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Comportamento

Como fazer gentileza gerar gentileza

Levar gentileza a alguém pode ser a principal e mais difícil “disciplina” em sala de aula e fora dela

Tatiana Serra

Em nossas atividades do dia a dia, por onde passamos nos deparamos com gentilezas e grosserias das pessoas, e essas mesmas pessoas também se deparam com as nossas. É claro que é mais fácil perceber as grosserias dos outros e as gentilezas de nós mesmos. Até porque, mesmo sabendo que também somos agentes de indelicadezas, é difícil compreender a grosseria alheia, concorda?

Quando entro num ônibus, cumprimento o motorista e o trocador, mas não recebo nem uma “balançada de cabeça” em troca, me pergunto: responder a um cumprimento não deveria ser praticamente automático para eles? Às vezes tento me convencer de que as pessoas podem não ter me escutado ou estão distraídas em seus pensamentos. Mas será que quase toda vez as mesmas pessoas estão distraídas ou não me escutam?

Bom, outro dia foi um desses em que ninguém me “ouviu” ao entrar no ônibus. Sentei num dos primeiros bancos e percebi que, ao meu lado, havia dois estudantes, com seus 16 anos de idade, ouvindo música (mais precisamente funk) pelo celular; o detalhe é que não usavam fone – aliás, quem costuma utilizar transporte público já deve ter percebido que isso virou moda. O ônibus estava cheio, muitas pessoas incomodadas comentavam a falta de educação enquanto outros faziam caras e bocas para os meninos. Eu queria muito seguir viagem ouvindo sozinha a rádio escolhida por mim e com fone, claro. Seria pedir demais? Achei que não. Então resolvi pedir aos meninos, da maneira mais discreta possível, que colocassem seus fones no ouvido ou desligassem o som; afinal, eles não deveriam impor aos outros a sua música ou qualquer outro barulho. Surpreendentemente, fui ouvida e atendida por eles com toda a educação. Feliz, agradeci pela atenção deles, enquanto algumas pessoas riam ou aproveitavam para reclamar um pouco mais.

Aquele parecia ser o Dia Mundial do Teste de Paciência. No meio do percurso, entra no ônibus (após o motorista fazer o favor de parar fora do ponto) uma mulher de seus 45 anos, esbaforida e muito, muito irritada, exigindo explicações do por que ele demorou para abrir a porta. Isso, então, acabou com o resto de paciência do motorista, que, mesmo estando no início do dia e do seu turno de trabalho, já amanheceu sem querer saber de dar “bom dia” a ninguém. Ele, então, parou o carro, xingou a mulher e voltou para o volante. Ela, não satisfeita, foi reclamando por quase todo o caminho, dizendo que era professora, que exigia respeito, que ela era mais importante para a sociedade do que um “simples” motorista de ônibus... E, infelizmente, eu só saltaria no ponto final. Vale lembrar que todo o discurso dela era cheio de erros de português. Enquanto ela derramava seus lamentos numa discussão que já havia começado de maneira totalmente errada, eu me perguntava: do que essa mulher está reclamando, afinal? Se ela é realmente uma educadora, como será sua postura em sala de aula? Lá pelo final do trajeto, a “professora” se acalmou e resolveu se calar. E eu, que já estava até gostando dos meninos sem fone, começava a compreender essa nova moda de invadir os ouvidos dos outros em ambiente público.

Um dia como esse mostra que a convivência entre as pessoas deve mesmo ser trabalhada diariamente e que precisamos nos observar mais, pois somos vítimas e agentes de grosserias o tempo todo. Numa hora um jovem estudante pode ser inconveniente e, em seguida, se redimir e aprender a lição; em outro momento, um professor pode ultrapassar todos os limites de educação em apenas uma atitude. Ninguém está livre disso, mas cabe a cada um de nós tentar ser gentil e compreensivo, pelo menos para que o bom convívio seja possível. Mas e quando a educação não vem de casa e os pais encaminham seus filhos apostando nela como a maior responsável por isso?

Na opinião do professor Jairo Brasil, mestre em Educação, licenciado e pós-graduado em Estudos Sociais, a escola possui a responsabilidade de mostrar ao aluno de que forma ele está envolvido na sociedade, como saber se posicionar com relação às suas responsabilidades enquanto cidadão etc. Entretanto, ele acredita que “os valores relativos à ética e à moral devem ser desenvolvidos no seio da família, ainda na infância. “Compete à escola relembrar esses valores e consolidá-los no indivíduo, exemplificando-os e reforçando sua importância. Por isso tudo, a família desenvolve um papel imprescindível na formação do futuro cidadão”.

