A influência genética em doenças psiquiátricas, tais como a
doença do humor (ou psicose maníaco-depressiva), a esquizofrenia ou o
alcoolismo, já é amplamente aceita (Alper e Natowicz, 1993; Mallet et alii,
1994). Em uma genealogia extensa da Holanda (Brunner et alii, 1993)
identificaram, em indivíduos com comportamento agressivo e anti-social, uma
mutação recessiva em um gene do cromossomo X (e que portanto só afeta
indivíduos do sexo masculino). Essa mutação causa a deficiência de uma enzima,
a momoamina oxidase A ou MAOA (responsável pelo metabolismo da dopamina,
serotonina e noradrenalina). Felizmente, essa deficiência parece ser rara.
Entretanto, outros estudos realizados em gêmeos (LaBuda et alii, 1993) sugerem
que a delinqüência juvenil possa ter pouca influência genética, mas a
delinqüência que persiste na idade adulta teria um componente genético
importante.
Nos últimos anos, inúmeros pesquisadores vêm tentando
identificar genes de suscetibilidade para doenças psiquiátricas ou distúrbios
de comportamento. Descobriu-se, por exemplo, um polimorfismo ligado ao gene
transportador da serotonina que causa uma recaptação diminuída dessa substância
na fenda sináptica (Heil et alii, 1996). Trabalhos recentes confirmados na
nossa população mostraram que pacientes com doença de Alzheimer (Oliveira et
alii, 1998) e distúrbios psiquiátricos (depressão maior, distimia e doença
bipolar) diferem quanto a esse polimorfismo em comparação com controles
normais. Em um estudo muito interessante realizado na Noruega verificou-se que,
entre os alcoólatras, aqueles que se tornam agressivos sob o efeito do álcool
também diferem dos não-agressivos em relação a esse polimorfismo.
Trabalhos recentes em modelos animais têm mostrado que
poderiam existir genes que levam ao alcoolismo ou à dependência de drogas, pois
enquanto alguns se tornam dependentes outros têm aversão às mesmas substâncias
(Crabbe et alii, 1994; Palmour et alii, 1997). O mesmo comportamento já havia
sido observado em humanos, uma vez que um estudo realizado em um grupo de voluntários
verificou que a injeção de heroína, em teste cego, provocava uma reação de
prazer em alguns e de aversão em outros.
Outros trabalhos muito polêmicos sugerem que o
homossexualismo masculino (Hu et alii, 1995), o "bom-humor" e o
otimismo também teriam influências genéticas. Segundo os autores, os genes do
"bom humor", por exemplo, atuariam no metabolismo das dopaminas ou
serotoninas (Hamer, 1996). Enquanto os marcadores genéticos responsáveis pelo
comportamento humano continuam sendo pesquisados, a questão central é o seu uso
para identificar traços de personalidade desejáveis ou não. E novamente as
perguntas: Os indivíduos com predisposição genética para o alcoolismo ou para a
dependência de drogas podem ser julgados culpados? O que são características
indesejáveis? Agressividade? Preguiça? Homossexualismo? Mau humor? Os
indivíduos portadores de genes "de distúrbios de comportamento" serão
mais tolerados ou discriminados? Por outro lado, se soubermos que o mau humor
tem uma explicação biológica teremos maior compreensão com as pessoas birrentas
e constantemente mal-humoradas? |