Biblioteca
Ciências Sociais

O que são e o que não são competências em Sociologia no Ensino Médio

Romero Maia

Sociólogo da Prefeitura da Cidade do Recife, membro da Associação Universitária Internacional (AUI)

A mais bela felicidade do homem que pensa é ter explorado o explorável e venerar calmamente o inexplorável.

J. Goethe

Pensar as competências sociológicas que devem ser aprendidas pelos cidadãos que cursam o Ensino Médio significa simplesmente debruçar-se atentamente sobre as orientações curriculares para as Ciências Humanas e suas tecnologias editadas pelo MEC em 2006 e relacioná-las a práticas pedagógicas desenvolvidas com os alunos em ambiente de aula.

Tais práticas devem ter como objetivo principal criar um estado de espírito propício ao esforço coletivo de construção de uma cultura de aprendizado baseada na cooperação. Devem sensibilizar os educandos para a natureza eminentemente social do processo de desenvolvimento do conhecimento, em especial, mas não exclusivamente, aquele abalizado pelo método científico. Um processo sempre coletivo, permeado por trocas, testes e refutações ininterruptas e do qual se pode fazer parte à medida que se adquirem competências específicas.

As competências esperadas pelo MEC, apesar de mobilizarem inevitavelmente saberes diversificados, não podem ser desenvolvidas de maneira genérica, indiscriminadamente para todas as disciplinas do currículo escolar básico. São as questões básicas, preferencialmente as encontradas no cotidiano, mas por detrás do senso comum, e em destaque no debate atual de cada área, que devem orientar a formatação das competências. Em vista disso, temos que ter clareza sobre três pontos básicos: as particularidades da Sociologia, o papel do Ensino Médio e as características metodológicas que diferenciam as Ciências Humanas e suas tecnologias.

O discurso científico, hoje, goza de enorme consenso, pois em seu processo de consolidação (do século XVI ao XIX) passou a oferecer critérios cada vez mais objetivos de validade e confiabilidade para explicações ou interpretações dos fenômenos perceptíveis à consciência e sentidos humanos. A Sociologia aparece como uma das mais recentes invenções desse processo. A primeira cátedra de Sociologia, na França, foi inaugurada apenas no séc. XIX. O que a fez necessária foi o consenso sobre a existência uma nova série de fenômenos que não podiam ser abarcados satisfatoriamente pelos procedimentos adotados nos ramos científicos já estruturados. Fenômenos que, para Émile Durkheim, poderiam ser conceituados como "fatos sociais" para distinguir mais claramente o objeto da nova ciência. E, se há um conceito novo, deve existir uma nova definição: são "coisas" (o que já exclui todo o domínio da metafísica) que emergem exclusivamente da condição social e só podem ser explicados por ela; independentemente da vontade individual, são gerais para uma dada sociedade e exercem sobre cada um dos societários uma força coercitiva padronizadora. A demarcação clara do objeto é o primeiro passo para conceber uma ciência.

Isso não quer dizer que um mesmo fenômeno só possa ser avaliado por uma única ciência. Concordar com tal assertiva seria ignorar o novo paradigma interdisciplinar vigente em todos os campos do saber. Contudo, é a partir da correta compreensão da definição do conceito de "fato social" que o educando deve adquirir a competência fundamental da Sociologia: ser capaz de lançar mão da perspectiva sociológica sobre os fenômenos que lhe interessarem e, então, tomar consciência deles de uma maneira mais refletida e ponderada - e talvez mais estimulante intelectualmente.

O educando que compreende a particularidade da Sociologia é capaz de mobilizar saberes autonomamente e levantar boas hipóteses sobre as causas e correlações entre inúmeros fenômenos à sua volta, desde a constituição da família até a formação dos grupos de lazer, passando pelo comportamento econômico e religioso.

Nesse ponto é preciso observar que falamos de competências sociológicas para o Ensino Médio; portanto, orientadas para cidadãos que possuem inclinações intelectuais as mais variadas e, muitas vezes, que não possuem algum interesse especial em Sociologia. O desafio da escola é que, mesmo para esses estudantes, as competências sociológicas precisam fazer sentido, devem despertar ao menos o primeiro rudimento de uma reflexão pessoal estimulante.

É imprescindível que qualquer ciência das humanidades, e especificamente a Sociologia, passe por um processo de adequação às diretrizes basilares do Ensino Médio. O debate em sala orientado pelo professor, com insinuações fundamentadas em seu conhecimento das teorias e sobre o que existe para além do senso comum, é a pedra-de-toque da ideia de contextualização, um dos seis princípios que guiam os Parâmetros Curriculares Nacionais. Assim, cabe uma crítica ao exagero de trabalhar as teorias sociológicas clássicas como figuram nas orientações do MEC. É possível e necessário construir competências sociológicas no Ensino Médio sem precisar propor um resumo do que é visto no nível superior.

