Testes moleculares em doenças
dominantes de início tardio. Doenças ainda sem tratamento: o exemplo dos genes
dinâmicos
Em doenças como a Coreia
de Huntington (CH) ou a Distrofia
Miotônica de Steinert (DMS), os portadores, além de manifestar a patologia,
têm um risco de 50% de vir a transmitir o gene defeituoso para a sua
descendência. Na CH [causada por uma expansão do número de repetições (CAG)n
no gene huntingtina (Kremer et alii, 1994)] o quadro clínico geralmente tem
início após a quarta ou quinta década, e leva a uma demência progressiva e
irreversível.
Na DMS [causada por uma expansão de repetições (CTG)n
no gene da proteína-quinase da distrofia miotônica (Brook et alii, 1992)] a
situação é um pouco diferente, pois o quadro clínico é muito variável.
Indivíduos portadores do gene podem ter como único sinal clínico uma calvície
precoce ou catarata em idade avançada, enquanto no outro extremo existem
aqueles que apresentam um quadro grave, com início na infância, manifestado
por: retardo mental, desenvolvimento, fraqueza e degeneração muscular e
esterilidade no sexo masculino. A forma clássica, a mais comum, tem início em
geral na idade adulta.
As questões éticas que se colocam são: quais seriam os prós
e os contras de se testar crianças assintomáticas, descendentes de afetados, e
saber de antemão se elas são portadoras do gene da CH e DMS? Os defensores do
teste pré-sintomático argumentam que saber precocemente seria importante na
escolha da futura profissão. Por exemplo, poderiam ser evitadas aquelas que
requerem habilidade manual, pois é a primeira a ser comprometida no caso da
DMS. Por outro lado, vale a pena angustiar-se antecipadamente e saber que se
tem uma doença para a qual não existe cura? A pesquisadora Nancy Wexler, cuja
mãe morreu de CH pergunta: você quer saber quando e como vai morrer?
Após inúmeras discussões éticas internacionais a respeito, o
consenso foi não realizar testes
pré-sintomáticos em crianças, com risco para doenças genéticas de manifestação
tardia, para as quais ainda não há tratamento. O argumento mais forte é que
ao testar crianças assintomáticas estaremos negando-lhes o direito de decidir,
quando adultas, se querem ou não ser testadas. A nossa experiência pessoal
mostra que essa conduta talvez seja a mais adequada, pois recentemente vários
jovens adultos "em risco" foram informados de que já existia um teste
de DNA para confirmar se eram ou não portadores do gene. Nenhum deles, no
entanto, quis se submeter ao teste, o que mostrou que "viver na
incerteza" talvez seja mais tolerável do que o risco de "ter
certeza". |