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Educação Pelo Trabalho de Célestin Freinet

Alberto Tornaghi

Introdução:

Célestin Freinet se diferencia da maioria dos outros importantes pensadores e teóricos da educação por ter sido ele mesmo um professor primário que atuou em sala de aula por quase toda a sua vida (Freinet 1975:17). Toda a sua proposta pedagógica deriva diretamente do trabalho desenvolvido com os alunos na busca de um processo que os levasse a gostar da escola e do trabalho, que os levasse a ser cidadãos conscientes e participantes críticos do meio social. Esta proposta que criou com seus pares é conhecida por muitos e significativos nomes ("Pedagogia Freinet", "Pedagogia do Trabalho", "Pedagogia do Bom Senso", "Método Natural" e "Pedagogia do Sucesso") e propõe uma prática pedagógica centrada na produção do estudante e na cooperação entre pares. Sampaio (1989) diz que "a Pedagogia Freinet surgiu para atender à necessidade vital da criança: chegar ao seu pleno desabrochar como um indivíduo autônomo, um ser social responsável, codetentor e coedificador de uma cultura.".

Em Celestin Freinet buscamos a ideia de que o aprendizado deve se dar a partir de ações que sejam necessárias, pela produção de bens que sejam úteis aos aprendizes. Estes tanto podem ser bens materiais - geradores elétricos para iluminar uma escola carente do interior - como bens culturais - poesias, desenhos, jornais e livros escritos e impressos pelos próprios alunos e que eram enviados às escolas das comunidades vizinhas.

Encontramos uma visão similar no trabalho de Makarenko, um educador soviético que teve importante contribuição para a definição da pedagogia dominante naquele país nos anos que se seguiram à revolução. Também o trabalho de Paulo Freire tem fortes relações tanto com as propostas de Freinet como com as de Makarenko. A ideia dos conceitos geradores como ponto de partida para um ensino libertador tem evidente ligação com os trabalhos desenvolvidos pelos dois educadores. Vide Capriles (1989) para uma descrição do trabalho e da importância de Makarenko para quase todos os educadores de nosso século.

Freinet é um pioneiro na proposição de uma prática pedagógica centrada na cooperação. Seu trabalho pressupõe a colaboração não só entre os estudantes como entre os educadores. Deriva de suas ações, ainda na década de 20, a primeira cooperativa de educadores de que se tem notícia que produzia um boletim, circulares, revista de textos infantis (La Gerbe - O Ramalhete), troca de documentos, organização de correspondências interescolares e encontros para intercâmbio entre educadores. Lançou assim o que chamou de movimento pedagógico cooperativo. Dizia que, desta forma, ele e seus companheiros tinham "rompido o círculo do individualismo estéril" (Freinet, 1975:21).

Esta proposta pedagógica se funda na junção da cooperação no trabalho coletivo com a valorização da produção individual. Assim, ao mesmo tempo em que permite que cada estudante produza no seu próprio ritmo, faz com que perceba que pertence a um conjunto maior e que sua produção tem valor para todo o grupo podendo ser melhorada e ampliada pela interferência dos colegas. Eis porque fomos buscar em Freinet as bases para a construção do MULEC.

E como a pedagogia Freinet consegue que, a um só tempo, as crianças tenham uma produção individual significativa, respeitando o ritmo de trabalho de cada uma delas e cooperem com os colegas na produção destes? Segundo Rosa Sampaio ela o faz desenvolvendo (Sampaio, 1989):

  • o senso de responsabilidade
  • o senso cooperativo
  • a sociabilidade
  • o julgamento pessoal
  • a reflexão individual e coletiva
  • a criatividade
  • a expressão
  • a comunicação
  • o saber fazer (know how)
  • os conhecimentos úteis
  • a capacidade de reduzir os pontos de desigualdades sócioculturais

Para garantir o desenvolvimento das capacidades acima foram propostas as "Técnicas Freinet" e enunciada uma série de princípios, as "Invariantes Pedagógicas", que dão suporte para o professor utilizar as técnicas.