Por outro lado, as teorias sociológicas clássicas e seus respectivos autores não precisam ser negligenciados. O que importa é a forma como tais saberes serão mediados pelo educador a fim de ensejar o aprendizado de competências úteis. Não faz sentido para o educando relacionar nomes fortuitos de autores consagrados na academia em meio a tantos outros nomes das demais disciplinas, com esquemas explicativos de teorias resumidas. O educando, no Ensino Médio, precisa apenas compreender como é possível que fenômenos do cotidiano, do seu interesse, podem ser explicados através de alguns esforços científicos dedicados à Sociologia. Com isso, fica evidente que é necessário que ele entenda como se dá o processo de elaboração de conceitos teóricos e sua utilidade de síntese cognitiva.

O MEC acerta orientando um enfoque conceitual e temático, mas peca quando sugere até mesmo incursões históricas para entender as grandes correntes teóricas da Sociologia. Termina por transpor todo o referencial didático de nível superior, que nada tem a ver com a identidade, mais volúvel e atrelada a um currículo extenso e compulsório, do grupo pré-universitário. Não é sem motivo que os PCN assinalam a flexibilidade como mais um dos princípios sem os quais não se pode conceber este nível da educação básica.

Tal limite não cabe somente à Sociologia respeitar. Todas as disciplinas precisam construir sua identidade se fundamentando em competências, e não como um fim em si mesmas. Fazer Sociologia pela Sociologia e aprofundamentos teórico-epistemológicos tem lugar num outro nível adiante do Ensino Médio. O que deve unificar a formatação de competências aqui é a metodologia científica, isto é, o debate sobre os problemas, requisitos e procedimentos mais relevantes para encontrar verdades possíveis no método científico (seja ele analítico ou experimental). O educando deve aprender, com as aulas, a mobilizar saberes em tempo e com rigor, o que significa nada mais que ser competente para viver em nossa época. Assumir critérios rigorosos para resolução de um problema e contar com planejamento de tempo para execução das diversas fases do encadeamento de decisões é a vivência mais básica proporcionada pelo procedimento científico.

Vale ressaltar que, assim como variam os fenômenos, variam os procedimentos de pesquisa. Então as Ciências Humanas possuem tecnologias diferenciadas daquelas mais tradicionais utilizadas pelas Ciências da Natureza. Esse fato é extremamente importante de ser trabalhado no Ensino Médio como prova de que o princípio da diversidade é essencial para entender todas as dinâmicas humanas. Apesar de existirem inúmeros pontos de convergência, não apenas entre as ciências (o que facilita a interdisciplinaridade) mas também entre as pessoas, os grupos, as instituições etc. (o que possibilita a pretensão de relações relativamente estáveis ou padrões), a diversidade é reafirmada pela própria pluralidade de fenômenos passíveis de serem investigados cientificamente.

Um método é um caminho ordenado para concretizar uma expectativa de conhecimento. Equivale a qualquer tentativa deliberada da inteligência humana de se desvincular da dependência do acaso ou sorte para compreender fenômenos. Mas isso não significa que todos os métodos preencham os pré-requisitos mínimos da sistemática científica. O aluno deve tornar-se competente para avaliar qual método é o mais adequado para solucionar um determinado problema de conhecimento. Isso implica reconhecer que podemos discernir fenômenos para os quais as ciências não possuem instrumental adequado. São os limites da ciência que exigem, daquele que conhece ou persegue o conhecimento, mais humildade que arrogância. Uma postura de maturidade e ponderação consoante a epígrafe deste texto. Por consequência, torna-se possível uma visão holística da realidade, e o aluno é estimulado a perceber a complexidade metodológica que envolve a busca de respostas para questões como a existência de um Deus ou de entidades sobrenaturais, questões essas a que a ciência, até hoje, não fornece respostas confiáveis e válidas. A competência central é interpretar os métodos (ou a ausência deles) que sustentam os discursos sobre os fenômenos sociais.

O que há em comum entre os diversos métodos denominados científicos é que eles exigem etapas mínimas para a invenção, descoberta ou teste de teorias. Essas etapas devem poder ser repetidas por quaisquer outros estudiosos e seus resultados também precisam ser passíveis de confirmação. Espera-se que sua efetividade não esteja atrelada à particular capacidade intelectual daquele que manuseia o método, mas à própria objetividade deste. Ou seja, o método científico é um caminho para o conhecimento, e compete ao conhecedor apenas compreendê-lo bem. Ser competente na utilização do método cientifico significa, portanto, ser competente para conhecer e avaliar as informações que derivam de seu uso. Sua confiabilidade é dada menos pelo coeficiente de inteligência de seus autores do que pelo consenso vigente na comunidade de estudiosos da área quanto ao correto proceder dos autores. A esta característica dá-se o nome de objetividade.

A ciência atual está longe daquela imagem do gênio louco que realiza invenções fantásticas. Trata-se de um trabalho eminentemente coletivo, feito por grupos de pesquisa, com o auxílio de orientadores, e avaliado por bancas de leitura e arguição de resultados. Por isso, o desenvolvimento de competências relacionadas ao método científico envolve necessariamente aprendizagem sobre como trabalhar em equipe de maneira exitosa.

