Biblioteca
Biologia

Marsupiais na Mata Atlântica

Ana Cláudia Delciellos, Diogo Loretto e Vanina Zini Antunes

Laboratório de Vertebrados da UFRJ

Os marsupiais que vivem na Mata Atlântica, como o gambá, as cuícas e as catitas, diferem entre si na aparência, no tamanho e no uso das diferentes ‘camadas’ da mata (chão, sub-bosque e copas). Observações informais do comportamento de algumas espécies, feitas em pesquisas de campo, levaram a descobertas sobre a ecologia dessas espécies, contribuindo para o desenvolvimento de futuros estudos e para a preservação da mata atlântica.

No Brasil, ao perguntarmos a alguém o que sabe sobre marsupiais, a resposta normalmente está relacionada aos cangurus, e, portanto, à Austrália. Poucas pessoas sabem que em nosso país existem mais de 40 espécies desse grupo, distribuídas nos diferentes biomas terrestres nacionais. Somente na Mata Atlântica podem ser encontradas 23 espécies de marsupiais, em função da complexa e heterogênea estrutura desse bioma, que apresenta grande diversidade de micro-hábitats, ou seja, áreas com características físicas e biológicas particulares.

As espécies de marsupiais são importantes na dinâmica das comunidades da Mata Atlântica. Alguns desses animais, como o gambá (Didelphis aurita), a cuíca-lanosa (Caluromys philander) e a cuíca (Micoureus travassosi), são eficientes dispersores de sementes. Outros, entre eles o gambá, podem atuar como controladores das populações de roedores silvestres.

 Mas o que é um marsupial? A principal característica que diferencia esse grupo dos mamíferos placentários (como o homem) é a gestação, que dura apenas alguns dias porque uma placenta verdadeira não é formada. Os filhotes nascem em um estágio precoce de formação e completam seu desenvolvimento em uma bolsa (denominada ‘marsúpio’) ou em pregas de pele que a fêmea tem no ventre (figura 1). Existem diferenças também em aspectos fisiológicos, morfológicos, ecológicos e evolutivos.

Figura 1
Figura 1. Filhotes de gambá (Didelphis aurita) com cerca de 30 dias, sendo amamentados no marsúpio
Figura 2
Figura 2. Armadilha utilizada no trabalho de captura-marcação-recaptura, contendo um gambá (Didelphis aurita)
Figura 3
Figura 3. A cuíca-marrom (Metachirus nudicaudatus) é a única espécie com características especializadas para a locomoção no solo

Estudos comportamentais feitos no campo são em geral demorados, porque dependem da localização e do acompanhamento do animal durante suas atividades, sem que o observador interfira em sua rotina. As dificuldades aumentam se a espécie estudada é pequena, noturna e vive nas árvores, como a maioria dos marsupiais. A técnica de captura-marcação-recaptura, usada com pequenos mamíferos, mostrou-se uma alternativa para observações comportamentais de marsupiais. Ela consiste em capturar os animais com armadilhas no chão e na copa das árvores (figura 2), marcá-los com brincos de identificação e soltá-los. Essa técnica é empregada pela equipe do Laboratório de Vertebrados da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que monitora desde 1996 as populações de sete espécies de marsupiais em uma área do Parque Nacional da Serra dos Órgãos, no município de Guapimirim (RJ).

O momento da manipulação mostrou-se oportuno para observações quanto à docilidade ou agressividade, vocalizações e características corporais particulares de cada espécie. O momento da soltura permitiu observações informais (ou seja, sem metodologia específica) sobre alguns aspectos da locomoção desses animais, como uso de suportes, realização de saltos nas copas e outros.

Para animais que vivem nas árvores (ou seja, de hábito arborícola), como muitas espécies de marsupiais, a vegetação da Mata Atlântica apresenta caminhos descontínuos, formados por suportes frágeis e instáveis, através dos quais eles se locomovem em busca de alimento, abrigo e parceiros para reprodução e para fugir de predadores. O presente trabalho teve como objetivo observar, de modo informal, o comportamento de sete espécies da Mata Atlântica do Parque Nacional da Serra dos Órgãos. A seguir são descritas algumas relações entre essas espécies e as camadas (estratos) da vegetação.