Durante a formação do indivíduo, são muitos os pontos a serem trabalhados dentro e fora de casa e pode-se dizer que a gentileza é um deles. Mas como os educadores devem trabalhar "as boas maneiras", a gentileza e outros detalhes que colaboram para o convívio entre eles e seus alunos e entre os próprios alunos? Imagine se as escolas incluíssem no currículo a disciplina Boas maneiras, não no sentido de ensinar esnoberrimamente etiqueta aos alunos – expressão utilizada por Tom Zé em sua música Curso intensivo de boas maneiras, ao falar sobre elegância e etiqueta –; mas sim no sentido de levar a gentileza e o saber conviver até eles. Afinal, que educador nunca quis parar a matéria que estava sendo dada e fazer das boas maneiras a principal disciplina a ser desenvolvida em sala de aula, num momento de emergência?

Para Jairo Brasil, o bom exemplo deve preponderar entre os educadores, sensibilizando os alunos para atitudes de gentileza. “Sabemos que muitas vezes o cotidiano docente contribui para uma realidade de atitudes agressivas e reativas. Questões salariais, exigências de jornadas duplas de trabalho e a necessidade de aperfeiçoamento constante são fatores que colocam em cheque o comportamento de nossos mestres. Mas, acima de qualquer coisa, quem tem no sangue o fazer docente não se deixa influenciar por essas dificuldades, pois até mesmo em outras profissões se observam dificuldades similares”.

Pode-se mesmo dizer que a responsabilidade pela criação de um ambiente propício ao desenvolvimento de atitudes gentis é do professor.

Ele afirma que “o que ocorre em sala de aula com relação ao desrespeito e à falta de gentileza é um comportamento que quase sempre tem origem em conflitos familiares, em ações agressivas no relacionamento interpessoal do aluno e nas ações pedagógicas com traços demasiadamente hostis e enérgicos. Pode-se mesmo dizer que a responsabilidade pela criação de um ambiente propício ao desenvolvimento de atitudes gentis é do professor. É ele que desde o primeiro dia dá o tom de como quer que esse bom relacionamento se dê. Logicamente, para isso se deve ter um bom plano de aula, domínio pleno do currículo e conhecimento adequado do conteúdo programático. Sem organização e planejamento das aulas, não há como conseguir aplicação dos alunos; e o ambiente se torna inóspito para a atuação docente”.

Naquele dia, após o episódio do ônibus, fiquei pensando muito na palavra “gentileza”, em seu significado e em tudo o que ela me fazia lembrar. Logo o profeta Gentileza me veio à mente e o fundo musical desses pensamentos não poderia ser outro que não Gentileza, de Marisa Monte, que trouxe um pouco da história do profeta aos ouvidos de quem não lembrava ou nunca havia ouvido falar nele.

Há quem diga que Gentileza não passava de um maluco, mas suas “profecias” são lembradas até hoje por muita gente. José Datrino (1917-1996), o Gentileza, dedicou seus últimos 35 anos de vida a andar pelo Brasil – especialmente pelas ruas do Rio de Janeiro – falando sobre amor, ética e valores. “Gentileza gera gentileza” é sua frase mais conhecida; durante muito tempo era encontrada pelos muros da cidade, entre muitas outras. Como todo profeta, ele anunciava boas novas e acreditava na gentileza como uma maneira de enxergar o mundo.

Do artigo Espírito de Gentileza, do teólogo Leonardo Boff, destacamos o trecho em que fala da importância de Gentileza: “sua mensagem é de extrema urgência no Rio dos dias atuais. Não bastam os patronos que temos, São Sebastião e São Jorge. Eles ainda usam símbolos de violência, a flecha no corpo e a lança contra o dragão. Precisamos de um símbolo puro como o Profeta Gentileza”. Em outro artigo, Profeta Gentileza, Leonardo cita: “em lugar de ‘muito obrigado’, devemos dizer ‘agradecido’, e ao invés de ‘por favor’ devemos usar ‘por gentileza’, porque ninguém é obrigado a nada e devemos ser gentis uns para com os outros e relacionarmo-nos por amor e não por favor. Não é exatamente disso que o Rio de Janeiro está precisando?”.

Se víssemos Gentileza andando pelas ruas, poderíamos até considerá-lo de aparência estranha, mas acredito que bastaria ficar atentos a algumas de suas palavras para perceber algo de muito coerente em meio à sua loucura.

Louco por louco, prefiro o profeta Gentileza à professora do ônibus.

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Publicado em 19 de outubro de 2010