Genes de Risco para Doenças com
Possível Tratamento: o Exemplo dos Genes BRCA1 e BRCA2 de Suscetibilidade para
Câncer de Mama Hereditário
Mulheres portadoras de mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 têm
um risco de cerca de 80% de desenvolver câncer de mama e um risco aumentado
para câncer de ovário (Ponder, 1997). A identificação desses genes levou vários
laboratórios a oferecer testes de DNA (a custos altíssimos) à população
feminina, supostamente para identificar as pessoas portadoras de mutações
nesses genes e poder oferecer um tratamento preventivo àquelas com resultados
positivos. Para as mulheres com história familiar de câncer de mama a detecção
precoce pode ser muito importante para o tratamento preventivo. Entretanto, a
questão ética é se esses testes devem ser feitos na população feminina em geral.
Isso porque o risco global (life time risk) que uma mulher, sem história
familiar, tem de desenvolver um câncer de mama ao longo da vida é da ordem de
10%, enquanto o câncer hereditário constitui apenas 1-2% dos casos. Assim, é
dez vezes mais provável que, se uma mulher vier a desenvolver um câncer de
mama, ele não esteja relacionado a mutações nos genes BRCA1 e BRCA2. A questão
ética é: será que uma mulher cujo teste não revelou mutações nos genes BRCA1 e
BRCA2 sabe disso ou vai ficar tranqüila achando que está livre do risco de ter
câncer de mama? Além disso, como existem centenas de mutações patológicas ao
longo desses genes (e é ainda inviável testar todas elas), os laboratórios
testam apenas as mais comuns, o que levanta outra questão: sabemos exatamente o
que está sendo testado? |