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Células-tronco:
A medicina do futuro |
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Antonio Carlos Campos de Carvalho
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho,
Universidade Federal do Rio de Janeiro |
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| A luta contra as doenças cardíacas |
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Reconhecendo o enorme
potencial das células-tronco na prática médica, o Laboratório de Cardiologia
Celular e Molecular, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), iniciou
no ano passado um projeto de pesquisa que objetiva transplantar células-tronco
para corações submetidos a infarto experimental.
O infarto do miocárdio
é hoje uma das principais causas de mortalidade no mundo. Quando não mata de
imediato, o infarto em geral provoca uma lesão que resulta em insuficiência
cardíaca a capacidade de bombeamento do coração fica reduzida, impedindo o paciente
de exercer atividades que requerem maior esforço. Quanto maior a área de
músculo cardíaco lesada durante o infarto, maior o grau de insuficiência.
Infelizmente, a insuficiência cardíaca é progressiva, de modo que o quadro
clínico dos pacientes só piora: 22% dos homens e 46% das mulheres que sofrem
infartos evoluem para insuficiência cardíaca congestiva em um prazo de seis
anos. Essa doença é grave e sua incidência vem crescendo, tanto que, nos
Estados Unidos, a taxa de mortalidade por insuficiência cardíaca aumentou 138%
entre 1979 e 1998. É óbvia,
portanto, a necessidade de uma terapia ainda inexistente que possa dar
aos pacientes maior expectativa de vida após o infarto.
Curiosamente, embora
haja células-tronco em vários tecidos diferenciados, elas ainda não foram
encontradas no coração adulto. No entanto, a já citada pluripotencialidade das
células-tronco hematopoiéticas e neurais permite imaginar que tais células, se
cultivadas em ambiente adequado, poderiam originar células cardíacas. Isso foi
confirmado em fins de 1999, quando surgiu (no Journal of Clinical Investigation) o primeiro e até agora único
relato da diferenciação de células-tronco hematopoiéticas em células do
músculo cardíaco em cultura, feito por Shinji Makino e colaboradores, na
Universidade de Keio, no Japão.
Vários laboratórios,
inclusive o da UFRJ, tentam desde então, sem sucesso, reproduzir os resultados
da equipe de Makino. O sistema hematopoiético, porém, não é a única fonte de
células-tronco para os transplantes cardíacos. Os músculos esqueléticos contêm
células-tronco (as células-satélite), que podem se diferenciar facilmente em
células desses músculos (e restaurar áreas lesadas), embora não exista relato
da transformação de células-satélite em células do músculo cardíaco.
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Figura 6: Células-satélite retiradas de músculos
da perna de ratos e injetadas na corrente sangüínea de ratos submetidos a infarto
migraram para o coração lesado e foram localizadas por microscopia de fluorescência. |
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No Laboratório de
Cardiologia Celular e Molecular, e em muitos outros no mundo, é possível isolar
e cultivar essas células por longo tempo. No momento, na UFRJ, cultivamos as
células-satélite de ratos sob diferentes condições, tentando induzi-las a se diferenciar
em células musculares cardíacas. Uma abordagem que parece mais promissora é a
cultura conjunta das células-satélite com células isoladas de corações
neonatais dos mesmos ratos.
Há pouco, foi iniciada
outra abordagem, empregando o modelo de coração infartado desenvolvido pelo
grupo da bióloga Masako Oya Masuda, no Instituto de Biofísica da UFRJ, e o
transplante direto para a região infartada do coração de células-tronco de
medula óssea (hematopoiéticas) ou células-satélite, marcadas geneticamente para
posterior identificação. No ambiente cardíaco, é possível que as células-tronco
de medula ou de músculo esquelético recebam os sinais necessários para sua
transformação em miócitos cardíacos.
Vários laboratórios no mundo vêm tentando essa abordagem. O primeiro relato de
sucesso artigo publicado a 5 de abril de 2001 na revista Nature
descreve, pela primeira vez, a diferenciação de células-tronco medulares em músculos
cardíacos, em camundongos infartados (ver 'Células-tronco regeneram coração infartado',
em Ciência Hoje nº 171) é bastante animador, e permite prever
para breve o uso terapêutico dessa técnica. Testes clínicos já vêm sendo feitos:
recentemente, um grupo do Centro Cardiológico do Norte, em Saint Denis (França),
do qual participa um pesquisador brasileiro, o cardiologista Marcio Scorsin, relatou
melhora significativa de um paciente com insuficiência cardíaca em estágio avançado,
após o transplante de células-satélite do próprio paciente para o seu coração.
O Laboratório de
Cardiologia Celular e Molecular, da UFRJ, desde que conte com os recursos
necessários para financiar esses projetos, certamente poderá, em um futuro
próximo, oferecer a pacientes brasileiros mais esse recurso da medicina
moderna, que cada vez mais depende dos avanços da ciência biomédica. E outros
laboratórios nacionais que trabalham com células-tronco também têm condições,
se tiverem o apoio adequado, de garantir ao país o domínio dessa tecnologia, de
grande importância para a saúde dos brasileiros. |
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