No solo

O solo da Mata Atlântica, com restos de vegetação acumulados junto às plantas rasteiras, raízes e plântulas (indivíduos jovens de árvores), está longe de ser um espaço livre onde os pequenos mamíferos possam locomover-se facilmente. Mas a cuíca-marrom (Metachirus nudicaudatus) (figura 3), ao ser solta, desloca-se velozmente pelo chão, de maneira única entre os marsupiais brasileiros: aos saltos, semelhante a um canguru. O animal é capaz de saltar a até 1 m do chão, e estudos mostram que isso é possível devido a adaptações morfológicas, entre elas os membros traseiros alongados. Também consegue escalar árvores porque, como a maioria dos marsupiais brasileiros, o dedo polegar (nas quatro patas) é oposto aos demais, como acontece na mão do homem, permitindo segurar objetos com firmeza.

A cuíca-marrom pesa entre 300 e 450 g e se caracteriza pela coloração do pelo, pelo cheiro adocicado que os machos exalam durante a estação reprodutiva e pelo som que emite batendo os dentes quando manipulada ou acuada. Além disso, constrói seus ninhos e abrigos no chão, com folhas mortas entrelaçadas, formando um casulo, geralmente em terreno inclinado e apoiado em troncos caídos ou pedras.

 Duas outras espécies também são encontradas com frequência no solo: o gambá (figura 4) e a cuíca-cinza-de-quatro-olhos (Philander frenatus) (figura 5). O primeiro, o marsupial mais conhecido dos brasileiros, também ocorre em áreas urbanas e é uma caça apreciada nas áreas rurais, devido à sua carne saborosa. Muitos o confundem com uma grande ratazana ou com o cangambá dos desenhos animados (aquele com a faixa branca nas costas, um mamífero placentário).

O gambá tem pelagem longa, que varia do preto ao grisalho. Seu mau cheiro e o comportamento de ‘fingir-se de morto’ (tanatose) podem funcionar como eficiente defesa contra predadores, já que parecem indicar que ele seria impróprio para consumo. A tanatose facilita o trabalho dos pesquisadores com essa espécie, protegendo-os de mordidas. Seu peso, em torno de 1,5 kg, impede que use todos os estratos da mata. Considerado semiterrestre, o gambá foge andando ou correndo pelo solo, muitas vezes mostrando-se indiferente à presença do pesquisador. Quando jovens, porém, esses animais escalam cipós e outros suportes para fugir para a parte superior da mata. Seus ninhos são feitos, em geral, em buracos no solo, em emaranhados de cipós nas copas das árvores e em ocos de troncos.

A cuíca-cinza-de-quatro-olhos pesa entre 300 e 500 g e tem pelagem cinza e curta, com duas manchas acima dos olhos (o que motivou seu nome popular). De hábito semiterrestre, às vezes é encontrada no sub-bosque. Quando soltos, os indivíduos, em sua maioria, saem correndo imediatamente em grande velocidade, sempre pelo chão da mata. Na área estudada, os caminhos percorridos por essa cuíca estão associados a riachos com muitas rochas, e seus ninhos são encontrados em buracos formados por vãos entre pedras. Entretanto, estudos em laboratório sobre a locomoção da espécie (veja boxe Hábitat simulado) demonstraram sua grande habilidade arborícola potencial, que lhe permitiria o uso do estrato arbóreo com maior frequência que o observado em campo. É uma cuíca agressiva, com grande flexibilidade corporal, como as espécies arborícolas.

No sub-bosque

O sub-bosque é o estrato da mata entre o solo e as copas das árvores (dossel). Na área estudada, é constituído por árvores de até 9 m de altura, palmeiras, cipós e trepadeiras. A estrutura densa e por vezes frágil dessa vegetação, constituída de suportes finos, restringe a locomoção dos marsupiais de maior tamanho, como o gambá. Assim, as espécies menores são as que mais utilizam o sub-bosque, como a catita Marmosops incanus (figura 6) e a cuíca Micoureus travassosi (figura 7), com pesos em torno de 65 g e 150 g, respectivamente.

A primeira caracteriza-se pela coloração acinzentada no dorso e amarelada no ventre (durante a estação reprodutiva). Sua cauda é uma das mais preênseis (com capacidade para agarrar-se aos suportes) entre os marsupiais. Uma das espécies mais ágeis, M. incanus realiza saltos entre os ramos terminais finos. Entretanto, outro estudo do Laboratório de Vertebrados sobre a locomoção dessa espécie revelou que ela não é exclusiva do sub-bosque: nunca atinge os estratos mais altos da floresta e realiza a maioria dos seus deslocamentos no chão. A maioria dos ninhos e tocas também é encontrada em altura inferior a 2 m.

A cuíca M. travassosi tem pelagem cinza até a base da cauda e grandes garras que a ajudam a agarrar suportes. Embora seja considerada uma espécie de sub-bosque, usa ocasionalmente os outros estratos da mata (figura 8). Ágil, realiza pequenos saltos entre ramos das árvores, como a catita M. incanus. Seus locais de abrigo são pouco conhecidos, mas emaranhados de cipós, bases de folhas e ocos de palmeiras são geralmente apontados como os preferidos.

