por tudo isso Anísio Teixeira se transformou em bem mais do que o nome de um pavilhão da Unb e ganhou notoriedade de um lutador em defesa dos valores democráticos para a educação dos brasileiros independentemente de raça, condição financeira ou credo. Uma educação em escola pública da melhor qualidade para todos. E para a concretização desses valores foi importante que ocupasse os cargos que ocupou onde defendeu a escola pública, leiga, universal, gratuita e ótima para todas as crianças brasileiras. Anísio sonhou e no seu sonho viu uma escola eficiente para o povo brasileiro.

Para conhecer Anísio Teixeira e seu ideal em seus livros publicados:

  • TEIXEIRA, Anísio. Aspectos americanos de educação. Salvador: Tip. De São Francisco, 1928. 166p.
  • TEIXEIRA, Anísio. A educação e a crise brasileira. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1956. 355p.
  • TEIXEIRA, Anísio e ROCHA e SILVA, Maurício. Diálogo sobre a lógica do conhecimento. São Paulo: Edart Editora. 116p.
  • TEIXEIRA, Anísio. Educação e o mundo moderno. 2ªed. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1977. 245p.
  • TEIXEIRA, Anísio. Educação é um direito. 2ªed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1996. 221p.
  • TEIXEIRA, Anísio. Educação e universidade. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1998. 187p.
  • TEIXEIRA, Anísio. Educação no Brasil. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1969. 385p.
  • TEIXEIRA; Anísio. Educação não é privilégio. 5ª ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1994. 250p.
  • TEIXEIRA, Anísio. Educação para a democracia: introdução à administração educacional. 2ªed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997. 263p.
  • TEIXEIRA, Anísio. Educação progressiva: uma introdução à filosofia da educação. 2ªed. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1934. 210p.
  • TEIXEIRA, Anísio. Em marcha para a democracia: à margem dos Estados Unidos. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, s.d. [1934 ?]. 195p.
  • TEIXEIRA, Anísio. Ensino superior no Brasil: análise e interpretação de sua evolução até 1969. Rio de Janeiro: Editora da Fundação Getúlio Vargas, 1989. 186p.
  • TEIXEIRA, Anísio. Pequena introdução à filosofia da educação: a escola progressiva ou a transformação da escola. 5ªed. São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1968. 150p.