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Escrever é melhor que digitar? Saiba o que pensam pesquisadores e pais (ou melhor, mães)

Tatiana Serra

Uma recente pesquisa realizada na Universidade de Stavang (Noruega) concluiu que escrever é melhor que digitar. Segundo os cientistas, a explicação é simples: escrever envolve muito mais sentidos do que digitar, e por isso facilitaria o aprendizado e a memorização do que é escrito.

O estudo foi feito com dois grupos de crianças. O primeiro escreveu o alfabeto a mão, enquanto o segundo digitou. No final do trabalho, ao perguntarem se eles lembravam o que haviam escrito, o primeiro grupo se saiu melhor. Segundo os pesquisadores, partes diferentes do cérebro são ativadas quando lemos as letras digitadas e quando reconhecemos as letras escritas a mão. ”Ao escrever, os movimentos envolvidos deixam uma memória na parte sensorial e motora do cérebro, que ajuda a reconhecer as letras e cria uma conexão entre leitura e escrita”, explica Anne Mangen, professora do Centro de Leitura da Universidade de Stavang.

Mãe tem sempre razão (?)

Sabemos que cabe aos pais e à escola incentivar todas as áreas do cérebro da criança, principalmente durante a alfabetização. Mas sabemos também que muitos dos adolescentes de hoje já tinham acesso ao computador desde antes da alfabetização e que isso certamente influenciou seu aprendizado desde então. Curiosos para saber como os pais dos hoje adolescentes encararam a chegada do computador e da internet no cotidiano das então crianças, conversamos com duas mães de adolescentes. São elas: Márcia Cristine Garcia, mãe de Martha Christine, de 15 anos; e Luciene Teixeira, mãe de Mariana, de 13 anos.

Para a contadora Márcia, “escrever realmente envolve muitos sentidos e facilita a memorização. Sempre disse isso para a Martha. Hoje em dia ela mesma já comprovou isso em sala de aula, ao escrever o que o professor fala”. A gerente Luciene reforça a importância da escrita, acreditando em algo além das palavras: “pela letra conhecemos a pessoa e como ela está naquele momento. Quando digitamos, quem lê não imagina como estamos. Prefiro a escrita; acho que antes de usar tanto a internet a Mariana memorizava muito mais as coisas”.

Jogos eletrônicos, vídeos, animações, sites... Esses recursos tecnológicos colaboraram para a educação dos filhos? “Sim”, diz Márcia. De que forma? “Percebo essa colaboração através de forte imaginação, proporcionando maior criatividade, capacidade de raciocínio rápido; o acesso a sites faz com que minha filha esteja sempre bem informada”, conclui ela. Luciene, apesar de considerar a internet uma maravilhosa ferramenta de pesquisa, ainda não conheceu nenhum jogo eletrônico que acrescente algo à educação e acha esse mundo todo muito virtual. “Acho melhor quando interagimos na realidade. Por exemplo, a escola da minha filha está organizando um passeio para uma fazenda, onde os alunos irão interagir com ‘personagens de época’ etc. Maravilhoso!!! Eu queria ser a Mariana... Talvez tivesse sido uma aluna melhor em História”, comenta ela.

O “bichinho” da web pegou você

Porém sabemos que os recursos tecnológicos vêm encantando cada vez mais a todos nós. Então, se não há como lutar contra a tecnologia, junte-se a ela!? Seria essa a melhor escolha? Por exemplo, desenhar e escrever a mão e, como complemento, participar de jogos educativos no computador; ler um bom livro e, ao mesmo tempo, ter na internet uma opção para assistir a vídeos e fazer pesquisas sobre o tema lido. Segundo Márcia, esses recursos podem ser bons aliados na educação de crianças e adolescentes, mas não devem ser a única ferramenta a ser utilizada. “É importante ter sempre mais momentos para a escrita a mão e para a leitura de um livro do que para o computador”, recomenda ela. Luciene também concorda que a tecnologia pode ser uma boa aliada na educação, “desde que o mundo virtual não torne a nossa vida virtual”.

É provável que as redes sociais sejam a grande mania dos adolescentes de hoje. Orkut, Facebook, Twitter... Esses recursos facilitam muita coisa na vida das pessoas dessa faixa etária, que adoram testar os limites impostos pelos pais. Associada a eles está uma liberdade difícil de controlar. Afinal, como saber se seu filho foi realmente estudar no quarto ou se foi acessar “mais um pouquinho” seus e-mails pelo notebook ou pelo celular? Como impor limites a essa adolescência?

Para a mãe da adolescente e internauta Martha, “primeiramente deve-se mostrar que o mais importante é cuidar de suas obrigações e que depois vem o lazer. Se através do diálogo não funcionar, deve-se impedir o acesso ao computador até o adolescente se conscientizar”. Já a mãe da adolescente e também internauta Mariana enfatiza que está muito difícil controlar o que acontece na internet, “inclusive o bullying acontece de maneira muito mais violenta na internet. Acho que devemos impor limites, sim. Mas é difícil, pois não ficamos com nossos filhos 24 horas por dia. Então é muito importante confiar e ensinar o que é certo desde que eles nascem”, admite ela, lembrando que, há algum tempo, chegou a proibir a filha de ter Orkut, Facebook e Twitter, mas ela acabou sendo discriminada pelos amigos por ser a única que não participava das redes sociais. Conclusão: “acabei me tornando para ela uma ‘inimiga’... Difícil educar nos dias de hoje”, conclui Luciene, que pouco depois abriu mão da proibição.

Mas o “bichinho” da web também pega os pais e testa seus próprios limites. Como eles têm lidado com o uso da internet? Como ser um exemplo para os filhos e, aí sim, exigir deles um limite? As duas mães entrevistadas dizem dar o exemplo na prática. Márcia usa a internet mais para trabalho do que para lazer. “Se eu te falar que tenho Facebook, MSN, Orkut... Tudo feito por ela? Mas se entro neles durante cinco minutos por dia é muito. E a maior parte dos recursos que esses programas oferecem nem sei utilizar”, afirma ela. Luciene, por sua vez, também usa a internet para trabalho e estudo, mas aproveita as possibilidades web para conversar com pessoas que moram longe.

Para bom internauta, um internetês basta

E quanto à linguagem criada nessas redes sociais para facilitar a comunicação entre os usuários? Muitos pais e educadores vêm se preocupando com o internetês (gírias, palavras abreviadas e/ou escritas de forma errada, como o “não”, que foi substituído pelo “naum”), muito usado pelos adolescentes. Isso porque, segundo eles, muitas vezes, esse hábito tem sido levado para as redações e prejudicado o desenvolvimento de textos. Mas o internetês atrapalha mesmo o desempenho dos alunos em sala de aula? O que fazer para que isso não aconteça? Ambas concordam que ele atrapalha e dão algumas sugestões. Para Márcia, “uma forma de o jovem não se contaminar com essa linguagem é praticar bastante a escrita e a leitura. A minha filha faz muito isso e, apesar de usar bastante esse tipo de linguagem na internet, isso não a prejudicou no colégio”. Luciene sugere que ninguém, seja nas escolas, nas universidades ou nas empresas, deve corrigir, ler ou aceitar nada com esses erros. E, então, mãe tem sempre razão ou naum?

Publicado em 14 de junho de 2011