Como as diversas equipes trabalham espalhadas nos cinco continentes, é imperativo o estabelecimento consensual de uma plataforma mínima para o método. Atualmente é: elaboração de um problema de pesquisa (pergunta para a qual não se conhece resposta ou que possui resposta parcial); atribuição de pelo menos uma resposta preliminar ou hipótese; coleta e análise de dados (quantitativos e/ou qualitativos); verificação da hipótese (confirmação ou negação).

Até aqui tratamos de como e por que o método científico, em sentido amplo, deve ser posto em evidência nas aulas de todas as disciplinas no Ensino Médio. Agora vamos expor algumas peculiaridades do método nas Ciências Humanas, que podem encontrar maiores dificuldades epistemológicas para garantir o pré-requisito da objetividade científica na coleta de dados. Dependendo do problema de pesquisa, os dados podem estar vinculados a fontes parciais ou que não possibilitam uma repetição da coleta para fins de comprovação. Outros dados podem não ser suscetíveis de medição, e alguns conceitos podem ser complexos a ponto de não receber um delineamento claro de suas características. É o caso do conceito de aprendizagem, por exemplo. Como ainda não há tecnologia para isolar e observar o que seria a parte do cérebro responsável pelas mudanças conscientes de atitude, investiga-se a aprendizagem a partir de evidências empíricas. Para isso, costuma-se trabalhar com indicadores que se limitam a apontar tendências e a permitir comparações. Mas pode-se dizer que o homem, mesmo sendo o animal que mais depende da aprendizagem para sobreviver, ainda não sabe bem, do ponto de vista científico, como ela se processa.

Para lidar com esses fenômenos sociais complexos, as Ciências Humanas combinam múltiplos métodos, aumentando o nível de complexidade do trabalho. Nesse sentido, vemos que sua grande contribuição ao tradicional modus operandi científico foi a inclusão do paradigma interpretativo. Todo esse esforço de combinação de métodos nada mais é do que uma busca rigorosa por objetividade no difícil campo da interpretação, da busca do sentido, elemento inerente aos fenômenos sociais e que transcende o simples registro de observações.

O educando deve concluir o curso médio de Sociologia ciente da complexidade de investigar fenômenos sob a perspectiva sociológica e competente para questionar a pertinência metodológica de informações alhures. Também deve ter competência para elaborar hipóteses passíveis de serem investigadas objetivamente sobre as relações sociais de maneira geral. O ensino dos métodos das Ciências Humanas e suas tecnologias a partir de temas do cotidiano é o eixo que concilia harmonicamente as particularidades da Sociologia com o papel do Ensino Médio, pois estabelece inevitáveis relações com todas as competências específicas das demais disciplinas e habilita o concluinte aos estudos superiores. Como proposta, segue uma lista de competências a serem desenvolvidas em Sociologia no Ensino Médio:

  • Classificar as Ciências Sociais e analisar metodologicamente os conhecimentos produzidos para avaliar e articular com mais idoneidade qualquer conjuntura de novas informações sobre a sociedade.
  • Desenvolver no educando a capacidade crítica e sua autonomia intelectual para que interfira deliberadamente nos processos sociais que desejar.
  • Descrever e valorizar os direitos humanos e a cidadania para dar prosseguimento a uma sociedade sustentável.
  • Contextualizar modos de produção e debater as transformações ocorridas no mundo do trabalho para que o aluno entenda, entre outras coisas, a atual crise do emprego e a diversidade de profissões.
  • Distinguir o que é alienação e ideologia para lançar luz sobre os processos de construção social da realidade.
  • Investigar e ser capaz de deduzir alguns dos riscos existentes na relação entre as atividades produtivas e o meio ambiente para tornar possível um prognóstico sobre as consequências das atividades ecologicamente insustentáveis.
  • Identificar as diversas formas de estratificação social para entender os mecanismos que determinam a convivência de grupos com condições de vida tão díspares.
  • Analisar a diversidade social e étnica dos grupos sociais para evidenciar o caráter essencialmente multicultural da sociedade hodierna e a consequência disso para a harmonia entre os povos.
  • Examinar o conceito de indústria cultural e a influência dos veículos da cultura de massa para perceber por que as notícias divulgadas são renovadas num período de tempo cada vez mais curto, e suas implicações na construção das opiniões e gostos pessoais.
  • Avaliar o impacto das transformações sociais e tecnológicas no cotidiano para absorver uma compreensão sistêmica das mudanças operadas na sociedade.
  • Identificar o papel do Estado e das formas de expressão das lutas sociais para avaliar os pilares de poder da ordem social vigente.
  • Discernir os diversos tipos de movimentos sociais para que o aluno entenda por que existem os movimentos, seus papéis políticos e como participar deles.

Bibliografia

BRASIL. Ministério da Educação. Parâmetros curriculares nacionais para o Ensino Médio: bases legais. Brasília, 2000.

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Básica. Orientações curriculares para o Ensino Médio: Ciências Humanas e suas tecnologias. Brasília, 2006.

MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. Lisboa: Dom Quixote, 1978.

PERRENOUD, Philippe. Construir as competências desde a escola.  Porto Alegre: Artmed, 1999.

Publicado em 1º de setembro de 2009.