Figura 4
Figura 4. Entre os marsupiais da região neotropical, o gambá (Didelphis aurita) é o mais conhecido dos brasileiros
Figura 5
Figura 5. A cuíca-cinza-de-quatro-olhos (Philander frenatus) revelou-se a espécie mais agressiva entre as sete observadas no Parque Nacional da Serra dos Órgãos
Figura 6
Figura 6. A catita Marmosops incanus é bastante ágil na estrutura frágil do sub-bosque da Mata Atlântica

Hábitat simulado

 O comportamento locomotor dos marsupiais pode ser estudado em laboratório por meio de testes de desempenho. Coordenados pelo ecólogo Marcus Vinícius Vieira, esses testes, desenvolvidos no Laboratório de Vertebrados, procuram representar as características (solo, troncos, cipós e outros suportes) do ambiente desses animais, usando para isso superfícies, tubos (de variados diâmetros e em diferentes posições) e cordas. O animal é colocado sobre uma extremidade do suporte e encorajado a correr ou pular para a outra extremidade pela aproximação de um observador. A locomoção ao longo dos suportes é gravada com uma câmera de vídeo e depois analisada digitalmente para avaliações de desempenho locomotor (velocidade, sequência de movimentação dos membros, comportamento postural etc.) de cada espécie.

Figura 7
Figura 7. A base da cauda da cuíca Micoureus travassosi é coberta de pelos
Figura 8
Figura 8. Números de capturas no chão e no dossel das sete espécies de marsupiais estudadas, obtidos a partir da técnica de captura-marcação-recaptura

No dossel

O dossel é formado por galhos horizontais, ramos terminais finos e a cobertura de folhas da copa das árvores, que na área estudada alcançam até 30 m de altura. Uma queda dessa altura seria fatal e, por isso, as espécies que utilizam o dossel apresentam características já citadas, como grande flexibilidade, cauda preênsil e grandes garras que as ajudam a escalar e manter-se seguras nos suportes.

Figura 9
Figura 9. Os olhos da cuíca-lanosa (Caluromys philander) são proeminentes e frontais, como os dos primatas

Duas espécies de marsupiais são encontradas com frequência nesse estrato da mata: a cuíca-lanosa (Caluromys philander) (figura 9) e a catita Gracilinanus microtarsus (figura 10). Essa catita, com cerca de 35 g, é a espécie mais dócil. Tem pelagem de tom alaranjado, com uma máscara preta em torno dos olhos. Embora seja considerada de dossel, é às vezes capturada no chão. É tão ágil quanto M. incanus, mas é ainda mais rápida que esta em suportes verticais, como cipós.

 Já a bela cuíca-lanosa tem pelagem marrom avermelhada, com uma faixa marrom-escura que se estende dos olhos ao focinho. Seus olhos são proeminentes e frontais, como os dos primatas. Mostra grande ferocidade quando manipulada, emitindo um som semelhante ao do instrumento musical de mesmo nome. A espécie é considerada estrita do dossel, tendo sido capturada apenas nesse estrato, mas seus ninhos já foram encontrados a 2,5 m e a 5 m do solo, indicando que ocasionalmente usa os estratos inferiores. Sua locomoção nos ramos terminais finos da copa é lenta e cuidadosa, provavelmente em função de sua morfologia (como a constituição das costelas e disposição das vértebras) e de seu grande tamanho (cerca de 200 g) entre as espécies arborícolas. Para passar de uma árvore a outra ela não salta, mas escolhe cuidadosamente os galhos que usa, mantendo sua cauda presa o tempo todo. Assim, permanece sempre com quatro “membros” agarrados nos suportes, o que reduz o risco de queda.

As pesquisas científicas desenvolvidas pelas universidades brasileiras na Mata Atlântica são incipientes. Por isso, os conhecimentos obtidos sobre a ecologia de organismos desse bioma, como os marsupiais, são de fundamental importância para a preservação de seus remanescentes. Este estudo mostrou-se eficaz porque, através de observações informais, permitiu descrever comportamentos locomotores nunca percebidos antes e identificar mecanismos de defesa dessas espécies quando manipuladas. Além disso, visa incentivar outros pesquisadores a divulgar para o meio científico e para o público leigo observações feitas no dia a dia de seus estudos.

Figura 10
Figura 10. A pequena catita Gracilinanus microtarsus é facilmente reconhecida por sua ‘máscara’ escura

Publicado em 22 de fevereiro de 2011