Os problemas éticos relacionados com o diagnóstico pré-natal
e interrupção de gravidez de fetos portadores de genes deletérios também têm
sido amplamente discutidos. No caso de doenças letais (na primeira ou segunda
décadas) ou as incompatíveis com uma vida independente (como aquelas que causam
um retardo mental profundo), a decisão para um casal em risco de interromper
uma gestação é mais fácil. Por outro lado, para aquelas de início tardio ou
prognóstico indefinido, como a CH ou a DMS, o questionamento é enorme. Alguns
indivíduos alegam que não querem transmitir esse gene para a sua descendência,
mas será que não existirá uma cura definitiva nas próximas décadas? Ou, podemos
garantir que um filho nosso terá uma vida saudável por muitas décadas?
É fundamental salientar que vários centros do mundo que
realizam diagnóstico pré-natal mostraram que a legislação a favor da
interrupção da gestação no caso de fetos certamente portadores de genes
deletérios tem reduzido significativamente o número de abortos em famílias com
risco genético. Isso porque muitos casais decididos a interromper uma gravidez
no caso de um feto "em risco" deixaram de abortar quando o diagnóstico
pré-natal de certeza comprovou um feto normal para aquela doença. De fato, no
nosso laboratório, onde já foram realizados mais de 100 exames de diagnóstico
pré-natal em casais em risco (para diferentes formas de distrofias musculares,
atrofia espinhal e fibrose cística), somente cerca de 10% foram diagnosticados
como afetados. Portanto, o diagnóstico pré-natal de certeza e a possibilidade
do aborto terapêutico têm salvado inúmeras vidas normais. Por isso a
importância fundamental de discussões éticas em torno da legalização da
interrupção da gestação no caso de doenças graves ou incuráveis, pois as nossas
leis certamente não têm acompanhado os avanços das pesquisas. |